Durante a última semana, enquanto fazia campanha pelo “Não” no referendo de domingo, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, afirmou por várias vezes que um voto no “Oxi” não significaria uma saída da Zona Euro. O PM disse que caso o “Não” vencesse iria tentar um acordo imediatamente com os credores e tudo indica que essa promessa será cumprida – o governo grego deverá apresentar novas propostas amanhã na Conferência de Líderes da Zona Euro extraordinária.

Porém os efeitos do referendo já se fazem sentir por toda a Europa, e a união monetária parece mais dividida que nunca. São já muitas as vozes que apoiam, ou pelo menos se inclinam para, uma saída da Grécia da Zona Euro, e as habituais figuras mais criticadas até são quem parece demonstrar mais paciência com os gregos: Angela Merkel, François Hollande e Jeroen Dijsselbloem.

A chanceler alemã e o presidente francês fizeram uma declaração conjunta esta tarde onde pediram ao governo grego que apresente amanhã propostas "sérias e credíveis"


                         
                     Angela Merkel e François Hollande (Foto: Reuters) - clique na imagem para ver o vídeo

Os dois líderes não falaram num possível terceiro resgate, e pedem reformas, o mesmo discurso utilizado inúmeras vezes antes do referendo: Angela Merkel lembrou que a Europa já deu muitas “provas de solidariedade” para com a Grécia e François Hollande a frisar que a “porta das negociações está aberta”.

"Respeitamos voto dos gregos. A Europa é a democracia. Entendemos a mensagem de todos os partidos democráticos da Grécia e o povo, que reafirmou voluntariamente que quer que o país fique no euro. As portas estão abertas à discussão", disse Hollande.



O presidente do Eurogrupo, e ministro das Finanças holandês, Jeroen Dijsselbloem, convocou uma reunião de emergência para amanhã às 12:00 (hora de Lisboa), afirmando que o referendo não aproximou credores e gregos “de uma solução”, mas salvaguardando que os ministros da Zona Euro esperam novas propostas do governo helénico.

Como avançou a BBC, já durante a tarde, numa carta enviada ao parlamento da Holanda, Dijsselbloem disse que uma nova ajuda à Grécia terá sempre condições associadas.

Porém é de dentro do governo onde Dijsselbloem é ministro que parte a voz mais crítica de toda a situação. O parlamento holandês discutiu o resultado do referendo hoje, e o primeiro-ministro Mark Rutte fez questão de salientar que se a Grécia não aceitar as condições impostas, então “acabou”.

Rutte disse que é altura da Grécia decidir se quer permanecer na Zona Euro.
 

“Se as coisas continuarem como estão, então estamos num impasse. Não há outra opção, [os gregos] têm de estar preparados para aceitar reformas profundas”.


A mesma linha de pensamento parece seguir o ministro da Economia do Reino Unido, George Osbourne, que, como conta a Lusa, disse estarem a “diminuir rapidamente” as perspetivas de um “desenlace feliz” para a crise grega. Pede aos líderes europeus que encontrem uma solução “sustentável”, depois de admitir que “não há uma saída fácil”.

                     
                                                    Mariano Rajoy (Foto: EPA)

Mais cuidadoso nas palavras, mas insistindo igualmente numa solução rápida, foi o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy. Diz que a Zona Euro se mantém empenhada em ajudar os gregos, mas pede reformas necessárias “ao crescimento”.
 

 “O que interessa é que a Grécia saiba que nós estamos dispostos a ajudá-la (...) mas em troca é preciso que o país faça as reformas necessárias ao crescimento e à criação de emprego. Solidariedade, sim, mas ela deve ser acompanhada de responsabilidade”, disse, segundo a agência Lusa.


Num tom ainda mais “amigável” falou Pier Carlo Padoan, ministro das Finanças da Itália, que à Reuters disse que os outros 18 países da Zona Euro estão dispostos a reconsiderar um novo programa de assistência à Grécia.
 

“Os 18 [outros países da Zona Euro] estão abertos a reconsiderar o pedido grego, que só pode ser para um novo programa, e não para uma continuação do anterior”.


Não poderia mesmo ser uma continuação do anterior, pois esse envolvia o FMI, que apesar de se mostrar disponível para ajudar a Grécia, ao final da tarde desta segunda-feira a diretora do Fundo Monetário Internacional fez questão de esclarecer que essa ajuda não significa mais dinheiro.

Citada pela Reuters, Christine Lagarde terá dito ao primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, que uma vez que o governo não pagou os 1.6 mil milhões no dia 26 junho, o FMI não pode voltar a emprestar dinheiro.

Mas a declaração mais direta em relação a uma possível saída da Grécia partiu do antigo presidente fracês, Valery Giscard d’Estaing, que afirmou, sem asteriscos, que o país deve sair da Zona Euro.

Numa entrevista à “L’Express”, Valery Giscard, que como descreve a Lusa foi um “arquiteto” da entrada da Grécia na União Europeia em 1981, disse que “é necessário colocar a Grécia para fora do euro”, considerando que os gregos “abandonaram a união económica, e assim, indiretamente, a união monetária”.

Valery Giscard já tinha defendido este caminho em fevereiro e refere que os artigos 108 e 109 do tratado de Maastrich (que criou a moeda única) deixam espaço para isso.

                  
                                                Pedro Passos Coelho (Foto: Lusa)

Por sua vez, o primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, defende que, mesmo depois da vitória 'Não', "a integridade do euro" não está em causa e relativizou o momento por que a Europa está a passar.

"Creio que na União Europeia, nos últimos cinco anos, já passámos por situações bem mais complexas [e hoje existe] uma capacidade de responder e gerir situações de crise que não existia [na altura]. A integridade do euro não está em causa e não creio que o resultado deste referendo ponha em causa, nem a zona euro, nem a integridade do euro."


Não pode haver retrocessos, vincou ainda: "Não acredito que depois de tudo o que passámos que se possa pôr em questão a integridade do euro"
 

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