Milhares de egípcios foram despejados das suas casas, sem qualquer indemnização, para o início da construção de um canal alternativo ao canal de Suez, uma das vias mais importantes nas rotas de comércio do mundo.

Os habitantes de duas aldeias existentes no caminho da nova construção afirmam que pelo menos 1500 casas já foram destruídas, mas que no total são cinco mil as residências ameaçadas.

O projeto foi anunciado o mês passado como uma solução do Egipto para a crise económica e para a elevada taxa de desemprego, particularmente nas comunidades junto ao canal.

Para já, os habitantes de Abtal e Qantara, a poucas centenas de metros do canal do Suez, consideram-se as primeiras vítimas da construção.

Ibrahim el-Sayed, um agricultor de 25 anos, com três filhos, foi despejado da sua casa pelo exército, que está a supervisionar o projeto. A família vive agora numa cabana improvisada.

«Perguntei-lhes para onde devíamos ir. Esta é a nossa casa, pelo menos compensem-nos. Mas eles responderam que o exército não dá dinheiro a ninguém. Dissemos-lhes que teríamos de ir viver para a rua, mas eles responderam que esse não era um problema deles», declarou Sayed ao «The Guardian».

A região abrangida pela construção está sob a alçada do Egito desde que Israel entregou a península de Sinai ao país, encerrando um acordo de paz.

Agora, segundo o «The Guardian, os soldados dizem aos habitantes das comunidades da área que não têm o direito de viver naquelas terras, uma vez que, tecnicamente, o território pertence ao exército. Alguns egípcios terão sido presos, como o irmão de Sayed.

«Se somos invasores, não se percebe porque nos deixaram viver aqui durante 30 anos e porque não reivindicaram o direito a estas terras antes», questiona Sayed.

A população local enfrenta, assim, uma posição ingrata: poderão ficar sem qualquer abrigo se permanecerem em silêncio, mas se protestarem contra um projeto e uma instituição militar arriscam-se a ser rotulados de anti-patriotas pelo Estado.

Em comunicado, o advogado das comunidades, Sherine al-Haddad, teceu duras críticas ao modo como as pessoas têm sido tratadas, mas não culpabilizou o exército.

«É o exército que está a agir contra a população, mas a culpa não é do exército; a culpa é das entidades que têm autoridade sobre o canal», sublinhou.

O novo canal, com uma extensão de cerca de 70 mil quilómetros, vai permitir uma alternativa em parte do canal de Suez, que liga Porto Said a Suez ao longo de 195 quilómetros. Assim, o projeto pretende criar espaço para que mais barcos possam fazer o trajeto.



O governo diz que a construção vai triplicar as receitas do canal que já existe e a imprensa egípcia chama-lhe «o projeto do século», comparando-o com o ataque surpresa do Egito a Israel, em 1973, um dos momentos que mais orgulha os egípcios.

Porém, os analistas esclarecem que ainda não é possível perceber se a construção terá o impacto financeiro pretendido. O sucesso dependerá de dois fatores fundamentais: o valor que o país vai cobrar pela utilização da via e a eficiência com que vai lidar com as embarcações que a atravessarem.

O especialista em engenharia hidráulica, Haitham Mamdouh, da Universidade de Alexandria, explicou ao «The Guardian» que o impacto da construção na economia do Egipto é positivo, uma vez que pôs 50 empresas de construção a trabalhar. Contudo, destacou o curto espaço de tempo de desenvolvimento do projeto.

«De acordo com as normas internacionais de engenharia, um projeto destes implica um estudo de engenharia, um estudo económico e um estudo ambiental e é necessário pelo menos um ano para que estes possam ser elaborados. Este projeto foi aprovado sem esses estudos».