O Governo da Rússia está a chamar ao Kremlin os embaixadores dos países que anunciaram a expulsão de diplomatas russos. Isto no dia em que o porta-voz do Kremlin veio defender que não foi a Rússia a iniciar uma guerra diplomática

Uma das decisões entretanto tomadas foi expulsar dois diplomatas holandeses do país, em retaliação pela expulsão de dois diplomatas russos da Holanda, anunciou a embaixadora, Renée Jones-Bos, à agência de notícias TAAS.

Dois dos meus colegas estão a sair de Moscovo, mas nós, a embaixada, ficamos aqui".

Tudo isto surge no seguimento do envenenamento do antigo espião russo Sergei Skripal e da sua filha Yulia. Primeiro, Moscovo decidiu expulsar 60 diplomatas norte-americanos, em retaliação pela expulsão de 60 diplomatas russos nos Estados Unidos.

Mas está a ir mais longe. De acordo com os repórteres da agência de notícias francesa AFP que estão em Moscovo a acompanhar a chegada dos diplomatas, também foram chamados ao Kremlin embaixadores de Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Polónia.

De outros países, começaram também a chegar, segundo os repórteres a AFP, embaixadores da Letónia, a Lituânia, a Eslováquia e a República Checa.

"Em 30 de março, os chefes das missões diplomáticas de vários países acreditados na Federação Russa, que tomaram ações não amigáveis contra a Rússia 'em solidariedade' com o Reino Unido no caso Skripal foram convocados ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia", le-se numa nota de imprensa colocada no site do MNE russo.

Os embaixadores vão receber notas de protesto e serão informados sobre as medidas recíprocas"

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"Não foi a Rússia que se envolveu numa guerra diplomática"

Esta decisão de convocar os embaixadores surge no mesmo dia em que o Kremlin garantiu que não foi a Rússia que começou com isto.

Não é a Rússia que se envolveu numa guerra diplomática, não é a Rússia que iniciou uma troca de sanções ou uma expulsão de diplomatas. A Rússia foi forçada a responder aos atos injustos e ilegítimos de Washington"

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse aos jornalistas que o presidente russo "ainda é a favor do desenvolvimento de boas relações com todos os países, incluindo os Estados Unidos".

A decisão de Moscovo de expulsar 60 diplomatas norte-americanos foi, sim, em retaliação pela expulsão de 60 diplomatas russos nos Estados Unidos.

Não é a Rússia que se envolveu numa guerra diplomática, não é a Rússia que iniciou uma troca de sanções ou uma expulsão de diplomatas. A Rússia foi forçada a responder aos atos injustos e ilegítimos de Washington"

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse aos jornalistas que o presidente russo "ainda é a favor do desenvolvimento de boas relações com todos os países, incluindo os Estados Unidos".

Se se acrescentarem as medidas similares tomadas pelo Reino Unido, pela maioria dos Estados membros da União Europeia, bem como pela Ucrânia, Canadá e Austrália, já somam quase 230 os diplomatas que devem ser expulsos em consequência do caso do envenenamento no Reino Unido do ex-espião russo Serguei Skripal.

“Não há qualquer justificação para a reação russa”, destacou a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Heather Nauert, durante um encontro com jornalistas, na quinta-feira. “Reservamo-nos o direito de responder”, continuou, acrescentando que “as opções estão a ser examinadas”.

Estimou ainda que Moscovo tinha “decidido isolar-se ainda mais”, ao expulsar os diplomatas norte-americanos e encerrar o consulado dos EUA em São Petersburgo, depois de medidas idênticas tomadas por Washington.

Até agora, a Federação Russa anunciou a expulsão de 83 diplomatas ocidentais, aqueles norte-americanos mais 23 britânicos, já expulsos. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, deixa, desde já, um aviso:

Quanto aos outros países, (a resposta de Moscovo) vai ser idêntica no que respeita ao número de pessoas que vão ter de abandonar a Rússia”

Tensão como no tempo da Guerra Fria

EUA e 18 Estados da União Europeia, além de outros Estados ocidentais, anunciaram, desde segunda-feira, 122 expulsões. Com os 23 russos já expulsos pelo Reino Unido, em 20 de março, são 145 os diplomatas russos que foram objeto de expulsão.

A estes, têm ainda de se acrescentar os sete membros da representação russa na sede da NATO, em Bruxelas, aos quais a Aliança Atlântica já anunciou que vai retirar a acreditação.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, indicou que “medidas suplementares, incluindo novas expulsões, não estavam excluídas nos próximos dias e próximas semanas”.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, inquietou-se hoje por a tensão atual entre os EUA e a Federação Russa começar a assemelhar-se com a da Guerra Fria.

Tudo começou com o envenenamento de um ex-espião

O ex-espião duplo de origem russa Serguei Skripal, de 66 anos, e a sua filha Yulia, de 33 anos, foram encontrados inconscientes a 4 de março em Salisbury, no sul de Inglaterra, após terem sido envenenados com um componente químico que ataca o sistema nervoso. Ele continua em estado crítico, a filha está a melhorar.

O Reino Unido atribuiu o envenenamento à Rússia, que tem desmentido todas as acusações e exigido provas concretas sobre esta alegação.

Em 14 de março, Londres anunciou a expulsão de 23 diplomatas russos do território britânico e o congelamento das relações bilaterais, ao que Moscovo respondeu expulsando 23 diplomatas britânicos e suspendendo a atividade do British Council na Rússia.