O novo ano arrancou com um incidente diplomático que parece trazer mais uma dor de cabeça aos líderes mundiais, particularmente a Barack Obama. A Arábia Saudita cortou relações com o Irão, este domingo, e já há países a seguirem as pisadas do reino. O Bahrein foi o primeiro a tomar a iniciativa, esta segunda-feira, seguido do Sudão e dos Emirados Árabes Unidos.

Uma sequência de acontecimentos que culminou com um ataque à embaixada saudita no Irão intensificou tensões antigas entre os dois rivais do Médio Oriente. E com isto veio à memória a imagem de um pedaço de História que os Estados Unidos não esquecem: o cerco à embaixada norte-americana em Teerão, em 1979. 

Esta não é a primeira vez que a Arábia Saudita e o Irão estão de laços diplomáticos cortados. Basta recuar até finais da década de 80 para se verificar um episódio idêntico – mais concretamente ao período entre 1988 e 1991.

O programa nuclear do Irão, por um lado, a morte de peregrinos iranianos em território saudita e as relações de Riade com o Ocidente, especialmente com Washington, por outro, são alguns dos motivos que têm servido de arma de arremesso entre as duas nações, alimentando um clima de enorme hostilidade.

Mas a verdadeira razão para tanta rivalidade leva-nos para o plano religioso: a Arábia Saudita é um reino sunita e o Irão uma república que é o berço dos xiitas.

 

A morte que intensificou as tensões


Desta vez, tudo começou com a execução do carismático clérigo xiita Nimr Baqer al-Nimr, um defensor da minoria xiita da Arábia Saudita, uma voz contra o poder sunita.

O regime já tinha avisado do que ia acontecer: 47 homens, acusados de terrorismo, seriam executados. Entre eles, Nimr Baquer al-Nimr, detido desde 2012. E muitos xiitas que participaram em protestos contra o regime. 

Ativistas e organizações internacionais fizeram vários apelos, pedindo clemência ao reino, mas Riade mostrou-se irredutível e acabou por cumprir a ameaça. As execuções ocorreram às primeiras horas do novo ano. 

A morte de al-Nimr despoletou a fúria junto das comunidades xiitas do oriente. Líderes muçulmanos rapidamente condenaram a morte e a revolta tomou conta das ruas em países como o Líbano ou o Paquistão.

Mas foi, claro, no Irão, que a revolta mais se fez sentir e também com maior violência. Manifestantes cercaram a embaixada saudita em Teerão, no sábado, e, lançando cocktails molotov, incendiaram o edifício.


 


Um ataque que se repete


O ataque à embaixada saudita trouxe à memória um acontecimento que os Estados Unidos não esquecem: o cerco à embaixada norte-americana no Irão, em 1979. Uma crise que, recorde-se, foi transportada por Ben Affleck  para a sétima arte com o premiado filme  Argo.

Na altura, cinquenta e dois norte-americanos, entre civis e diplomatas, foram feitos reféns depois de um grupo de militantes islâmicos ter tomado o edifício. 

Este foi, de resto, o acontecimento chave no histórico de relações entre os EUA e o Irão. Que deixou consequências não só ao nível diplomático, com a deterioração dos laços, como também económico, com Washington a aplicar duras sanções a Teerão.




 

Mais uma dor de cabeça para Obama 


Riade tem sido alvo de muitas críticas por parte de organizações e ativistas internacionais, pelas inúmeras violações dos direitos humanos. A execução dos 47 alegados terroristas, incluindo al-Nimr, é mais um caso polémico, que reacende o debate sobre as políticas duras do reino.

O secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-Moon reagiu às execuções, destacando muitas dúvidas e "preocupações" sobre a natureza dos julgamentos e a forma como estes foram conduzidos.

A administração de Obama também já se pronunciou. Washington avisou, em comunicado, que a morte do clérigo poderá "exacerbar tensões num momento em que estas precisam urgentemente de ser reduzidas".

Mas o tom deverá ser cauteloso. Não será do interesse dos Estados Unidos uma tomada de posição que ponha em causa as relações com o reino.

Afinal, a Arábia Saudita é um aliado muito importante na região instável que é o Médio Oriente. O gigante do petróleo tem cooperado com os Estados Unidos ao nível militar e participado na "Guerra ao Terror" contra os grupos de terroristas islâmicos. 
 

Portugal preocupado


O Governo português já se mostrou preocupado com a situação no Médio Oriente,“uma zona nevrálgica” para a segurança da Europa.

Questionado pela Lusa sobre de que forma está a acompanhar os recentes acontecimentos entre as duas potências rivais no Médio Oriente, o ministro dos Negócios Estrangeiros respondeu que acompanha o corte de relações entre a Arábia Saudita e o Irão "com muita preocupação”.

Augusto Santos Silva lembrou que a alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Federica Mogherini, “em nome de todos os 28 Estados-membros, já chamou a atenção para a delicadeza da situação que se vive hoje na zona do Médio Oriente e do Golfo e para a necessidade de encontrar formas de lidar com o problema que não agravem as tensões regionais”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros recordou que Portugal é “contra a pena de morte em qualquer circunstância” e também tem “uma posição muito clara em matéria de defesa dos direitos humanos”.