Os métodos utilizados nos interrogatórios da CIA ( os serviços secretos dos Estados Unidos) depois do 11 de setembro foram considerados de grande «brutalidade» e «ineficazes», pela Comissão dos Serviços Secretos do Senado norte-americano num relatório divulgado esta terça-feira.

O documento refere-se ao programa da agência que levou à detenção de vários suspeitos de terrorismo entre 2002 e 2006, durante a administração de George W. Bush, concluindo que as práticas de tortura realizadas foram mais «brutais» do que o que terá sido informado às autoridades e ao público em geral e que, muitas vezes, resultaram de «informações fabricadas».

«Durante os interrogatórios brutais, a CIA não estava a par, muitas vezes, que se tratava de informação fabricada», declarou a a chairwoman da Comissão, Dianne Feinstein, em comunicado.


As denúncias partem da análise de 119 casos concretos. 

Segundo o relatório, p elo menos 26 pessoas foram «erradamente» detidas e sujeitas a métodos de tortura numa prisão secreta. Mais, 39 dos detidos foram sujeitos a um método que visa a simulação de um afogamento e muitos prisioneiros foram privados de sono por mais de 180 horas.

Ao longo do documento são descritas algumas situações com maior detalhe, como é o caso de um prisioneiro que terá morrido de hipotermia, depois de ter sido acorrentado semi-nu e do detido Abu Zubeida, um alegado membro da Al-Qaeda, submetido a simulações de afogamento de forma repetida, que «tinha espuma a sair da boca» e estava quase inconsciente.

A Comissão identificou ainda casos de ameaças de morte por parte dos agentes da CIA que visavam as famílias dos prisioneiros. 


O relatório também localizou a prisão secreta onde terão ocorrido estas práticas e, apesar de o local não ter sido identificado, a Comissão descreve-o como uma «masmorra» onde os detidos foram mantidos em
escuridão total, constantemente acorrentados em células isoladas, com barulho ou música muito alta.

A investigação, realizada durante cinco anos a pedido da administração democrata de Obama, foi concluída no início do ano, mas só agora foi divulgada ao público. Um documento com  mais de 6000 páginas foi reduzido para uma versão editada de cerca de 500 páginas, esta terça-feira divulgado.  O «The Guardian» escreve que, desde o fim do processo, a agência lutou para que vários dados do relatório não fossem tornados públicos. 

Entretanto o Presidente norte-americano já reagiu, através de um comunicado escrito.

«Espero que o relatório de hoje nos ajude a deixar estas técnicas onde elas pertencem: ao passado», declarou.
 

O especialista em direitos humanos das Nações Unidas, Ben Emmerson, exigiu que os agentes norte-americanos que ordenaram as práticas denunciadas no documento fossem responsabilizados pelos seus atos.

 «Como matéria que diz respeito às leis internacionais, os Estados Unidos são obrigados a levar os responsáveis à Justiça», afirmou Emmerson num comunicado em Genebra.
 

Divulgação do relatório da CIA «vai prejudicar a segurança dos EUA»