Quase 5,5 milhões de eleitores catalães vão este domingo às urnas para escolher os deputados ao parlamento regional da Catalunha, numas eleições autonómicas convertidas pelos partidos independentistas num "referendo de facto" sobre a independência ou não da região.

Em teoria, os catalães apenas vão escolher este domingo - numas eleições antecipadas em cerca de 13 meses pelo atual presidente e líder da principal fação independentista, Artur Mas - a composição do novo Governo regional.

No entanto, a plataforma Junts pel Sí (Juntos pelo Sim) - que junta o partido de Artur Mas, a Convergencia Democratica de Catalunya (CDC), a Esquerra Republicana Catalana (ERC) e vários movimentos cívicos - considera que as eleições constituem um "plebiscito" sobre a independência da região.

A exclusão de uma Catalunha independente da União Europeia apenas se poderia dever "a uma vingança de Espanha", considerou hoje em entrevista à agência Lusa o cabeça de lista da plataforma pela independência nas eleições catalãs, Raul Romeva.

"Para começar, nenhum tratado diz nada sobre a separação de uma parte de um Estado-membro da UE e sobre o que se aconteceria a essa parte. Portanto, não estamos perante um problema jurídico, mas antes um problema político que requer uma solução política. A UE é tremendamente pragmática e flexível perante a realidade", afirmou Raul Romeva numa entrevista por escrito à Agência Lusa.


Romeva encabeça a Junts pel Sí, a plataforma política que pretende iniciar um processo de independência na Catalunha caso obtenha a maioria absoluta nas eleições autonómicas da região do próximo domingo.

A Junts pel Sí (Juntos pelo Sim) integra a Convergência Democrática Catalana (CDC) - partido do atual presidente catalão, Artur Mas (número quatro da lista) - a Esquerra Republicana Catalana (ERC) e vários movimentos cívicos. Caso obtenha pelo menos os 68 deputados regionais que lhe dão a maioria parlamentar - ou mesmo conseguindo o apoio da CUP (Candidatura de Unidade Popular, esquerda radical) - pretende concluir, através de negociações, uma declaração de independência no espaço de 18 meses.

Vários líderes europeus - entre os quais Pedro Passos Coelho, David Cameron (Reino Unido), Angela Merkel (Alemanha) e a própria Comissão Europeia - têm abordado a questão da eventual independência da Catalunha. Cameron disse mesmo que uma Catalunha independente não estaria fora da UE, como teria de ir "para o fim da fila" de países que pretendem aderir.

A permanência ou não da Catalunha na UE tem sido tema de campanha, com vários ministros do governo de Mariano Rajoy (PP, direita no poder) a darem por garantido o cenário da saída.

Romeva diz que a Europa sempre tem encontrado uma solução para este tipo de problemas.

"Na realidade, não estamos a fazer nada de novo: desde 2004 entraram na UE 13 novos membros, de dos quais sete não eram Estados independentes em 1990. Com isto quero dizer que as instituições da UE já reagiram perante casos similares e sempre encontraram uma solução boa para todas as partes", afirmou.


No entanto, o Tratado da União Europeia - na sua versão atualizada com a entrada da Croácia em 2013 lista 28 países (sem, obviamente, a Catalunha) e uma decisão quanto à entrada de um novo Estado-membro tem de ser tomada por unanimidade no Conselho Europeu, do qual faz parte Espanha.

"Uma exclusão da Catalunha da UE não beneficiaria ninguém: nem a Catalunha, nem a Espanha, nem a UE. Portanto, que sentido teria a sua exclusão? Apenas se poderia explicar na base da vingança espanhola e esse é um cenário que não faz sentido. Espanha será o primeiro país interessado na permanência da Catalunha na UE", sublinhou.


Um outro problema seria a permanência no sistema do euro. Sem um banco central regulado e integrado no Banco Central Europeu, a Catalunha poderia ficar fora da moeda única (o que é diferente de poder usar o euro como moeda, como faz Andorra) e isso traria consequências para as empresas e bancos no território, como várias associações setoriais têm alertado nas últimas semanas.

"Em relação ao euro, o mesmo governo espanhol admite que um Estado catalão poderia continuar a usa-lo desde o minuto um da independência", assegura Romeva, que dá o exemplo da Grécia para sustentar a sua argumentação sobre o pragmatismo de Bruxelas.


"Repare no que fez a UE para impedir a saída da Grécia da zona euro? e isso tendo em conta que a Grécia implica uma carga colossal para os cofres da UE! Como é que ia prescindir da Catalunha, que não só não lhes custa um euro, como é contribuinte líquido da UE, com mais de mil milhões de euros anuais", questiona o economista.

Por isso mesmo, Romeva acredita que "Espanha vai sentar-se para negociar" com os líderes catalães após as eleições, e o mesmo fará a Europa.

"Com um bom resultado eleitoral não temos nenhuma dúvida de que Espanha se vai sentar a negociar connosco. Também na UE se vão dar conta, em definitivo, de que este processo é irreversível e que, por isso mesmo, será melhor que o percorramos juntos, para que a transição seja mais fácil para todos", concluiu