Perante o pessimismo e a descrença geral nas instituições, o prémio Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa apresenta-se como um otimista convicto sobre a Europa e a democracia. Numa entrevista exclusiva e rara, realizada em sua casa, o escritor peruano lembra, com vários exemplos, que, apesar de muitas falhas, nunca a humanidade viveu tão em paz e com tanto progresso e bem-estar.

O escritor mostra-se indignado com a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e com a forma como decorreu a campanha para o referendo que ditou o resultado do Brexit.

A saída da Grã-Bretanha é uma saída insensata, irresponsável, demagógica… A Grã-Bretanha vai pagar muito caro, com certeza, e a Europa também vai sofrer.”

 

Nunca imaginei que um país que me parecia o símbolo da modernidade, da civilização, pudesse cair numa demagogia chauvinista e racista tão repugnante como a que vi durante a campanha do Brexit. Vi uma demagogia que apenas tinha visto antes em países de terceiro mundo, não em países de primeiro mundo. (…) Foi uma campanha fundada, basicamente, na xenofobia, no racismo… Foi uma surpresa.”

Defensor convicto do projeto europeu, Mário Vargas Llosa diz que “países como Portugal e Espanha não seriam o que são, não seriam democracias modernas, se não fosse, em grande parte, a Europa”.

Em política a perfeição não existe. Então, a democracia é um sistema imperfeito, mas sempre muito superior a todos os outros. (…) Há expectativas muito grandes, que a democracia não é capaz de satisfazer. Esse é o grande problema da democracia.”

 

A Europa é, provavelmente, o projeto mais ambicioso e generoso que a democracia concebeu em todo o mundo.”

Na entrevista conduzida por José Alberto Carvalho, Llosa é perentório em encontrar uma explicação para o fenómeno do número crescente de migrantes que, diariamente, procuram a Europa: “Se compararmos a situação da Europa, em particular a situação do Ocidente, com o resto do mundo, estamos muito bem. A única explicação para centenas de milhares, ou mesmo milhões, de pessoas de origem africana, que vêm do médio oriente, que vêm às vezes da Ásia, queiram entrar na europa é porque a Europa deve ter algo melhor do que os outros sítios. É o que explica esta avalancha.”

Correm riscos terríveis vindo para a Europa. E estão dispostos a corrê-los, a atirarem-se ao mar, a serem presos, a serem devolvidos aos seus países… Mesmo assim querem vir. Creio que é uma grande homenagem que fazem a quem faz parte da cultura ocidental.”

Perante uma questão do jornalista, o Nobel da Literatura recua a 1990, ano em que se candidatou à presidência do Peru e foi derrotado por Alberto Fujimori. Mais do que ter sido derrotado por um homem que se veio a revelar um dos maiores ditadores da América Latinha, Llosa confessa-se surpreendido de que muitas das ideias que então defendeu e “que foram derrotadas nessas eleições, pouco a pouco, foram-se impondo no Peru”. “Agora, no Peru, desde o ano 2000, quando caiu a ditadura de Fujimori, temos eleições livres, governos democráticos e um progresso económico, graças a uma política económica que eu defendi e que, nesse tempo, foi muito impopular”, exemplifica.

Confessa-se um otimista e justifica que “há mais razões para ser otimista que pessimista, sobretudo se se é europeu, ocidental, se se vive em países abertos e sociedades livres, ou seja democráticas”. É taxativo quando responde à pergunta sobre qual a época, passada, presente ou futura em que gostaria de viver: “Eu sou do meu tempo.”

Interesso-me muito pelo passado, do ponto de vista cultural e literário, sem dúvida, mas tenho uma grande sorte de ter vivido neste tempo. Este tempo, citando Popper, é o melhor tempo em que viveu a humanidade.”  

A viver em Madrid nos últimos anos, Vargas Llosa estará em Lisboa, já em outubro, para a sessão de encerramento do Encontro “Que Democracia?” organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e que conta com a cobertura da TVI24.