Carlos Vianna tem 62 anos. Vive em Portugal há um quarto de século e é uma figura proeminente entre a comunidade brasileira deste lado do Atlântico. Em 1991, esteve na fundação da Casa do Brasil de Lisboa, instituição de que ainda é dirigente.

Vianna, engenheiro de profissão, fez parte dos movimentos estudantis de 1968, lutou contra a ditadura no Brasil e esteve também no movimento que deu origem ao Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se candidata Dilma Rousseff.

Em conversa telefónica com o
tvi24.pt, a pretexto das eleições do Brasil deste domingo, Carlos Vianna confessou estar convencido que Dilma vai suceder… a Dilma. A dúvida persiste apenas se haverá ou não segunda volta, que o engenheiro e dirigente associativo não considera «assim tão inevitável». «Acho que ela terá qualquer coisa entre 45 a 50 por cento dos votos válidos. O facto de serem muitos candidatos acaba atrapalhando. É natural que os outros oito com menos expressividade nas sondagens tenham, no total, uns quatro por cento que podem vir a fazer falta a Dilma», disse

«O brasileiro tem uma tendência em votar em quem vai ganhar. Pode ser que Dilma beneficie desse efeito de arrastamento. Mas tudo pode acontecer. Em 1989, Lula perdeu as eleições no último debate», recordou.

Dilma sem «sombra» e com «luz própria»

Com Dilma a permanecer no Palácio do Planalto, Carlos Vianna não prevê grandes mudanças na política do Brasil. Mas prevê algumas mudanças no comportamento de Dilma, sem a «sombra de Lula». «A grande mudança é que ela vai ter cacife político próprio forte. Na primeira eleição, ela estava muito dependente de Lula. Agora, ela vai ter uma luz própria. Resta saber se vai aproveitar», comentou.

«Se vencesse no primeiro turno, ganharia uma maior força, que ela seria inteligente o suficiente para aproveitar. A sombra do Lula ficaria mais esbatida», acrescentou.

Sobre um eventual segundo mandato de Dilma, Carlos Vianna teme que a Presidente não seja capaz de «fazer uma grande reforma política, como pretendia». Tudo porque o PT «está casado» com o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), «que é um grande partido, com um grande peso na coligação». «Eu estive no movimento que deu origem ao PT, mas sou muito cético quanto à coligação para se manter no poder. Hoje é um partido com características conservadoras muito fortes», disse Calos Vianna.

Ainda assim, sublinha, Dilma tem sido capaz de implementar algumas medidas sociais «importantes», como o programa «Minha Casa, Minha Vida» ou o «Bolsa Família». «Não é à toa que Dilma, nas classes baixas tenha mais votos», resumiu.

Pagar para ser candidato

O dirigente da Casa do Brasil em Lisboa lamenta o descrédito crescente que os brasileiros dão à política. E culpa os políticos e o sistema eleitoral. «Há uma enorme proliferação de partidos. (…) No Brasil, não há grandes partidos ideológicos e é muito fácil formar um partido. As eleições são muito influenciadas pelo dinheiro. Os candidatos pagam aos partidos para serem candidatos e financiam a sua própria campanha», contou.

«A própria Marina [Silva] usou outros partidos como legenda de aluguer [partidos disponíveis para abrigar candidaturas de políticos, geralmente endinheirados, dispostos a pagar pela inscrição e apresentação de candidatura a um posto eletivo], porque não conseguia formar o seu próprio partido», revelou.

O próprio funcionamento da campanha está a afastar os brasileiros das decisões políticas: «a campanha é muito baseada no marketing. Há profissionais das eleições, que ganham a vida carregando cartazes, por exemplo». «E o dinheiro, no final, está do lado de quem ganha. O maior partido no Brasil é o “Partido dos Amigos do Governo”», ironizou.

«A maioria dos deputados no Brasil trabalha muito pouco. O Brasil tem mais de 10 mil medidas provisórias à espera de serem legisladas», acrescentou.

Afastamento mais notório fora de fronteiras

O alheamento das decisões políticas é maior entre os emigrantes, uma realidade que Carlos Vianna conhece bem. «Os emigrantes vão-se integrando nos seus países de acolhimento e os laços vão diminuindo», constatou.

E Carlos Vianna contabiliza: «Há mais de 30 mil pessoas em condições de votar em Portugal para as eleições presidenciais brasileiras. Em 2010, votaram cerca de quatro mil».

Para o dirigente associativo, as relações entre Portugal e Brasil em nada se devem alterar com o processo eleitoral em curso. «Acho que não altera em nada, porque as relações entre Portugal e Brasil já estão muito consolidadas. Hoje, o capital do Brasil em Portugal, por exemplo, é muito considerável», disse, em jeito de previsão.

«Só vai melhorar, não ai piorar não!», finalizou.