Um "government shutdown" não é uma originalidade desta bizarra era trumpiana.

Já aconteceu mais de uma dezena de vezes e três dos cinco antecessores de Trump tiveram que lidar com o mesmo problema (Reagan nos anos 80, Clinton por duas vezes nos anos 90 e Barack Obama em outubro de 2013, durante 16 dias).

Decorre do sistema disfuncional de Washington DC e reflete os problemas crescentes de se chegar a consensos bipartidários (sobretudo no Congresso entre republicanos e democratas, mas também na dialética entre Capitólio e Casa Branca).

Reagan enfrentou a onda democrata de Tip o'Neill. Clinton foi vítima da "Revolução" moralista e conservadora de Newt Gingrich. Obama levou, dura e incansavelmente, com a cegueira republicana de Mitch McConnell, pressionado pela ala Tea Party.

Mas Donald Trump conseguiu ser o primeiro presidente americano a enfrentar uma paralisação dos serviços do governo por falta de aprovação orçamental numa fase em que o Presidente é da mesma cor política das duas câmaras do Congresso.

Nem com pleno republicano na Casa Branca, no Senado e na Câmara dos Representantes foi possível evitar chegar-se a este extremo -- e o jogo de culpas tem vindo, por estes dias, a cair claramente contra o Presidente.

Chuck Schumer, senador democrata de Nova Iorque, líder da minoria dos democratas no Senado, apontou o dedo a Trump: "Não queríamos isto e fizemos tudo para evitar. Tínhamos um acordo quase feito com os republicanos, mas na última hora o presidente comprometeu, voltou atrás com a palavra, parecia que não queria que as coisas corressem bem".

No sistema artificialmente ingovernável da política americana, o Presidente tem que ser um pivô do compromisso, nunca um fator de perturbação.

Independentemente das implicações políticas, deve ser um facilitador, não um complicador.

Mas Donald Trump não é um estratega e não é um político hábil.

Vendo as coisas como elas são, não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Um ano com números comprometedores

Num ano na Casa Branca, Donald Trump publicou mais de 2500 tuits, fez 174 referências escritas à expressão "fake news".

Só por duas vezes preferiu o Twitter oficial do Presidente dos EUA (em todas as outras escreveu no seu perfil pessoal @realDonaldTrump).

Em contraste, no último ano na Casa Branca, Barack Obama utilizou o twitter oficial de Presidente dos EUA 139 vezes.

Assinou 58 ordens executivas presidenciais no seu primeiro ano de mandato (mais 17 que Obama, mais duas que George W. Bush em período homólogo).

Donald Trump visitou 14 países no seu primeiro ano de presidência, menos 7 que Obama em igual período.

E nenhum dos 14 de Donald foi o Reino Unido -- a maior e mais durável aliança permanente dos EUA.

Num ano de Trump Presidente, o número de americanos sem acesso a cuidados de saúde subiu em 3,2 milhões -- consequência da obsessão em ir destruindo administrativamente (à falta de capacidade de o fazer politicamente) o ObamaCare.

É certo que neste ano com Trump passou a haver mais 2 milhões de postos de trabalho do que havia nos EUA (mas é preciso recordar que a economia americana cria emprego há 87 meses seguidos e só 12 deles foram com Donald na Casa Branca; 75 foram com Obama).

E aqui vai o dado mais impressionante: a taxa de abandono de funcionários da Casa Branca foi, no último ano, de... 34%! (o dobro dos 17% do primeiro ano de Reagan, que era, até Trump, o recorde absoluto de saídas no primeiro ano de administração).

O furacão Donald inaugurou toda uma nova era negativa.

Um valor de 37% foi a Taxa de Aprovação média do Gallup no primeiro ano Trump -- a pior de sempre de um presidente americano nesta fase. Obama teve 50%, Clinton 54%, George W. Bush 83% (efeitos do pós 9/11).

Já a NBC/Wall Street Journal, deram, na véspera de se completar um ano de mandato de Trump, 39% de aprovação, em grande sondagem que segmentou assim os apoios e reprovações: 45% aprovação nos homens, apenas 33% nas mulheres; 46% nos brancos, 26% nos latinos, 8% nos negros. 78% nos republicanos, 9% nos democratas.

O que Trump fez melhor neste primeiro ano na Casa Branca? 20% dizem "a economia e o desemprego baixo", 13% "ter posto a América em primeiro", 10% "a Reforma Fiscal", outros 10% "ter derrotado o Daesh". Que sentimento lhe desperta o primeiro ano de Trump Presidente? 38% respondeu "nojo", 24% "medo", 23% "esperança", 12% "orgulho" e 11% "fúria".

Trump disse que ia deixar de ter tempo para jogar golfe quando fosse presidente, mas foi a um campo de golfe uma vez em cada quatro dias, desde 20 de janeiro de 2017.

A propósito: quando Obama era Presidente e Trump um regular comentador em talk shows da direita americana, Donald criticava Barack por "estar sempre a jogar golfe". Ora, no primeiro ano na Casa Branca, Obama jogou golfe 29 vezes. Em igual período, Trump fê-lo por... 88 vezes.

Enfim.

“Russia Collusion”, a grande ameaça

Oito em dez americanos dizem que o Presidente deve testemunhar perante a Comissão Mueller, sob juramento (sondagem CNN).

Nos democratas, esse valor é de 95%. Nos independentes é de 75%.

E até nos republicanos há uma maioria de 59% (coisa rara, numa fase em que a Presidência Trump está no pico de aprovação do lado republicano, cerca de 83%, o valor mais alto de apoio do GOP a um Presidente dos EUA na última década).

Robert Reich, secretário do Comércio na Administração Clinton e apoiante de Bernie Sanders nas primárias democratas de 2016, elencou assim o problema: “O procurador especial Robert Mueller pediu para interrogar Donald Trump sobre as suas decisões de despedir o Conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, e o diretor do FBI, James Comey. Se Trump despediu os dois para se proteger das investigações sobre a Rússia, isso será um claro caso de obstrução à justiça, uma infração passível de impeachment”.

Se há tema que pode fazer tremer a Presidência Trump é, sem dúvida, este.

Não por acaso, fonte da Casa Branca comentou à CNN que o Presidente só não despediu até agora Robert Mueller porque "as reações públicas dessa decisão seriam tremendas".

Donald Trump pode parecer um pouco louco – mas, de facto, de parvo não tem nada.