A aparente mudança na Polónia não começou quando virou à direita nas presidenciais de maio. Antes, ainda em 2014, Donald Tusk deixou o cargo de primeiro-ministro para liderar o Conselho Europeu, ficando no seu lugar a segunda mulher a servir o país como primeira-ministra: Ewa Kopacz, ex-pediatra de clínica geral, que disputa agora as preferências dos eleitores diretamente nas urnas, também pela Plataforma Cívica (PO). Nas eleições deste domingo, não é a única. Tem mais duas adversárias na corrida.

Mas só uma delas é tida como séria concorrente ao lugar de primeira-ministra: Beata Szydlo, do nacionalista e eurocético Lei e Justiça (PiS). O mais certo é que vença, depois de o vencedor das presidenciais ter sido Andrzej Duda, apoiado pelo partido. Mas as sondagens não lhe garantem maioria absoluta. 

Ganhando o PiS, as relações com a União Europeia podem ficar mais complicadas. Embora tenha abrandado as críticas à UE e seja Szydlo, 52 anos, a dar a cara, o líder do partido é Jaroslaw Kaczynski, 66, que tem sido vigorosamente ativo nas suas declarações tidas como “ultra-nacionalistas”. 

Kaczynski tem radicalizado o discurso sobretudo no que toca aos refugiados, um problema central em cima da mesa europeia. Em setembro, acusou o governo polaco de não ter o direito de tomar decisões sob pressão externa sob essa matéria, alegando que poderia prejudicar a vida quotidiana dos polacos. Chegou mesmo a dizer, segundo a Reuters, que os refugiados devem ser avaliados por causa das doenças e parasitas.

A ainda primeira-ministra Ewa Kopacz decidiu no último minuto apoiar as quotas de refugiados, ignorou os avisos da oposição e, inclusive, do Presidente, acordando com Bruxelas receber cerca de 7.000 pessoas. Os refugiados são um dossiê que o próximo governo terá, inevitavelmente, em mãos. E não é expectável que o PiS no poder faça vénias à UE. 

Para todos os efeitos, o Lei e Justiça não é contrário à presença da Polónia na União Europeia mas acusa os liberais de demasiada cedência a Bruxelas e a Moscovo. Também não é a favor da adesão ao euro num futuro próximo, pelo menos não enquanto o país não atingir a prosperidade económica desejável para comportar a moeda única. A Plataforma Cívica também não tem pressa.

Só que o partido Lei e Justiça é mais radical nas desconfianças. Também em relação aos grandes poderes europeus, especialmente da Alemanha. É de esperar uma relação tensa e gelada na UE, não só com Angela Merkel, mas também com o ex-primeiro-ministro Donald Tusk que ainda lidera o Conselho Europeu. A negociação de um acordo global sobre as alterações climáticas e as relações com a Rússia também poderão ser temas quentes, se o novo quadro parlamentar polaco vier a ser aquilo que as sondagens antecipam.

Tudo indica então que Beata Szydlo possa vir a ser a próxima primeira-ministra do país. A etnóloga relativamente novata na cena política até adotou uma posição mais programática e conciliadora na campanha. Mas há quem diga que ela serve apenas de rosto mais suave para o partido que, lá está, tem outro líder, angariar votos.

Seja como for, e apesar das sombras – que só na hora da verdade, governando, é que se verá se serão mais do que isso -, parece que esta eleição se disputa no feminino. A terceira candidata é quem lidera a coligação Esquerda Unida, que  reúne um grupo de partidos encabeçados por homens, cada um deles em queda livre. Só juntos têm a oportunidade de alcançar os 5% necessários para garantirem lugares no parlamento. As sondagens dizem que é possível. Barbara Nowacka, 40 anos, é quem os representa.


Mulheres empurradas para o poder


Três mulheres na corrida às eleições gerais pode parecer surpreendente, logo numa nação conservadora e conhecida pelos seus valores tradicionais de família. Estaremos perante uma mudança social efetiva? Essa perceção, advertem os analistas, pode ser enganadora.

Em primeiro lugar, a lei exige, desde 2011, que pelo menos 35% dos candidatos em eleições sejam mulheres. Depois, este aumento do poder no feminino será reflexo da antiga estrutura de poder masculino no país. As mulheres estão a ser usadas como “instrumentos no jogo político”, adverte o analista político Kazimierz Kik, citado pela AP.

Os especialistas constatam que os barões impopulares dos partidos estão a empurrar as mulheres para a frente para capitalizar preferências eleitorais, quando os eleitores estão cansados de uma cultura política dominada por homens, disputas internas e escândalos.

“Os líderes dos partidos sabem que muitos eleitores estão contra eles e que não podem ganhar. Eles sabem que as mulheres têm modos mais suaves e não prejudicam a sua posição como líderes”


Os polacos estão especialmente revoltados com um escândalo que rebentou 2014, quando vários líderes, incluindo o ex-ministro das Relações Exteriores Radek Sikorski, foram apanhados em gravações secretas usando linguagem suja e expressando uma visão pobre sobre o estado do país. As conversas, gravadas ilegalmente, foram feitas enquanto jantavam ostras e outras iguarias em restaurantes caros.

Um outro episódio, este do PiS foi a demissão do seu porta-voz e dois juristas por desvio de dinheiro parlamentar para uma viagem para a Espanha, com as suas mulheres e muito álcool à mistura.

Uma coisa é certa: os polacos não estão a fazer da guerra dos sexos um assunto nestas eleições, mas estão sim a julgá-los pelas suas ideias e comportamentos. Isso sim, poderá ser um sinal de mudança de mentalidade.


Como é o sistema eleitoral polaco?

Os assentos no parlamento, que elege 460 deputados e 100 senadores, são atribuídos por um sistema proporcional. Os partidos têm de atingir pelo menos 5% dos votos. As coligações têm de alcançar pelo menos 8%.

O país tem 41 distritos eleitorais, cada um com sete a 19 lugares para eleger, em função da sua dimensão.

Os 100 membros do senado são eleitos em sufrágio direto.


O que promete cada partido?


O Plataforma Cívica (PO), agora no poder, pretende introduzir um salário mínimo por hora e travar os contratos de trabalho temporários.

O Lei e Justiça (PiS), conservador, promete dar maior papel ao Estado na economia, ao mesmo tempo que tem como medida baixar a idade da reforma (que pode ir até aos 67 anos no país, e que aumentou, como noutros países, como resposta à pressão financeira decorrente de uma população cada vez mais envelhecida).

O Movimento Kukiz'15 quer acabar com uma Polónia que sereve de “colónia de governos estrangeiros e empresas internacionais”.

O Nowoczesna tem como bandeiras simplificar os impostos, diminuir a burocracia e acabar com o financiamento dos partidos políticos via orçamento de Estado.

O Partido Popular da Polónia (PSL) pretende, por sua vez, alargar o apoio financeiro às empresas nacionais e tradicionalmente tem como bandeira a defesa dos interesses dos agricultores, prometendo agora promover o empreendedorismo. É um partido recetivo a coligações com partidos de esquerda ou de direita.

O Esquerda Unida reivindica o aumento do salário mínimo na Polónia (pouco mais de 400 euros) em 40%, impondo um correspondente salário mínimo por hora. Para além disso, quer proibir estágios não remunerados e baixar a idade da reforma, vinculando-a ao número de anos de trabalho.

Já o Congresso da Nova Direita da Polónia  (Korwin) quer limitar a influência da UE no país, acabar com a influência do Estado na economia, educação e serviços de saúde.