Um ex-estudante da Universidade de Stanford, EUA, condenado a seis meses de prisão por abusar sexualmente de uma jovem alcoolizada – cuja curta sentença está a provocar polémica nos EUA – escreveu uma carta onde culpa o consumo de álcool e a pressão de grupo para beber em festas universitárias como principal justificação para o que aconteceu.

Numa carta com 11 páginas, enviada ao tribunal, a que o New York Times teve acesso, Brock Turner descreve tudo que aconteceu naquela noite e mostra-se arrependido pelo “trauma” que causou à jovem de 23 anos, a 17 de janeiro de 2015. Diz, no entanto, que sabe que nunca “violou ninguém” e que nunca percebeu que estava a agir contra a vontade da rapariga.

Turner recorda toda aquela noite e as duas festas universitárias onde esteve. Conta como conheceu a jovem, que se beijaram e abandonaram a festa juntos com a intenção de seguirem para casa do estudante. No caminho a jovem tropeçou e ambos caíram, acabando por ficarem no chão onde retomaram o envolvimento. Turner conta que voltaram a beijar-se e que decidiu que podiam passar para o “passo seguinte”, mas que pediu sempre permissão antes de tocar nas zonas íntimas da rapariga.

Pensei, idioticamente, que uma vez que nos estávamos a beijar onde caímos, que seria uma boa ideia levar as coisas adiante, já que estávamos a deixar-nos levar pelo espírito do momento”.

O jovem pede desculpa pelo que aconteceu, e afirma que se pudesse voltar atrás nunca tocaria numa gota de álcool.

Sou o único responsável pelo que aconteceu naquela noite que mudou as vidas de [todas] estas pessoas para sempre. Daria tudo para mudar o que aconteceu.”

"Debilita-me pensar que as minhas ações causaram mal-estar físico e emocional, desnecessário e injusto. Este pensamento está na minha cabeça todos os segundos de todos os dias, desde que o episódio aconteceu”, acrescenta.

Naquela noite, Turner foi travado por dois rapazes quando alegadamente tentava fugir do local. Na carta que enviou ao tribunal conta que não estava a tentar escapar e que andava à procura de um sítio para vomitar quando foi agarrado pelos dois homens. Quando a polícia chegou, Turner achou que vinham para o ajudar, nunca pensou que estavam ali para o deter.

Turner foi condenado a seis meses de prisão efetiva, com três anos de condicional. Perdeu entretanto a bolsa de estudos que tinha na Universidade de Stanford e terá de se registar como agressor sexual.

O caso está a causar polémica nos EUA por vários motivos: em primeiro lugar pela curta sentença que o jovem recebeu, quando esta podia chegar aos 14 anos de prisão, depois pelas declarações do seu pai, que afirmou que a vida do seu filho foi arruinada por “20 minutos de ação”, e, principalmente, pela carta que a jovem violada escreveu ao tribunal – e ao abusador - a descrever o que aconteceu e como se sentiu depois do abuso. A missiva foi publicada no site Buzzfeed e tornou-se viral nas redes sociais.

“Na noite em que a notícia foi divulgada, sentei-me com os meus pais e disse-lhes que tinha sido abusada, para não verem as notícias porque é difícil, para saberem que estava bem, que estava ali. Mas enquanto contava [o que se passava] a minha mãe teve de me segurar, já não conseguia manter-me de pé. Não estava bem.”

[No dia seguinte à violação] não estava pronta para contar ao meu namorado e aos meus pais que, de facto, tinha sido violada atrás de um contentor do lixo, sem saber como, quando ou porquê. Se lhes contasse, ia ver o medo nas suas caras (…) então fiz de conta que aquilo não tinha acontecido. Tentei esquecer, mas era um peso tão grande que eu não comia, não dormia, não falava com ninguém. Depois do trabalho, ia para um sítio para gritar. (…) Mais de uma semana depois do incidente não recebi qualquer chamada ou novidades sobre o que me aconteceu. A única coisa que provava que aquilo tudo não tinha sido um sonho era a camisola do hospital que estava na minha gaveta.”

A vítima admite que ambos beberam demais naquela noite, mas frisa que isso nunca pode servir de desculpa para o que aconteceu.

O álcool não é desculpa. É um factor? Sim. Mas não foi o álcool que me despiu, que me penetrou com os dedos, que me arrastou a cabeça pelo chão, quando estava quase nua.”