
O México tem neste domingo as maiores eleições da sua história. 79,5 milhões elegem novo presidente, mais deputados e senadores, no total mais de 2000 cargos. Enrique Peña Nieto, o candidato do partido que deteve o poder durante 71 anos, é o favorito, no final de uma campanha que evitou o debate sobre a violência e o tráfico de droga e que a internet aqueceu.
Peña Nieto corre pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) e as sondagens dão-lhe 44 por cento dos votos. Em segundo, com 28 por cento, surge Andrés Lopez Obrador, o político de esquerda que foi o candidato derrotado por uma margem ínfima nas últimas eleições, há seis anos, e corre pelo Partido da Revolução Democrática (PRD). E em terceiro a conservadora Josefina Vazquez Mota, do Partido de Ação Nacional (PAN), o do atual presidente, Felipe Calderón. Ainda há um quarto candidato, Gabriel Quadri de La Torre, do Partido Nova Aliança.
Peña Nieto, que tem 45 anos e é antigo governador do Estado do México, foi-se afirmando como favorito, assente numa campanha eficaz e num perfil telegénico. Quem o apoia aponta-lhe uma gestão positiva como governador e vê-o como o candidato mais capaz de modernizar o país. Os críticos dizem que é apenas um testa-de-ferro para o regresso aos tempos do autoritarismo que ficou associado ao longo domínio do PRI, no poder entre 1929 e 2000.
É aqui que entra a internet. Peña Nieto ganhou novos inimigos em Maio, quando acabou escondido na casa de banho face a um protesto de estudantes numa visita a uma universidade. No final, membros do seu partido disseram que a manifestação tinha sido orquestrada pela campanha de Obrador. 131 dos jovens que lá estiveram colocaram um vídeo no Youtube a mostrar os cartões de estudantes. O vídeo tornou-se viral e desencadeou um movimento de apoio, com muitos outros jovens a dizer que eram o 132º da lista.
O movimento foi batizado #yosoy132 e cresceu no Twitter, com muitos pontos de contacto com movimentos de protesto um pouco por todo o mundo, como o Occupy Wall Street ou o 15-M. Tornou-se um dos principais espaços de oposição a Peña Nieto, centrando as críticas na defesa da democracia e na contestação da forma como os media tradicionais cobriam as eleições. Mas o candidato também deu o flanco noutras circunstâncias.
Ficou famosa uma entrevista de Peña Nieto ao «El País» em que não soube dizer quanto custava na altura uma «tortilla» no México e respondeu dizendo que não era «a dona de casa». Noutra ocasião, disse que um livro de Carlos Fuentes tinha sido escrito por outro autor, o que lhe valeu um comentário mordaz do famoso escritor mexicano: «Este senhor tem o direito de não me ler. Não tem é o direito de ser presidente do México a partir da ignorância.»
Num país com 112 milhões de habitantes que é uma das grandes economias do mundo, o novo presidente terá muito com que se preocupar. A desigualdade social, a corrupção, e o narcotráfico. Há regiões do país convertidas em verdadeiras zonas de guerra, em conflitos dos senhores da droga de que resultaram mais de 50 mil mortos. Os números são brutais.
Os quatro candidatos fizeram declarações de intenções sobre o combate à violência, mas não debateram a fundo o problema, nem foram muito além das políticas do presidente cessante, que se basearam no uso massivo de força armada mas não conseguiram progressos substanciais.
Peña Nieto tentou um golpe de asa, ao chamar para seu assessor o colombiano Óscar Naranjo, famoso por ter detido Pablo Escobar. De resto, um perito em segurança do Instituto Mexicano para a Competitividade, Alejandro Hope, explica assim ao «El País» os motivos para este tema ter sido mais ou menos lateral na campanha: «Vázquez Mota não queria que lhe recordassem os milhares de mortos durante o Governo do seu partido; o PRI governa nos Estados mais violentos e a esquerda vê a insegurança como um subproduto da pobreza e da desigualdade.»