Sempre que vem à luz um novo acontecimento sobre os perigos ocultos de um comportamento comum, as pessoas muitas vezes tendem a generalizar e começam a temer que "tudo nos pode matar hoje em dia”. Uma investigação jornalística, levada a cabo durante 18 meses nos EUA, após a morte de um menino texano de quatro anos, Salomon Barahona Jr., revelou que alguns desses temores podem não ser totalmente injustificados.

A reportagem com sete capítulos, agora publicada com o título “Odontologia Mortal”, revela que muitas pessoas têm morrido ou ficado seriamente feridas por causa de erros cometidos pelo dentista. A investigação foi realizada por Brooks Egerton, do jornal “Dallas Morning News”, e começou na primavera de 2014, quando o jornalista soube da morte de uma criança de Dallas devido à sedação excessiva que lhe foi administrada pelo dentista.

Salomon e Daniela Barahona, os pais de “Júnior” (assim lhe chamavam em família), contaram ao jornalista que levaram o filho ao dentista pela primeira vez em 2013, onde souberam que a criança tinha quatro cavidades nos dentes. O dentista de família recomendou então que consultassem um dentista pediátrico para fazer o tratamento.

O dentista para crianças, John Riehs, acabou por diagnosticar não quatro, mas 12 cavidades e recomendou que Júnior fosse anestesiado para que pudesse ser tratado de forma adequada. Confiando na avaliação do médico, os pais concordaram em deixá-lo realizar o procedimento.

De acordo com os registos, o dentista deu a Júnior um "cocktail" sedativo, que continha o analgésico Demerol e as drogas anti-ansiedade Valium e Hidroxizina. A anestesia era tão forte que Júnior parou de respirar. O médico John Riehs, que não tinha assistente e estava a trabalhar sozinho, não se apercebeu porque o oxímetro, que tinha de estar anexado ao dedo da criança para medir os níveis de oxigénio no sangue, tinha caído.

Depois de fazer a reanimação, John Riehs "injetou o menino com uma droga para reverter os efeitos dos narcóticos", que trouxe com sucesso o pulso de volta. Uma ambulância foi chamada e Júnior foi levado à pressa para o hospital, mas nessa altura o estrago já estava feito.

Júnior esteve internado quatro dias na Unidade de Cuidados Intensivos, mas o estado da criança piorou até que faleceu a 2 de janeiro de 2014.
 

Um paciente morto a cada dois dias


A morte prematura e trágica de Salomon Barahona Jr. pode parecer um acidente, mas o trabalho do jornalista Brooke Egerton sugere que não se trata de um acontecimento isolado, como poderíamos pensar.

De acordo com o trabalho que publicou, 85 pacientes odontológicos morreram no Estado do Texas desde 2010 e estima-se que mil pessoas tenham morrido em todo o país durante o mesmo período de tempo: aproximadamente uma pessoa de dois em dois dias.

“Essa informação só foi obtida depois de o jornal [Dallas Morning News] ter processado o Conselho Estadual de Examinadores Dentários do Texas e de ter entrado com pedidos de consulta de registos, nos 50 Estados do país, dos resultados de investigação efetuada pelo Conselho, na sequência dos erros fatais cometidos pelos praticantes de Medicina Dentária”, explica Brooke Egerton.


O jornalista de investigação do “Dallas Morning News” diz-se esperançado de que, agora que estas questões foram trazidas para a luz do dia, talvez possam ser tomadas medidas para criar um ambiente mais seguro para os pacientes em todos os Estados dos EUA.

“Então, talvez uma pequena parte da morte de Júnior não tenha sido em vão”, afirma.
 

E quanto ao Dr. Riehs?


O Conselho Estadual de Examinadores Dentários do Texas condenou o dentista pediátrico a três anos de liberdade condicional sem supervisão e a pagar uma multa 3.000 dólares (2.728 euros).

A licença médica foi-lhe retirada, mas John Riehs recuperou-a em troca de “fazer cursos online de atualização e passar num teste de múltipla escolha”, refere o “Dallas Morning News”.

O dentista fechou a clínica Dallas após a morte de Júnior. Este ano, John Riehs abriu uma nova clínica e continua a atender pacientes e a administrar anestesias, conclui o jornal.