O despedimento de Rex Tillerson não é o mais inesperado mas é, certamente, o mais significativo nesta inenarrável Presidência Trump.

Começa a não haver lugar para moderados na atual administração americana.

E o desfilar de quedas de elementos que possam fazer frente ao poder egocêntrico do Presidente pode ter, em breve, mais uma baixa: HR McMaster, o general que lidera o Conselho de Segurança Nacional. Restam os generais John Kelly (‘chief of staff’) e Jim Mattis (Pentágono). Até quando?

Há três meses tinha começado a correr um rumor, lançado por “fontes não identificadas da Casa Branca”, que apontavam precisamente para o cenário que rebentou há dias: Rex Tillerson fora do Departamento de Estado, Mike Pompeo a transitar de Langley (sede da CIA) para Washington, nova liderança em Foggy Bottom (zona da diplomacia em DC).

Tillerson discordava do Presidente em matérias fundamentais: acordo nuclear com o Irão, gestão da ameaça nuclear norte-coreana, relações com a China e a Rússia.

A desavença definitiva entre Presidente e Secretário de Estado terá acontecido na semana passada, quando se soube que por maio os líderes americano e norte-coreano vão encontrar-se.

O próprio Trump admitiu que não falou com seu chefe de diplomacia sobre esse tema: "Tomei a decisão sozinho". 

Donald terá achado, quando escolheu o então CEO da Exxon Mobil, que estava a optar por um elemento muito próximo com Putin e os interesses russos e por um não diplomata com foco totalmente virado para os negócios.

Enganou-se: viu em Rex Tillerson alguém que gosta de ouvir os diplomatas, que se preocupou em se aconselhar com os antecessores (Condi Rice, Colin Powell, até Hillary Clinton e John Kerry).

O problema de Rex foi ter sido uma das melhores surpresas do primeiro ano da Administração Trump.

Este despedimento agrava a noção de que o Presidente tem cada vez menos elementos de equilíbrio na sua administração (isto surge apenas uma semana depois da saída de Gary Cohn de Conselheiro Económico Nacional) e reforça a tese de que estamos perante uma experiência bizarra de uma espécie de “one man show” na Casa Branca – algo muito pouco prudente para um país com um sistema de poder complexo e interligado, avesso a todo o tipo de autoritarismos e “unipessoalismos”.

Pompeo mostrou, como diretor da CIA, estar um pouco mais alinhado com a visão do Presidente para a política externa, sobretudo na questão do Irão.

Para suceder a Mike na direção da CIA foi escolhida Gina Haspel, que já era número 2 de Pompeo em Langley, sendo assim a primeira mulher a liderar a principal agência de inteligência e informações dos Estados Unidos.

Gary Cohn bateu com a porta

A perda de Gary Cohn já tinha sido um dos momentos mais definidores destes 13 meses e meio de Presidência Trump.

O antigo "chief operating officer" da Goldman Sachs era a ligação perfeita de Donald ao mundo financeiro -- depois de uma campanha presidencial totalmente demagógica e populista, em que Trump prometia "destruir os interesses de Wall Street".

Desde Obama que todas as ilusões nesse aspeto tinham caído: independentemente da plataforma política de cada inquilino da Casa Branca, todos os Presidentes dos EUA têm que fazer pontes com os mercados financeiros e bolsistas -- "it comes with the territory".

Cohn juntava ligação aos mercados e identificação com as prioridades fiscais dos republicanos com uma autonomia que, por vezes, chocou com o modo truculento de Trump (está registado como democrata, esteve contra a saída americana do Acordo de Paris, foi bem mais crítico que Trump dos acontecimentos racistas de Charlottesville)

Não por acaso, o Presidente terá equacionado, muito recentemente, a possibilidade de escolher Gary para "chief of staff", se se confirmar o cenário de ter que encontrar substituto para o general Kelly.

A queda de Gary Cohn talvez só seja ultrapassada, em grau de importância, à saída de Steve Bannon.

Mas tem um sinal contrário: sem Bannon, Trump parecia menos radical. Sem Cohn, perde um fator de estabilidade e credibilidade.

Os mercados, tendencialmente nervosos e inseguros, não gostaram da surpresa e reagiram em perda.

Este é mais um episódio que mostra que Trump, no dilema entre conservar um elemento importante e manter as promessas básicas que fez à sua base, opta sempre pela segunda hipótese.

Donald quer parecer durão na sua plataforma nacionalista e ultra-protecionista e ignorou os avisos de Gary para o erro que será os EUA provocarem uma guerra comercial de grande escala. Não pode correr bem.

Os rumores sobre uma possível demissão de Cohn já circulavam em Washington e em Wall Street nos últimos dias, mas só nas últimas horas passaram a uma quase certeza, depois de fonte oficial da Casa Branca ter libertado essa indicação.

Na base de mais uma perda de um elemento influente para a Administração Trump estão as divergências entre o Presidente e o seu ainda “top economic adviser” na questão das tarifas.

Donald Trump tem vindo a anunciar um plano de forte agravamento de tarifas impostas pelos EUA a países com quem têm importantes relações económicas.

E está a ignorar, olimpicamente, os avisos de vários setores empresariais e industriais, no sentido de que uma política de tarifas muito elevadas levará a uma “guerra comercial” de grande dimensão, com consequências possivelmente desastrosas para o comércio internacional e, eventualmente, também para a economia mundial.

Trump tem uma visão redutora, mesquinha e ultrapassada deste tema, considerando que os EUA são “enganados” pelos seus parceiros comerciais e quererá mesmo levar avante a sua plataforma ultraprotecionista, que tem associada uma componente nacionalista, com a qual levou a cabo a campanha presidencial de 2016.

Desde que tomou posse, há quase 13 meses e meio, Donald Trump já perdeu mais de duas dezenas de elementos de topo da sua administração.

Gary Cohn é uma das saídas mais significativas. Partilhava com o Presidente uma visão que aponta para os cortes fiscais e para a desregulação dos mercados, dando gás ao clima de euforia bolsista que dominou os primeiros meses de Presidência Trump, mas teve com Donald algumas divergências de posição em temas menos ligados aos mercados financeiros (foi dos poucos “top officials” da Administração Trump a estar claramente contra a saída americana do Acordo de Paris, por considerar negativa para as empresas americanas).

Num gesto pouco habitual para o estilo egocêntrico e orgulhoso do atual Presidente dos EUA, desta vez Trump fez questão de elogiar Gary Cohn, antecipando assim, em declaração ao "New York Times", a perda do seu conselheiro económico nacional: “Gary fez um trabalho fantástico na liderança da minha equipa económica nacional. Soube marcar a agenda certa na sua área, ajudando a concretizar um histórico corte de impostos e a reforçar a economia americana de novo. Ele é um talento raro e agradeço-lhe pelo serviço prestado ao povo Americano”.

Nem parece Trump a falar -- mas será suficiente para perceber a dimensão de mais esta perda para uma presidência marcada pelo caos e pela inconsistência.

Nos mercados há já quem tema que a saída de Cohn possa provocar mais uma fase inesperada de agitação e incerteza. E agora, Donald?

Caos, caos, caos

O caos na Administração Trump faz com que, em apenas 28% do mandato cumprido, Donald esteja a escolher o seu... quinto diretor de comunicação.

Hope Hicks saiu há dias e haverá, neste momento, uma guerra interna entre as diferentes fações desta bizarra administração para influenciar a decisão do Presidente.

Dirigir a comunicação na Casa Branca de Trump é um posto de desgaste hiper rápido: Sean Spicer esteve 89 dias, Mike Dubke 88, o desbocado Anthony Scaramucci só lá esteve uma semana e meia e Hope Hicks desempenhou a função por 203 dias.

É no que dá ter alguém na Sala Oval que não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Outra espantosa queda

É a história de uma espantosa queda, depois de uma escalada ascensão sem qualquer sustentação.

Jared Kushner, genro do Presidente dos EUA, marido da filha preferida de Donald Trump, Ivanka, foi gloriosamente despromovido dos cargos muito relevantes que tinha na Casa Branca -- e isso nem sequer foi decidido pelo sogro-presidente.

John Kelly, o general que assumiu há meio ano o posto de "chief of staff" para disciplinar a Casa Branca, voltou a mostrar independência em relação ao Presidente e a fazer valer a grande margem de liderança e autonomia que possui e gosta de exercer dentro da Administração Trump.

No final do verão já tinha sido ele a convencer Donald a afastar Steve Bannon -- com quem estava em guerra surda, perante duas vias totalmente opostas -- do acesso direto ao Conselho de Segurança Nacional, voltou a ser o general Kelly a determinar a retirada a Kushner dos privilégios de aceder ao "briefing" diário do Presidente e a poder mexer com informação "top secret".

Jared recebeu do Presidente pastas muito relevantes na política externa, como a relação com a Arábia Saudita (era ele o ponto de contato mais direto do príncipe Mohamed bin Salman com os americanos) e com Israel.

Sem poder aceder a informação privilegiada, o poder efetivo de Kushner acaba de ser, na prática, esvaziado, mesmo que o sogro lhe mantenha o título de "conselheiro sénior do Presidente", que chega a ser risível para quem tem 37 anos e zero de experiência política.

As razões para esta sonora despromoção: a preocupação de Kelly em relação às ligações de Kushner relativamente ao império imobiliário que construiu.

E ainda há, claro, o fator de maior risco para a Administração Trump: a Comissão Mueller, que há meses tem Jared Kushner no seu radar, como um dos nomes próximos do Presidente que poderão, a partir de certo ponto da investigação, a vir a ser alvo de uma acusação formal.

E assim cai mais uma peça decisiva do "inner circle" -- cada vez mais frágil, curto e vulnerável -- daquele que não é bem um Presidente dos Estados Unidos.