Hillary Rodham Clinton, que completa 69 anos a 28 de outubro (quando faltarem apenas 11 dias para a eleição geral), será investida, na semana que hoje começa, candidata presidencial do Partido Democrata, na Convenção de Filadélfia.

Será, finalmente, a nomeação oficial de uma mulher que esteve pertíssimo de obter tal distinção dos democratas em 2008, mas perdeu por muito pouco para o grande fenómeno político surgido nesse ano que já nos parece um pouco longínquo: Barack Obama, o atual Presidente dos EUA, agora em reta final do segundo mandato na Casa Branca.

A política americana não é pródiga em planos de longo prazo. O seu elevado grau de imprevisibilidade geralmente impede esse tipo de horizontes alargados.

Mas o que assistiremos nos próximos dias, com a nomeação da primeira mulher a ser escolhida por um grande partido do sistema para candidata a presidente (até hoje só duas entraram em «tickets», mas como candidatas a vice-presidentes, a democrata Geraldine Ferraro em 1984 e a republicana Sarah Palin em 2008),  consolidará um caso notável de um plano gizado a uma distância de oito anos, ao mais alto nível, entre o atual Presidente dos EUA e a futura nomeada presidencial democrata para 2016.

Um acordo cumprido à risca

Depois de uma luta acesa e muito disputada, durante um ano e meio -- entre Barack e Hillary -- Obama obteve mesmo a nomeação em 2008, fruto de uma campanha muito eficaz na recolha de delegados, apesar de Hillary até ter tido mais votos (ambos próximos dos 18 milhões, com diferença pequena, favorável a Clinton).

Custa muito conceder a derrota numa situação destas, e após uma caminhada tão longa e pontuada de conquistas históricas, mas Hillary Clinton conseguiu manter o discernimento.

E soube ver a longo prazo, algo que, na sua vida de quase sete décadas (e mais de 30 anos de participação pública, como advogada, activista na defesa dos direitos das mulheres e das crianças, como mulher de governador, Primeira Dama, responsável pela reforma da saúde nos anos 90 durante a Administração Bill Clinton, senadora por Nova Iorque ou como secretária de Estado) fez por várias vezes.

Hillary percebeu que só teria a perder se prolongasse a «guerra» com Obama e teria tudo a ganhar se se juntasse ao futuro nomeado democrata de 2008.

Teve atitude exemplar na forma como ajudou Barack a derrotar McCain e festejou entusiasticamente a eleição histórica, a 4 de novembro de 2008, do primeiro negro para a Presidência dos EUA.

Num «armistício» assinado com requinte, Obama convidou Hillary para chefe da diplomacia americana e terá aceite a condição da sua ex-rival e a partir daqui aliada: só faria um mandato, ficaria liberta a partir do início de 2013 para preparar a sua segunda candidatura nas primárias democratas, desta vez com um estatuto de «nomeada antecipada».

Para completar o círculo deste notável acordo Obama/Clinton, o Presidente daria apoio claro a Hillary para 2016.

Numa realidade com tantas surpresas como a política americana (quem imaginaria Trump nomeado pelos republicanos?), todos os pontos deste acordo iniciado algures pelo verão de 2008 estão a ser notavelmente cumpridos.

E a verdade é que o apoio de Obama a Hillary terá tido, até, maiores efeitos políticos do que ambos antecipariam há uns anos.

O efeito Bernie

Porque o «cisne negro» desta caminhada, aparentemente fácil, de Hillary para a nomeação em 2016 foi um senador septuagenário, que até há pouco tempo nem sequer era democrata (dizia-se socialista, embora votasse geralmente com a bancada democrata no Capitólio, com estatuto de independente).

Bernie Sanders prestou um serviço a Hillary e ao Partido Democrata: se Clinton tivesse estado sozinha ou sem um adversário forte durante quase dois anos, estaria hoje politicamente desgastada e correria o risco de ver vertida para o campo republicano (e de Trump…) a fação de descontentamento que, claramente, se manifestou nesta eleição.

Com Sanders, os insatisfeitos com o «establishment» à esquerda permaneceram no campo democrata e deram a Bernie uma votação absolutamente histórica: perto de 13 milhões de votos nas primárias democratas (quase tantos como os que teve Trump, nomeado por larga distância no lado republicano, e só menos 3.5 milhões que os que teve Hillary).

O senador do Vermont demorou algumas semanas a aceitar o óbvio – Hillary iria mesmo ser a nomeada – mas uma visita à Casa Branca terá sido crucial: depois de uma conversa com o Presidente, Sanders foi persuadido por Obama no sentido de vir a apoiar Hillary, para que, de forma alguma, pudesse vir, daqui a uns meses, a ser acusado de ter sido cúmplice de uma eventual eleição de Donald Trump.

Hillary chega, assim, à Convenção de Filadélfia com o partido unido: algo que Trump nem por sombras poderá anunciar.

Enquanto, do lado republicano, Donald, ao seu estilo, achou «lindo» que os seus apoiantes tenham pateado Ted Cruz («apenas» o segundo classificado nas primárias do GOP), no campo democrata, e depois de uma disputa bem acesa e por vezes azeda, Sanders diz agora que «Hillary Clinton é a melhor candidata possível e tem tudo para conseguir bater Donald Trump»).

Tim Kaine para consolidar o centro

Feito um acordo político com Bernie Sanders (que deverá ser refletido através de propostas progressistas na plataforma a apresentar na Convenção de Filadélfia), Hillary Clinton foi… Hillary Clinton na forma como escolheu o seu candidato a vice-presidente.

Deixando para trás a hipótese Elizabeth Warren (talvez a pessoa mais bem preparada do campo democrata e campeã da ala progressista, mas com o problema de, sendo mulher, fazer com Hillary um eventual ‘ticket’ cem por cento feminino, algo que o eleitorado americano ainda não aceitaria), Hillary optou por Tim Kaine, antigo governador da Virgínia e atual senador em representação daquele importante estado para a eleição geral.

Com 58 anos, Tim situa-se na faixa central do Partido Democrata. Tido como um moderado, pode ajudar Hillary a seduzir eleitores republicanos e independentes, que se recusem a votar em Trump.

Fluente em espanhol (já viveu nas Honduras), reforça o pendor «hispânico» e «latino» do ticket democrata. Antigo líder do Comité Nacional do Partido Democrata, faz a ligação aos governadores e também aos congressistas (faz parte do Senado).

Não exala carisma, é relativamente discreto, mas não desperta antipatias e tem fama de ser um político ‘soft’ («Vanilla nice», chamou-lhe Annie Karni, no Politico). E mantém uma aura de invencibilidade que até a Hillary impressiona: «Tim nunca perdeu uma eleição e não vai ser desta que isso vai acontecer», lança a candidata.

Sendo eleitoralmente forte na Virgínia, Tim pode ajudar Hillary a manter para o lado democrata um estado que esteve 44 anos fora do alcance dos nomeados presidenciais do partido, mantendo-se republicano desde Lyndon Johnson até Obama, que venceu na Virgínia em 2008 e 2012.

As sondagens apontam Hillary com muito boas hipóteses de bater Trump na Virgínia, algo que deve ser reforçado após a nomeação de Kaine para candidato a vice. E há ainda o efeito de vizinhança: Tim é bem visto na Carolina do Norte, estado que Obama venceu em 2008, mas perdeu para Romney em 2012.

Hillary espera competir com Trump na Carolina do Norte – e caso vença neste estado e também na Virgínia, dificilmente perderá a oportunidade de se tornar na primeira mulher a chegar à Casa Branca. E Tim, por arrasto, ficará como seu número 2.

*jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»