Foi numa alusão ao seu antigo slogan de campanha – “Yes, we can” – que Barack Obama se despediu do povo americano, esta terça-feira, no seu último discurso oficial como presidente dos Estados Unidos.

Sim, nós podemos e fizemos”, afirmou após enumerar alguns feitos alcançados durante o seu mandato, como a retomada das relações com Cuba ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “A América é hoje um lugar melhor e mais forte do que quando começamos.”

Obama aproveitou para voltar a defender o seu programa de sistema de saúde, conhecido como Obamacare, com que Trump já prometeu acabar.

"Se alguém puder apresentar um plano que seja comprovadamente melhor do que as melhorias que fizemos ao nosso sistema de saúde, que cubra tantas pessoas a um custo menor, vou apoiá-lo publicamente", prometeu.

A dez dias de entregar a pasta a Donald Trump, Obama falou durante cerca de 50 minutos no McCormick Place, em Chicago, para um público de 20 mil pessoas.

Num discurso onde reconheceu que, apesar do caráter histórico da sua eleição como primeiro Presidente afro-americano, o racismo continua vivo nos EUA, Obama frisou que há “mais trabalho a fazer” para eliminar os preconceitos contra minorias.

Depois da minha eleição, falou-se muito de uns Estados Unidos pós-raciais. Essa visão, ainda que bem-intencionada, nunca foi realista. Porque a raça continua a ser uma força potente e frequentemente divisiva da nossa sociedade”, disse Obama, no seu último discurso como Presidente em Chicago. “Não estamos onde precisamos estar.”

Não esquecendo as polémicas em torno do seu sucessor, Obama alertou, na terça-feira à noite (madrugada de hoje em Lisboa), que a democracia norte-americana enfrenta um duro teste, e apelou aos seus apoiantes que ‘passem o testemunho’ de modo a criar um novo “pacto social”.

No discurso que marca a despedida de oito anos como presidente dos EUA, o democrata defendeu o seu legado e pediu aos americanos que sejam vigilantes da democracia e que garantam uma passagem pacífica de poder para o presidente eleito, Donald Trump.

Aplaudido por diversas vezes, Obama assegurou que prometeu a Trump uma transição “o mais suave possível”, assim como aconteceu há oito anos, quando Bush deixou a Casa Branca.

O presidente também incentivou os cidadãos a participarem mais ativamente da vida pública.

A América não é uma coisa frágil. Mas aquilo que conseguimos não está assegurado", lembrou. "A nossa democracia precisa de vocês. Não apenas quando há uma eleição, mas durante toda a sua vida."

Homenagem emocionada a Michelle

Ao falar sobre a primeira-dama Michelle Obama, o presidente esteve visivelmente emocionado.

Michelle, tenho orgulho em ti e o país também. Nos últimos anos não foste só minha mulher e mãe das minhas filhas, tens sido a minha melhor amiga. Assumiste um papel que não pediste e abraçaste-o. Com graça. E com garra. E com estilo e bom humor", disse, chegando a limpar as lágrimas, e foi aplaudido de pé pelo público. "Malia e Sasha, de tudo o que já fiz na minha vida, o meu maior orgulho é ser vosso pai".

Obama elogiou ainda o vice-presidente Joe Biden e a equipa da Casa Branca.

Negar alterações climáticas é “trair as gerações futuras” 

Barack Obama alertou para o perigo de negar a existência das alterações climáticas, sublinhou a importância da influência do país no mundo e lembrou que os Estados Unidos não sofreram nenhum atentado do exterior em oito anos.

No seu último discurso enquanto Presidente dos Estados Unidos, Obama afirmou que negar que o aquecimento global existe significa trair as próximas gerações. “Podemos e devemos discutir sobre a melhor abordagem para resolver o problema. Mas simplesmente negar o problema, não é apenas trair as gerações futuras, mas trair o espírito essencial deste país, o espírito essencial de inovação e capacidade de resolver problemas que guiou os nossos fundadores”, disse esta noite em Chicago.

Olhando para o panorama internacional, Obama apelou a que os Estados Unidos se mantenham “vigilantes, mas não assustados”, defendendo que as duas outras potências mundiais que lutam pela hegemonia global, a Rússia e a China, não a conseguirão, a não ser que o país mude drasticamente.