Duas palavrinhas apenas deixaram já o caldo entornado pela parte do presidente filipino, conhecido por ser difícil de assoar e de não ter papas na língua. Desta vez, dirigidas ao presidente da nação mais poderosa do planeta, o número um norte-americano, Barack Obama.

Putang ina", que, na língua Tagalog, o idioma mais falado nas Filipinas, significa algo que não é nada abonatório em idioma nenhum.

Filho da p***. juro que lho digo no fórum", foi a frase com que Duterte decidiu presentear Obama, antes de partir para a ASEAN, a cimeira dos países do sudeste asiático, que se vai realizar no Laos.

No poder desde o último dia de junho, Duterte tem marcado os seus dois meses de presidência por diversos mimos dirigidos a vários líderes mundiais, casos do Papa Francisco e do ainda secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Agora, foi a vez de Obama e tudo por causa da chacina em curso nas Filipinas, a coberto da luta contra a droga.

Mais de duas mil pessoas, incluindo traficantes e consumidores de drogas, morreram nos últimos dois meses no país asiático. Ao que se sabe, vítimas da polícia e de obscuros esquadrões da morte. E sem julgamento prévio. Nada que pareça preocupar Rodrigo Duterte.

Sou o presidente de um Estado soberano. Há muito que deixámos de ser uma colónia. Não tenho nenhum amo, a não ser o povo filipino. Ninguém. Têm de ter respeito. Não me façam perguntas. Putang ina juro que Iho digo no fórum", disparou Duterte à partida da capital filipina, Manila.

História (mal) passada

Quem é ele para me confrontar?", foi a pergunta final de Duterte, lançada aos jornalistas, mas obviamente dirigida ao presidente dos Estados Unidos, lembrando que nunca as Filipinas receberam um pedido de desculpas pela colonização norte-americana, iniciada no século XIX.

Dessa época, ficou registada na história -  e nos argumentos de Rodrigo Duterte - a morte de milhares de filipinos de etnia Moro, muçulmanos, durante uma campanha de pacificação levada a cabo pelos ocupantes norte-americanos.

Para o presidente filipino, factos como esse são ainda o motivo pelo qual "o sul do país continua em ebulição", com a insurgência de grupos separatistas. E frequentes atentados.

Obama em brasa

Ainda na China, nos finais da cimeira do G20, que reúne os líderes das 20 maiores economias mundiais, Barack Obama não terá gostado do que ouviu. Nada garante que estivesse na agenda do encontro a dois, a questão da matança sem quartel nas Filipinas, a coberto da luta contra a droga. Mas está agora a perguntar se vale a pena reunir-se com Rodrigo Duterte.

Quero estar sempre seguro de que estou a ter uma reunião produtiva,e de que vamos conseguir alguma coisa", explicou Obama aos jornalistas.

O staff do presidente norte-americano, que vai também participar na cimeira da ASEAN, está a avaliar a oportunidade do encontro. Sendo que a questão do combate ao narcotráfico nas Filipinas é mesmo um assunto que não está esquecido. Pelo menos, continua na carteira de Obama.

Reconhecemos o peso significativo que o tráfico de droga representa, não só nas Filipinas como por todo o mundo. Lutar contra ele é duro. Mas afirmaremos sempre a necessidade de se ter um processo envolvido numa luta que seja consistente com as normas internacionais básicas. E assim, sem dúvida, se e quando temos uma cimeira será um assunto que será trazido à discussão", sustentou Obama.

Obama recusa reunir-se com homólogo filipino

O Presidente norte-americano, Barack Obama, recusou reunir-se, no Laos, com o seu homólogo filipino, como esteve previsto, após uma tensa troca de críticas sobre a controvérsia campanha antidroga realizada pelo novo líder da Filipinas.

O Presidente Obama não manterá uma reunião bilateral com o Presidente Duterte, das Filipinas, esta tarde [de terça-feira, 06 de setembro, hora local de Laos]”, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Ned Price, num comunicado distribuído em Washington.

“Em vez disso, [Obama] irá reunir-se com a Presidente Park [Geun-hye] da Coreia do Sul esta tarde”, acrescentou Price.