Há quem já fale numa nova Guerra Fria. As tensões entre os Estados Unidos e a Rússia degradaram-se de tal modo, nos últimos tempos, que os analistas admitem que não se via uma relação tão conturbada entre os dois países desde o período que levou à queda da União Soviética. A guerra na Síria e uma alegada intervenção russa nas eleições norte-americanas parecem ser os motivos de uma nova fase nesta relação, que envolve os interesses e os desenhos geoestratégicos de ambas as potências.

No início do mês, Washington “perdeu a paciência”. As palavras foram do porta-voz da Casa Branca Josh Earnest, que anunciava, desta forma, o fim das negociações com Moscovo sobre um cessar-fogo na Síria. Segundo os Estados Unidos, os russos estavam a bombardear civis “até à submissão” em Alepo.

Antes, tinha sido ao contrário: em meados de setembro, a Rússia acusou os norte-americanos de violarem o acordo de tréguas, que tinha sido firmado entre os dois países no dia 9 desse mês.

Não há entendimento para uma solução de paz em território sírio e as mortes regressaram aos hospitais de Alepo, que voltaram a ser alvo de bombardeamentos.

É que Alepo é uma cidade-chave na guerra civil que, há cinco anos, opõe o regime de Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia, aos movimentos rebeldes, apoiados pelos Estados Unidos e por aliados ocidentais como a França. Se os rebeldes caírem em Alepo podem muito bem perder a guerra.

Ora, a guerra na Síria compreende um complexo xadrez político e geoestratégico, com dois players externos fundamentais: a Rússia e os Estados Unidos.

Com a queda de Assad, a Rússia perderia a sua influência num país que tem uma importante posição no plano geoestratégico e este é um cenário que Moscovo quer a todo o custo evitar. Por sua vez, os Estados Unidos têm vários interesses em jogo: a posição geográfica da Síria no território instável que é o Médio Oriente, o facto de Damasco ser um aliado do Irão, país que tem vivido tensões com Washington desde sempre, os recursos como o petróleo.

Numa entrevista recente, o próprio Assad reconheceu que a situação na Síria é comparável ao conflito que existiu nos tempos da Guerra Fria.

A Rússia nas eleições norte-americanas

Mas para além da escalada da guerra, há outra polémica a amplificar as tensões entre russos e norte-americanos: a alegada intervenção de Moscovo nas eleições presidenciais norte-americanas.

A acusação foi feita por oficiais norte-americanos de topo e caiu que nem uma bomba. Pela primeira vez, os Estados Unidos acusavam a Rússia de se estar a intrometer na corrida à Casa Branca, através de ataques informáticos.

Num comunicado conjunto, o Departamento de Segurança Nacional e o diretor dos Serviços Secretos destacaram que a divulgação de emails pirateados por sites como o Wikileaks "são coerentes com os métodos e motivações de esforços dirigidos pelos russos".

“Acreditamos que só oficiais séniores russos poderão ter autorizado este tipo de atividades”, lê-se no texto.

Acusações graves, mas que não ficaram sem resposta. Numa entrevista à CNN,  o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou que as acusações são “ridículas” e que não são sustentadas por qualquer tipo de prova.

Putin vs Cinton: atritos de longa data

Hillary Clinton não tem dúvidas de que o governo de Vladimir Putin prefere que Donald Trump ganhe as presidenciais de 8 de novembro. E fez questão de assinalar isto mesmo no último duelo televisivo que travou com o candidato do Partido Republicano.

Putin nunca expressou publicamente qualquer preferência, mas há, efetivamente, um historial de atritos entre o líder russo e a antiga secretária de Estado norte-americana.

Em 2011, por exemplo, Putin terá ficado furioso quando os Estados Unidos conseguiram que o presidente russo, Dmitri Medvedev  - Putin tinha cumprido dois mandatos e não podia exercer  um terceiro -  ter deixado passar a resolução da ONU para a intervenção militar na Líbia. Uma manobra que Putin comparou às Cruzadas e que terá sido orquestrada pela mais alta figura da diplomacia norte-americana da altura: Clinton.

Nesse mesmo ano, uma nova polémica. As eleições parlamentares russas geraram acusações de fraude e uma onda protestos por todo o país contra o partido de Putin. E Clinton reagiu ao acontecimento, afirmando que os cidadãos russos tinham de ser ouvidos.

“Os cidadãos russos têm, como em qualquer parte do mundo, o direito de serem ouvidos e de verem os seus votos contados”, afirmou.

Palavras que foram interpretadas como uma afronta pessoal por Putin e como uma forma de Clinton querer manipular as eleições presidenciais do ano seguinte, às quais Putin se iria candidatar.

Sondagens recentes dão vantagem a Clinton na corrida à Casa Branca, depois de Trump ter sido envolvido em escândalos de assédio sexual contra mulheres, mas os analistas não antecipam resultados.

Quem irá suceder a Barack Obama é ainda um mistério. Porém, uma coisa é certa: o próximo presidente dos Estados Unidos irá assumir o cargo numa altura em que as relações entre Washington e Moscovo estão muito degradadas e será necessário um esforço de ambas as partes para assegurar os mínimos da estabilidade mundial.