Um estudo esta terça-feira publicado na revista The Lancet confirma a associação entre o Zika e a microcefalia, estimando que o risco é de uma em cada 100 mulheres infetadas com aquele vírus no primeiro trimestre de gravidez.

Baseado em dados recolhidos no surto de Zika que afetou a Polinésia Francesa entre 2013 e 2014, o estudo "suporta fortemente a hipótese de a infeção por Zika no primeiro trimestre de gravidez estar associado com um aumento do risco de microcefalia", disse Simon Cauchemez, coautor do estudo e investigador do Instituto Pasteur, de Paris.

Estimamos que o risco de microcefalia seja de uma em 100 mulheres infetadas com o vírus do Zika durante o primeiro trimestre de gravidez. Esta descoberta refere-se ao surto de 2013-14 na Polinésia Francesa e falta saber se as nossas descobertas se aplicam a outros países da mesma forma"

Apesar de o risco de microcefalia associado ao Zika ser relativamente baixo, quando comparado com outras infeções maternas – o risco do síndroma de rubéola congénita, por exemplo, é de 38 a 100% se as mães forem infetadas no primeiro trimestre - os autores afirmam que a associação importante devido ao alto risco de infeção com o vírus do Zika durante surtos como o que se verifica atualmente na América do Sul.

No dia 1 de fevereiro, a Organização Mundial de Saúde declarou a possível associação entre o vírus do Zika e a microcefalia como uma Emergência de Saúde Pública de Preocupação Internacional.

A microcefalia é uma malformação neurológica que se manifesta no nascimento. Os bebés nascem com cabeças anormalmente pequenas e a doença está ligada a uma redução do volume cerebral, levando muitas vezes a deficiências intelectuais, defeitos da fala e questões comportamentais.

Entre as causas da microcefalia estão fatores genéticos e ambientais, incluindo infeções virais pré-natais, consumo de álcool por parte da mãe e doenças hipertensivas.

Apesar de ser crescente a evidência de que há uma ligação entre o Zika e a microcefalia, o risco ainda não fora quantificado e a Organização Mundial de Saúde ainda não reconhece completamente a relação causal.

O surto de Zika na Polinésia Francesa começou em outubro de 2013, teve o seu ponto mais elevado em dezembro e terminou em abril de 2014.

Nesse período, mais de 31 mil pessoas foram atendidas nos serviços de saúde com suspeitas de infeção pelo vírus.

Durante o surto, foram identificados oito casos de microcefalia, tendo cinco gravidezes sido interrompidas voluntariamente. Nos restantes casos, os bebés acabaram por nascer.

Quase todos os casos de microcefalia (88%) ocorreram num período de quatro meses perto do final do surto.

Ao estudar os dados daquele surto, usando modelos matemáticos e estatísticos, os cientistas concluíram que o primeiro trimestre de gravidez estava associado a um maior risco.

Estimaram o risco de microcefalia em 95 em cada 10.000 mulheres (ou aproximadamente uma em cada 100) infetadas com o vírus no primeiro trimestre de gravidez.

O investigador do Instituto Pasteur Arnaud Fontanet, também coautor do estudo, explicou que os dados provenientes do surto na Polinésia Francesa são particularmente importantes porque o surto já terminou.

"Isto fornece-nos um conjunto de dados pequeno, mas muito mais completo do que o que se obtém num surto ainda em curso", disse o cientista, sublinhando no entanto que é precisa muito mais investigação para se perceber como o Zika causa a microcefalia.

"As nossas descobertas suportam as recomendações da OMS para que as mulheres grávidas se protejam das picadas de mosquito", afirmou.

A 08 de março, a OMS aconselhou as grávidas a não viajarem para zonas afetadas pelo vírus Zika, sublinhando que esta advertência surge num contexto de provas cada vez mais conclusivas de que o Zika provoca malformações fetais.

Já na segunda-feira, o ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Castro, considerou que a OMS ainda é muito "prudente" sobre o possível vínculo entre o Zika e a microcefalia.

Castro afirmou que o Governo brasileiro "não quer criticar a OMS", mas assegurou que no país se considera completamente provado que o zika pode causar microcefalia, embora o organismo das Nações Unidas não o reconheça completamente.

O vírus do Zika, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, provoca sintomas gripais benignos, mas está também associado a microcefalia, assim como ao síndroma de Guillain-Barré, uma doença neurológica grave.

O Brasil, o país mais afetado pelo surto de Zika, já registou mais de um milhão e meio de casos e há 745 casos de microcefalia relacionados com a doença no país.

As autoridades estão ainda a investigar se a malformação afeta outros 4.231 bebés com sintomas parecidos.