Os adolescentes europeus estão a fumar e a beber menos e a começar mais tarde a sua vida sexual, mas o uso do preservativo está a diminuir, conclui um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgado esta terça-feira.

Realizado entre 2013 e 2014 junto de 220 mil adolescentes de 11, 13 e 15 anos em 42 países da Europa e América do Norte, o inquérito "Health Behaviour in School-aged Children" (HBSC) conclui que os comportamentos de risco estão a diminuir nos adolescentes.

Relativamente ao último estudo do género, realizado em 2009/10, a proporção de jovens de 15 anos que fumaram o seu primeiro cigarro antes dos 13 anos desceu de 24% para 17%, enquanto a percentagem de adolescentes que dizem fumar pelo menos uma vez por semana diminuiu de 18% para 12%.

Também no consumo de álcool, o relatório detetou "declínios consideráveis" face ao último relatório, com a percentagem de jovens de 15 anos que dizem consumir álcool semanalmente a cair de 21% para 13% e a proporção de adolescentes que diz ter ficado bêbedo pelo menos duas vezes a cair de 32% para 22%.

"Este relatório tem uma série de muito boas notícias. A redução do álcool e do tabaco significa que as políticas que os países têm estado a implementar estão a tocar nos riscos do tabaco e do álcool nos jovens. Mas os países precisam de se manter vigilantes com as raparigas, mais do que com os rapazes", disse à Lusa Gauden Galea, diretor da divisão de doenças não comunicáveis e promoção da Saúde do escritório da OMS para a Europa.

Com efeito, segundo o relatório, os rapazes têm maiores probabilidades de fumarem e de beberem, mas a diferença tende a esbater-se nos últimos anos.

"Temo que, embora haja um declínio em ambos, que o declínio nas raparigas não seja tão grande como nos rapazes", disse Galea.

No que diz respeito ao comportamento sexual, questão que só foi colocada aos jovens de 15 anos, o relatório conclui que a percentagem de adolescentes que diz já ter tido relações sexuais baixou de 29 para 24% no caso dos rapazes e de 23 para 17% no caso das raparigas.

No entanto, diminuiu a percentagem de jovens que usam preservativo, de 78 para 65%.

"É uma área que estamos a tentar abordar com os países na Europa e (...) pediremos aos 53 estados membros que considerem formas de melhorar o acesso aos contracetivos, mesmo entre adolescentes", disse Gauden Galea, numa entrevista telefónica à Lusa.

Para o responsável, "é importante que os jovens tenham um entendimento dos riscos, tanto em termos do impacto da gravidez nas suas vidas futuras (...) como num aumento do VIH e de outras doenças sexualmente transmitidas".

Galea defendeu que "é preciso fazer mais" e explicou que a abordagem passa por "educação sexual positiva e proativa", mas também por permitir que os jovens tenham acesso aos "instrumentos que lhes permitam proteger-se e às competências para exigi-lo aos seus companheiros".

Os investigadores detetaram ainda uma pequena redução na proporção de adolescentes que dizem ter-se envolvido em lutas pelo menos três vezes nos últimos 12 meses.

As lutas são mais frequentes nos rapazes e diminuem com a idade.

O bullying é outra questão analisada no relatório da OMS e, embora não haja grandes mudanças na probabilidade de se sofrer de bullying na adolescência, há uma ligeira redução na percentagem de jovens que admite ter feito bulliyng sobre outros aos 13 e 15 anos.

O relatório HBSC é realizado de quatro em quatro anos desde há 33 anos e tem influenciado as políticas e a legislação em vários países europeus, diz a OMS.

Raparigas têm menos saúde mental do que rapazes da mesma idade

Ainda segundo o mesmo estudo, as adolescentes europeias têm pior saúde mental do que os rapazes da mesma idade e, embora tenham menos excesso de peso, têm mais probabilidade de pensar que são gordas e de entrar em dietas.

"Há uma clara emergência da desigualdade entre rapazes e raparigas, que começa na adolescência", disse à Lusa Gauden Galea.

No entanto, a satisfação com a vida diminui com a idade e aos 13 anos começam a surgir as diferenças entre rapazes e raparigas, sendo estas menos satisfeitas do que eles.

Há também uma diferença na proveniência dos adolescentes: os jovens de famílias mais afluentes têm em geral maior satisfação com a vida.

Segundo o relatório, as raparigas relatam ter menos saúde mental do que os rapazes e aos 15 anos, por exemplo, uma em cada cinco adolescentes diz que a sua saúde é regular ou fraca e metade diz ter queixas de saúde pelo menos uma vez por semana.

Um outro exemplo, destacado por Gauden Galea em entrevista à Lusa por telefone, "é que, embora objetivamente não tenham mais excesso de peso ou obesidade, [as raparigas] estão muito mais preocupadas com a sua aparência, têm muito mais probabilidade de estar insatisfeitas e de entrar em dietas".

Com efeito, 22% dos rapazes de 15 anos têm excesso de peso, contra 13% das raparigas, mas 43% das raparigas da mesma idade acha que é demasiado gorda, contra 22% dos rapazes.

Um quarto das raparigas de 15 anos diz estar a fazer dieta ou a tomar outras medidas para perder peso.

"Isto é um sintoma das pressões sobre as jovens para terem um certo aspeto, uma determinada imagem corporal."

O responsável sublinhou que a situação está também ligada à situação económica da família, sendo a perceção da saúde pior nas famílias mais pobres.

"Isto sugere que há um contexto social, que as famílias menos abastadas precisam de mais apoio, os pais precisam de ajuda para serem melhores pais", disse.

Galea defende por isso que os países devem abordar as conclusões deste relatório de uma forma transversal, juntando os ministérios da Saúde, Educação e Segurança Social, para "dar alguma atenção à situação das famílias e populações mais pobres".

Outra conclusão, defendeu, é que é preciso "valorizar mais as raparigas", que "precisam de aprender a desenvolver uma boa autoestima, a valorizar a sua vida e a saúde”.

Precisam também de “entender as pressões a que estão sujeitas”, nomeadamente dos media, “e saber ter recursos e resiliência para resistir ao impacto dessas mensagens".

O relatório HBSC é realizado de quatro em quatro anos desde há 33 anos e tem influenciado as políticas e a legislação em vários países europeus, diz a OMS.

“Os comportamentos relacionados com a saúde e os hábitos sociais adquiridos na segunda década de vida podem prolongar-se pela idade adulta e afetar toda a vida", disse a diretora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab, citada num comunicado. “Um bom começo pode durar uma vida inteira.”