O desafio é lançado por Edward Frenkel nas primeiras páginas do seu livro “Amor e Matemática”, um best-seller mundial editado em Portugal pela Casa das Letras: “e se, na escola, tivesse uma aula de artes em que só lhe ensinassem como pintar uma vedação? E se nunca lhe mostrassem as pinturas de Leonardo da Vinci e Picasso? Gostaria de aprender mais sobre o assunto? Duvido”.
 
Considerado um dos maiores pensadores da matemática moderna, Edward Frenkel, 47 anos, nascido na antiga União Soviética, não tem a pretensão de transformar os demais em matemáticos, mas simplesmente mostrar a matemática “viva” e não a "experiência traumática" que na sua opinião a maioria tem de uma disciplina “morta”.
 
Em entrevista à TVI24, o autor e professor da prestigiada Universidade da Califórnia em Berkeley e membro da Academia de Artes e Ciência dos Estados Unidos, garante que os maus resultados não são exclusivos de Portugal e que a solução não passa por memorizar fórmulas.
 
“Tenho conversado com alunos e pais de muitos países, especialmente agora que o meu livro está publicado em dez línguas, e sinto que o problema é universal. O que também pode ser uma boa notícia, pois talvez haja uma única solução", começa por dizer.

Mas há uma razão. "A primeira, e a mais importante, está relacionada com a forma como ensinamos. A Matemática é apresentada como um conjunto de procedimentos, de regras de cálculo que têm de ser memorizadas e, regra geral, sem qualquer ligação ao mundo real. Os estudantes sentem-se aborrecidos com isto e têm razão. Hoje em dia, a matemática está em todo o lado, nos computadores, nos smartphones, na Internet, nos jogos de vídeo, tudo é baseado na matemática e isso abre uma porta que não existia há 10/15 anos para envolver os nossos alunos. Mas para isso é preciso um grande esforço e um grande contributo dos conhecedores”, analisa.
 
Como podem, então, os professores portugueses inspirar os seus alunos?

“A matéria que ensinamos não muda há centenas de anos. É algo sem precedentes na história do ensino, não há outra matéria que seja tão antiga. E a matemática evoluiu muito. Por exemplo, ensinamos Euclides [considerado o pai da Geometria] às crianças, que tem 2.300 anos. É como ensinar Homero em Literatura [Português]. Não é mau ensinar Homero nem Euclides, mas não paramos em Homero e dizemos que nada aconteceu desde então. (...) Era como se nas aulas de ciência não se ensinassem os átomos, o ADN e o sistema solar e se ensinassem coisas de há mil anos. É ridículo, não seria possível, as pessoas iriam queixar-se de que o material era obsoleto. Em matemática todos acham que a matéria acaba em Euclides e nas equações quadráticas. Como é possível entusiasmar os alunos com esta matéria, que está morta, atualmente está morta. Tornem, por isso, a matemática viva!", defende.
 
Edward Frenkel admite, porém, que rever a matéria é algo que “não pode ser feito do dia para a noite”, mas “tudo tem de mudar” na forma como se ensina Matemática, que é ensinada “como se vivêssemos na idade da pedra”.

“Eu dou aulas a universitários e a este nível os alunos já estão mais motivados, mas, mesmo assim, mostro-lhes as jóias da matemática, a beleza da disciplina. Claro que há técnica para trabalhar, há coisas para memorizar no início, mas também lhes mostro o quadro geral, o que está por trás das coisas. Todas as descobertas foram feitas por humanos, é uma luta de ideias e há histórias absolutamente fascinantes", sublinha.  
 
No seu livro, Edward Frenkel admite aos leitores que quando era jovem, então na antiga União Soviética, também ele “odiava matemática”, mas bastou conhecer a pessoa certa para tudo mudar.

“Achava a matemática estúpida, aborrecida, fria, um assunto morto. Porquê? Porque só conhecia o que me ensinavam. Mas tive sorte e tudo mudou quando tinha 15 anos e conheci um matemático, que era amigo dos meus pais, e que me mostrou mais. A primeira coisa com que me entusiasmei foi com a ideia de simetria, que é muito simples, mas da qual não se fala, porque a matemática é sempre só números e cálculos. Todo o progresso que foi feito na Física Quântica nos últimos anos, como a descoberta de partículas, tem por base esta ideia de simetria e que posso explicar facilmente com uma garrafa de água. Basta rodar a garrafa para perceber que as simetrias são as rotações e assim começa uma bonita história. Por isso, para mim era incrível que nunca falássemos disto. Eu sei que é possível entusiasmar os alunos, porque andei pelas escolas e os seus olhos iluminavam-se com estes conhecimentos", conta. 
 
Com “Amor e Matemática”, o autor pretende que os seus leitores "se liguem à matemática".

“Temos uma relação de ódio com a matemática por todas as razões erradas. Infelizmente, as aulas de matemática tornaram-se espaços de tortura para a maioria. Não imaginam as histórias que já ouvi. Uma má experiência de ser chamado ao quadro numa sala de aula e não conseguir resolver um problema e odiamos para sempre a matemática. Os professores precisam de encorajar os alunos. Na vida não fazemos nada sem esforço mas é preciso fazer um esforço numa atmosfera positiva. Sou um pouco como um terapeuta no meu trabalho, para que percebam que não há nada a recear. E quando se ultrapassa essa barreira ficam tão surpreendidos", assumiu.