Katie Stubblefield tinha apenas 18 anos quando ficou praticamente sem rosto depois de se ter tentado matar com um tiro. A vida da adolescente foi salva no hospital, mas as lesões e os ferimentos causados pelo disparo mudaram completamente a sua vida.

Agora, Katie, com 21 anos, tornou-se na mais jovem norte-americana a receber um transplante facial, com vários anos de cirurgia reconstrutiva. A história é contada pela revista National Geographic.

"A história de um rosto" está na capa da edição de setembro da revista. O testemunho de Katie também é contado num documentário online.

A revista teve acesso aos procedimentos que envolveram este transplante, na clínica de Cleveland, no estado do Ohio, como nunca antes nenhuma publicação tinha tido.

Uma jornalista e mais do que um fotógrafo acompanharam a preparação e os resultados do transplante, que demorou 31 horas. A cirurgia aconteceu no dia 4 de maio do ano passado e incluiu onze cirurgiões e vários especialistas de realidade virtual.

Esta cirurgia é ainda considerada experimental nos Estados Unidos e, por isso, não é coberta pelas seguradoras. Por isso, a cirurgia de Katie acabou financiada pelo Instituto de Medicina Regenerativa das Forças Armadas, uma entidade que se dedica a melhorar os tratamentos dos militares feridos em circunstâncias de guerra.

Katie foi considerada uma boa candidata tanto por causa da idade como pelos ferimentos que tinha sofrido. 

O novo rosto que recebeu pertencia a Adrea Schneider, que tinha 31 anos quando morreu de uma overdose em 2017. Os órgãos de Adrea já tinham sido doados, mas a avó, Sandra Bennington, quis doar o rosto a Katie.

 

O dia em que Katie perdeu o rosto

Foi no dia 25 de março de 2014, que Robert Stubblefield, o irmão mais velho de Katie, encontrou a jovem no chão da casa de banho, depois de esta ter tentado pôr fim à vida com um tiro no maxilar. 

Katie diz que não se lembrar do dia em que perdeu o rosto, nem do que antecedeu a tentativa de suicídio. A família diz que ela estava a lutar emocionalmente, depois de uma traição do namorado e de ter sofrido problemas crónicos no estômago e nos intestinos. 

O disparo destruiu grande parte do rosto de Katie, incluindo o nariz, parte da testa e do maxilar. A jovem também sofreu lesões cerebrais e danos significativos nos olhos. 

Depois de ter sido inicialmente tratada no estado do Mississippi, Katie foi transferida para o estado do Tennessee. Mas foi na Clínica de Cleveland, no Ohio - uma unidade de saúde que já tinha realizado procedimentos como este - que viu o seu rosto ganhar vida. 

O transplante, realizado no ano passado, restaurou a estrutura e as funções do rosto, como mastigar, respirar e engolir. O procedimento envolveu o transplante do couro cabeludo, da testa, das pálpebras superiores e inferiores, das órbitas oculares, do nariz, das bochechas superiores, do maxilar superior e de metade da mandíbula inferior, dos dentes superiores, dos dentes inferiores, de nervos faciais parciais, de músculos e da pele. 

Antes do transplante, Katie já tinha sido submetida a 22 cirurgias reconstrutivas, que incluiram uma impressão 3D para ajudar a reconstruir a mandíbula.

A jovem e a família dizem que não conheciam tudo o que o procedimento implicava. 

Eu não fazia ideia do que era um transplante facial.  Quando os meus pais me explicaram tudo fiquei muito empolgada em voltar a ter uma cara, que conseguisse ser funcional", contou Katie.

Um ano depois de estar na lista de espera para transplantes, Katie acabou por ser submetida ao procedimento. Aconteceu em maio. Inicialmente, era suposto ser apenas um procedimento parcial, mas o transplante do rosto completo iria conseguir melhores resultados. 

Depois desta operação, a jovem foi já submetida a mais três cirurgias de revisão para melhorar a aparência e a funcionalidade do rosto.

Katie ainda apresenta dificuldades na fala e a medicação fará sempre parte da sua rotina diária para se conseguir garantir que o organismo não rejeita o transplante. A jovem tem também pela frente terapia da fala e aulas de braille.

Agora, consigo tocar na minha cara. É incrível", desabafou Katie.

 

Uma segunda oportunidade

A vida é preciosa; a vida é linda", destacou.

A jovem contou à National Geographic que espera ingressar na faculdade e falar com adolescentes sobre o suicídio e o valor da vida.

Tantas pessoas que me ajudaram; agora quero ser eu a ajudar outras pessoas".

O médico Brian Gastman, cirurgião plástico da Clínica de Cleveland, disse à CNN que Katie recebeu uma "segunda oportunidade final" através do procedimento.

O meu primeiro desejo é voltar a ver Katie feliz. Essa é a prioridade número um, mas para além disso, eu gostava que ela tivesse algum nível de normalidade", disse Gastman.

Semelhante ao de Katie, o primeiro transplante facial completo bem sucedido do mundo foi realizado no Hospital Universitário Vall d'Hebron em Barcelona, ​​Espanha, em 2010. 

Achámos que a história dela é uma das mais importantes que fizemos e vamos fazer este ano.  É uma história tão comovente e inspiradora, desde a jornada humana até à medicina e à ciência inovadora", disse a editora da revista, Susan Goldberg.

Nos Estados Unidos, as taxas de suicídio aumentaram significativamente em 44 estados entre 1999 e 2016, de acordo com um relatório publicado em junho pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças.

Houve quase 45.000 suicídios em 2016 e, no caso de mais de metade dessas pessoas, não era conhecido nenhum problema de saúde mental. 

Em 2016, as armas foram o método mais usado em mortes por suicídio nos Estados Unidos, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental.

Nos jovens, acho que fazemos um trabalho bastante decente na educação sexual sobre beber, conduzir... mas falta sobre a prevenção do suicídio", disse a mãe de Katie, Alesia.

Posso dizer sinceramente que não acreditámos por um segundo que ela queria morrer", acrescentou.