Um homem preso há quase 46 anos, nos Estados Unidos da América (EUA), vai ser libertado quase meio século depois por ter sido provado que é inocente. Wilbert Jones, agora com 65 anos, foi acusado e condenado a prisão perpétua, com 19 anos, por rapto e violação de uma enfermeira.

As autoridades retiveram provas, há décadas atrás, que poderiam ter inocentado Wilbert Jones", afirmou o juiz Richard Anderson, que anulou a condenação por considerar o caso "fraco, na melhor hipótese", noticia a Associated Press.

À saída da prisão East Baton Rouge Parish, o norte-americano, do Estado do Louisiana, agradeceu a Deus pela liberdade, à família por nunca ter perdido a esperança e abraçou a equipa de advogados do Innocence Project New Orleans que tomou a cargo a defesa e convenceu um juiz da falta de provas do caso.

Deus é tão bom. Liberdade. Após mais de 45 anos e dez meses. É isto que me passa pela mente”, afirmou Wilbert Jones aos jornalistas, enquanto abraçava o irmão, Plem Jones, e outros familiares fora dos portões da prisão.

Cumprir todo esse tempo de cadeia foi “muito difícil", disse ainda Jones, sem deixar de sublinhar que não guarda ressentimento.

Eu perdoei. Eu perdoo", garantiu. "Eu não tinha o controlo sobre isso. Por que deveria preocupar-me com isso? Sou responsável por aquilo que depende de mim", declarou.

A diretora do Innocence Project New Orleans e advogada de Jones, Emily Maw, elogiou “a força extraordinária” de um homem “que passou cerca de 16 mil dias na prisão por algo que não fez” e que, não obstante, “sai com fé em Deus e na humanidade”.

Os procuradores afirmaram que não tencionam julgar Jones outra vez, mas acrescentaram que vão solicitar ao Supremo Tribunal estadual que reveja a decisão do juiz.

Emily Maw disse à Associated Press que seria “legalmente incorreto e moralmente problemático” se o gabinete do procurador do distrito de East Baton Rouge insistir em tentar manter a condenação, porque, se o fizer, estaria a “dizer que quando Wilbert Jones foi detido em 1972, então um jovem, negro, pobre, com 19 anos, não merecia os direitos que as pessoas têm hoje”. 

Wilbert Jones foi detido por suspeita de raptar uma enfermeira, à mão armada, de um parque de estacionamento do hospital de Baton Rouge e violá-la atrás de um edifício, na noite de 2 de outubro de 1971. No julgamento do caso acabou por ser condenado de rapto agravado e sentenciado a prisão perpétua.

O caso do Estado contra Jones "assentou inteiramente" no testemunho da enfermeira e na "questionável identificação" que fez de Jones como seu atacante, afirmou agora o juiz que anulou a condenação.

A enfermeira, que morreu em 2008, selecionou Jones de um conjunto de homens, alinhados pela polícia para identificação, mais de três meses depois da violação, mas, na altura, também disse às autoridades que o homem que a violou era mais alto e tinha uma voz "mais grossa".

Os advogados de Wilbert Jones defendem que a descrição da enfermeira corresponde à de um homem que tinha sido detido, mas nunca chegou a ser acusado, pela violação de uma mulher sequestrada do parque de estacionamento de outro hospital de Baton Rouge, 27 dias depois do ataque à enfermeira. O mesmo homem também foi detido por suspeita de violação de outra mulher em 1973, mas só foi acusado e condenado por ataque à mão armada neste caso.

O juiz Richard Anderson disse também que as provas mostram que a polícia sabia das parecenças entre aquele homem e a descrição feita pela enfermeira do seu atacante.

Não obstante, o Estado falhou em dar esta informação à defesa", escreveu o juiz.

Os advogados de Wilbert Jones salientaram que o procurador que conseguiu a condenação tinha um registo de escamotear provas favoráveis à defesa. Um parecer de 1974 do Supremo Tribunal do Estado destacou que o procurador era responsável por 11 sentenças que tinham sido anuladas no ano anterior - "Uma estatística incrível para um único procurador", como foi então escrito.

Enquanto apresentava as novidades relativas a este caso, que a organização de que é diretora assumiu há 15 anos, Emily Maw cedeu à emoção e ficou sem fala.

Às vezes é preciso muito tempo para que os tribunais reconheçam um erro", declarou.