O papa Francisco manifestou esta quarta-feira «grande satisfação» pela «decisão histórica» do restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, anunciou o Vaticano, confirmando a mediação pessoal do pontífice do processo.

O Santo Padre liderou o aplauso global ao anúncio, na quarta-feira, do reatamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, considerado histórico na Europa e na América do Sul e celebrado nas ruas de Havana.

Num comunicado, o Vaticano confirmou o envio de duas cartas do papa aos presidentes cubano, Raul Castro, e norte-americano, Barack Obama.

«O Santo Padre deseja manifestar as suas calorosas felicitações pela decisão histórica tomada pelos governos dos Estados Unidos e de Cuba de estabelecerem relações diplomáticas, com o objetivo de superar, no interesse dos cidadãos dos dois países, as dificuldades que têm marcado a sua história recente», referiu a Santa Sé, no comunicado.

O primeiro-ministro canadiano, Stephen Harper, disse que o seu país – que nunca rompeu relações com Cuba – também participou na aproximação entre Washington e Havana, ao receber as primeiras conversações secretas, em 2013.

A União Europeia, que também procura a normalização de relações com Cuba, congratulou-se com a decisão, que classificou como «um ponto de viragem histórico».

«Hoje, outro muro começou a ser derrubado», disse a responsável da UE pela política externa, Federica Mogherini, acrescentando que os 28 esperam ser capazes de «expandir relações com todas as partes da sociedade cubana».

Na América do Sul, a decisão foi recebida com euforia pelos líderes dos cinco países do Mercosul, reunidos na Argentina, que romperam em aplausos ao serem informados da notícia.

«Estamos a viver um dia histórico», disse o Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, cujo país é o aliado mais próximo de Cuba e um dos seus maiores financiadores.

Maduro, cujo antecessor, Hugo Chávez, tinha uma relação privilegiada com Fidel Castro, considerou o degelo como «uma vitória moral» e «uma vitória de Fidel».

Maduro também elogiou o papa Francisco, que completou 78 anos na quarta-feira, salientando a sua intervenção na aproximação entre Washington e Havana e que este foi «o seu melhor presente de aniversário».

A Presidente brasileira, Dilma Rousseff, afirmou tratar-se de «um momento que marca uma mudança na civilização, mostrando que é possível restabelecer relações interrompidas há muitos anos».

O Presidente colombiano, Juan Manuel Santos, saudou a «audácia e coragem» de Obama e Castro em contribuírem para «o sonho de um continente onde posse haver paz absoluta».

O ministro dos Negócios Estrangeiros chileno, Heraldo Munoz, considerou tratar-se do «início do fim da Guerra Fria nas Américas».

No centro histórico de Havana, cubanos em festa saíram às ruas para celebrar o anúncio do reatamento de relações, dando voz à esperança de que a decisão possa levar ao desenvolvimento económico de Cuba.

«Estou todo arrepiado», disse Ernesto Perez, 52 anos, salientando: «é uma notícia muito importante que mudará a nossa vida».

Mas entre os cubanos em Little Havana, em Miami, Estados Unidos, a reação foi de ira e desânimo, com dezenas de pessoas a protestar contra o reatamento de relações.

«É uma traição. As conversações vão apenas beneficiar Cuba», disse Carlos Munoz Fonatnil, membro da comunidade cubana no exílio, que tem lutado pela queda do regime de Castro em Havana.

Em Washington, legisladores democratas e republicanos partidários do isolamento do regime cubano condenaram a decisão da Casa Branca e prometeram resistir ao levantamento do embargo reclamado por Barack Obama.

O senador da Florida, onde vivem muitos refugiados cubanos muito hostis ao regime de Raul Castro, o republicano Marco Rubio, criticou a ingenuidade da iniciativa norte-americana.

«A Casa Branca cedeu tudo, mas obteve pouca coisa», declarou.

O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, lamentou «uma longa série de concessões irrefletidas a uma ditadura que brutaliza o seu povo» e que «isso vai encorajar todos os países que apoiam o terrorismo».

Os democratas também se manifestaram descontentes, nomeadamente o senador Robert Menéndez, que considerou que a aproximação «cauciona o comportamento brutal do Governo cubano».