Os Estados Unidos ainda são a maior economia do mundo, mas a diferença para a China está a reduzir a uma velocidade maior do que muitos anteciparam.

O fechamento do “America First” da atual Administração Trump está a acelerar esta tendência, já iniciada nos anos Obama.

A nova escalada de tensão nuclear norte-coreana, com o envio do mais potente míssil balístico intercontinental alguma vez fabricado por Pyongyang, voltou a mostrar que os EUA já não conseguem, sozinhos, resolver uma crise desta gravidade sem que a China intervenha decisivamente.

O “Make America Great Again” prometido na campanha presidencial de 2016 está a sair furado: há uma palavra a mais na avaliação de desempenho do 45.º Presidente dos EUA: é que Donald Trump está a tornar a América… menos grande outra vez.

Se os EUA foram, nas últimas décadas, a “nação indispensável” sem a qual nenhuma grande questão mundial se resolveria, nos próximos anos teremos que olhar para uma “relação fundamental”: EUA/China, a tal “Chimérica” que Nial Ferguson tinha identificado para o que resta do século XXI.

A questão é que, há cerca de uma década, imaginávamos a ultrapassagem da China sobre os EUA como um acontecimento distante, talvez a verificar-se “daqui a muitos, muitos anos, décadas, quiçá ainda neste século”.

O retraimento americano e a ascensão chinesa acontecem gradualmente, mas surgem como inexoráveis.

E esse processo acelera, ano após ano.

Vejamos os números: o PIB chinês é já há cinco anos o segundo maior do mundo (desde que em 2012 a China ultrapassou o Japão como segunda maior economia), mas o seu PIB (cerca de 13 triliões de dólares) é ainda, em 2017, 73% do PIB dos EUA (cerca de 17,9 triliões de dólares).

A questão é que, se fizéssemos essas contas no ano passado, a China não tinha 73% mas apenas 62% da riqueza americana. Há dois anos, 59%.

Estamos perante uma questão de tempo até assistir à mudança de líder no barómetro mais objetivo na contabilização de qual é maior potência económica do mundo.

A ascensão da China está a acelerar

Na verdade, essa mudança já ocorreu num indicador objetivo, confirmado pelo FMI -- o da paridade do poder de compra: nesse ítem, o PIB chinês representa 18% da economia mundial, os EUA apenas 15,5%.

A ultrapassagem chinesa nesse parâmetro aconteceu há três anos, em 2014, altura em que, pela paridade do poder de compra, a China passou a representar 16,6% do todo mundial, mais 0.6% (16%) que os EUA.

A partir daí, a diferença aumentou sempre, em favor da China, sendo agora de 2,5%.

A “longa estratégia chinesa”, pensamento de Xi Jinping tornado oficial por todo o estado chinês nos últimos meses, prevê que a China se torne a maior potência do mundo quando o século XXI dobrar da primeira para a segunda metade.

Mas, a este ritmo, tudo indica que isso acontecerá ainda antes. Bem antes, talvez.

A consagração da China como maior potência mundial, o tal acontecimento que “só iria ocorrer num momento muito distante”, talvez vá acontecer durante as vidas da maior parte das pessoas que estão a ler este texto.

E estando, pelo menos até janeiro de 2021, na Casa Branca alguém que não é bem um Presidente dos Estados Unidos, essa tendência da balança pender cada vez mais para o lado chinês e cada vez menos para o lado americano deverá agravar-se. Quem diria?

“Cansados” de tanto… perder?

Donald Trump prometeu na campanha que ia pôr a América "a ganhar tanto, mas tanto, que os americanos" se iam "cansar de tanto ganhar".

Dez meses e meio depois de tomar posse, os americanos começam a cansar-se, sim, mas... de perder tanto (59% dizem-se embaraçados de ter Trump como Presidente, apenas 33% aprovam a sua liderança).

Isto, de facto, não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Comissão Mueller está só a começar

Mensagem privada "DM" (Direct Message) da conta twitter do Wikileaks para Donald Trump Jr, filho mais velho do Presidente dos EUA, enviada em dezembro de 2016, um mês depois da eleição presidencial norte-americana: "Olá Don. Esperamos que esteja bem! Em relação ao sr. Assange: Obama/Clinton pressionaram a Suécia, o Reino Unido e a Austrália (o seu país natal) para perseguirem ilicitamente o sr. Assange. Seria muito fácil e útil o seu pai sugerir que a Austrália nomeasse Assange embaixador em Washington DC. É um tipo inteligente e duro e o mais famoso australiano que vocês têm!"

A Comissão Mueller está só a começar o seu rol de acusações.

A primeira leva já apanhou Paul Manafort (o homem que dirigiu a campanha presidencial de Trump durante meio ano, acusado de "conspiração contra a América"!), Rick Gates (seu sócio e antigo conselheiro da campanha Trump) e George Papadopoulos (o "cisne negro" que optou pela delação premiada).

Mas tudo indica que as "Russia Probes" estão só a começar.

Os sinais apontam para que a próxima fase incida sobre Carter Page, agente duplo dos russos que era "só" o conselheiro de Trump para a política externa, Mike Flynn (general que teve que se demitir ao fim de 23 dias do cargo de Conselheiro de Segurança Nacional) e, precisamente, Donald Trump Jr, que se encontrou com uma advogada russa que lhe prometera "revelar coisas comprometedoras sobre Hillary Clinton".

A mensagem acima transcrita, revelada pela "The Atlantic", reforça a ideia de que Donald Trump Jr. era peça fundamental na recolha de elementos para a "campanha suja" contra Hillary.

O Wikileaks, que tudo fez para travar a nomeação de Hillary Clinton pelo Partido Democrata, terá sido uma das plataformas decisivas para a difusão da "Russia Collusion".

Boa parte do futuro desta presidência dependerá da eficácia das investigações da Comissão Mueller.

Aguardemos os próximos capítulos.