Começa a ser Trump contra o mundo: com a vantagem de Hillary a crescer nas sondagens (51-41 para a democrata em estudo NBC/Wall St. Journal, 10-13 outubro), Donald vai resvalando para um discurso de ‘terra queimada’, atirando a reta final desta campanha para uma espécie de combate na lama.

O segundo debate voltou a registar vitória de Hillary e apenas deu para que Donald estancasse as exigências republicanas de uma desistência.

Trump não vai atirar a toalha ao chão, mas basta olhar para os fundamentais desta corrida para se perceber que, se as eleições fossem hoje, Hillary ganhava com grande distância, sobretudo depois da forte subida da democrata no eleitorado feminino, desde o episódio da gravação de 2005, em que Donald se referem em termos inaceitáveis às mulheres.

Sondagem CBS News/YouGov mostra grande avanço de Hillary sobre Trump entre o eleitorado feminino nos estados decisivos (51-35), o que ajuda ao resultado global de 46-40 de Clinton sobre Trump nos territórios que vão decidir a eleição.

À frente em quase todos os estados decisivos (neste momento, Donald só está à frente no Iowa), Hillary até surge empatada no… Utah (estado que vota republicano desde 1964) e ligeiramente em vantagem no Arizona (zona habitualmente republicana, mas onde a forte presença latina está a dar boas hipóteses a um triunfo de Hillary).

Os índices de probabilidades dão agora entre 85 e 92% de hipóteses de eleição Hillary, uma tendência que, com apenas três semanas para o dia da eleição, coloca este duelo num plano já muito inclinado.

Mas com Donald Trump nunca se sabe.

Há quem antecipe um cenário de desistência do nomeado republicano nos dias anteriores a 8 de novembro, ou então uma recusa de Donald legitimar a derrota (a tese de tal modo começou a correr nos últimos dias que o candidato a vice, Mike Pence, se viu na obrigação de garantir: “iremos sempre aceitar o resultado desta eleição”).

Mas as declarações de Trump nos últimos dois dias podem indicar essa via.

Donald, sem o apoio de quase todos os elementos importantes do Partido Republicano (muitos deles receosos de terem penalizações nas respetivas eleições para o Senado ou Câmara dos Representantes, a 8 de novembro) passou o fim de semana a falar em “rigged election” (eleição fraudelenta), numa suposta “conspiração internacional” a favorecer a democrata e a prejudicá-lo, num sistema mediático “que mente, esconde e deturpa”, escondendo “os temas que prejudicam Hillary”.

Na mesma linha, Rudy Giuliani, conselheiro político sénior da campanha Trump, insinuou fraude a favor de Hillary ao recordar: “Até já houve mortos a votar nos democratas”.

Donald conseguiu bater ainda mais no fundo (não era fácil) e sugeriu para o último debate um “teste de drogas”, porque achou que Hillary, no segundo duelo, estava “muito enérgica no início e quase a adormecer na parte final”.

Do lado de Hillary, a estratégia de gestão da vantagem, nesta fase, passa claramente por repetir, à exaustão, que Donald Trump não tem perfil, comportamento ou dignidade para ser Presidente dos EUA.

A campanha democrata reforçou, nos últimos dias, o foco nos casos que afetam Donald Trump, dando grande destaque aos testemunhos de mulheres que, nas últimas décadas, acusam o agora nomeado republicano de ter usado o seu poder empresarial, mediático ou financeiro para as assediar sexualmente.

Trump ripostou, dizendo que as mulheres em causa “não têm credibilidade”.

Enquanto isso, em vários estados já se vota e todos os dados apontam para que a máquina de Hillary no terreno é muito mais eficaz que a de Trump. Também no financiamento isso se verifica: em setembro, a campanha de Hillary arrecadou 154 milhões de dólares, para 100 milhões do campo Trump.

Matt Taibi, na Rolling Stone, fala na “fúria e falhanço de Donald Trump”. “Ganhe, perca ou desista, o nomeado republicano deitou lixo para o sistema político americano. E impôs a mais feia campanha presidencial da história da América”.

O debate da madrugada de quarta (19) para quinta (20), em Las Vegas, Nevada, com moderação do jornalista Chris Wallace, da FOX News, pode ser a última oportunidade para o republicano virar a agulha.

Mas, tendo em conta a solidez e vasta experiência de Hillary em debates televisivos, não é de prever que, com tamanha vantagem nas sondagens, a democrata possa cair nas armadilhas que o republicano se prepara para lhe preparar.