O acordo devia ter sido votado até à meia noite, mas já estávamos perto das duas da manhã em Atenas (00:00, em Lisboa) quando o primeiro-ministro Alexis Tsipras viu aprovado o entendimento que assinou com os credores internacionais.
 
Um acordo que vai trazer reformas para a Grécia em troca de um terceiro resgate, estimado em 86 mil milhões de euros.
 
O acordo passou no parlamento grego com 229 votos a favor, 64 contra e seis abstenções. A maioria dos deputados a votar contra (40) e todos os que se abstiveram (seis) são deputados do partido do governo, o Syriza.

Entre os deputados que votaram "não" estão o ex-ministro das Finanças , Yanis Varoufakis, a porta-voz parlamentar,  Zoe Constantopoulou, e o ministro da energia, Panagiotis Lafazanis.

Várias horas de debate antecederam a votação que apoiou o acordo assinado por Tsipras. Horas em que se ouviram as vozes de apoio e de discórdia em relação ao entendimento que garante a ajuda ao país, e onde já se fazia prever a divergência na inclinação de voto dos deputados do Syriza.
 
O primeiro-ministro Alexis Tsipras não esteve presente em grande parte do debate e só falou perto do final.

                  
                                                  Alexis Tsipras (Foto: Reuters)
 
Durante a sua intervenção, Tsipras apelou ao voto a favor do acordo, dizendo que não queria mascarar este entendimento como algo bom, mas antes como a escolha que menos prejudicava a Grécia.
 

“Tive de escolher entre um acordo com o qual não concordo, um incumprimento desordeiro ou a escolha de Schäuble [ministro das Finanças da Alemanha] e sair do euro. (...) Não acreditamos [no acordo], mas estamos forçados a concordar."

 

Um debate decisivo


A discórdia era óbvia dentro do  Syriza, com vários deputados a dizerem abertamente que não apoiavam o acordo assinado pelo PM - 46 acabaram por confirmar que não estavam a fazer "bluff".

A voz mais representativa do conflito interno, e do apoio firme ao “não”, terá sido, talvez, a deputada, e porta-voz parlamentar,  Zoe Constantopoulou, que falou antes do primeiro-ministro, e até ao último momento apelou ao voto contra o que considera ser um “genocídio social”. Constantopoulou criticou, também, o curto espaço de tempo dado ao parlamento para ponderar e votar as medidas.

 
                      
  Yanis Varoufakis foi um dos deputados do Syriza a votar contra. Clique na imagem para ver o vídeo (Foto: Reuters)

Os deputados do partido parceiro de coligação, Gregos Independentes, surpreenderam ao manifestar apoio ao PM na votação, ainda que tenham deixado claro que consideram que o entendimento com os credores é um “golpe de estado”.

Segundo o “The Guardian”, durante o debate o líder do partido, Panos Kammenos, disse ter de votar a favor, “contra a sua consciência”, pois se o governo cair “não restará esperança para a Grécia e para a Europa”.
 
Como já era esperado, os partidos da oposição tornaram-se aliados do Syriza para a votação. A maioria segue uma linha pró-Europa, e não queriam que a Grécia saísse do euro por não aceitar as condições impostas.
 
O partido Nova Democracia, que foi o principal adversário do Syriza nas última eleições, ajudou Tsipras, e votou a favor, ainda que com a promessa de que a partir de agora o PM “está por sua conta”.

Os, também, pró-Europa do “ To Potami” prometeram desde logo apoiar o acordo, com o deputado Harry Theoharis a sugerir aos deputados e ministros do Syriza que não apoiam o governo a apresentarem a demissão. Porém deixaram claro que rejeitam qualquer possibilidade de vir a entrar na coligação governamental.

Já a líder do partido de esquerda PASOK, Fofi Gennimata, criticou Alexis Tsipras por estar ausente durante grande parte do debate. Gennimata disse que Tsipras devia ter vindo defender o acordo que assinou, e ainda acusou o Syriza de falhar em continuar os esforços dos últimos anos.

Mais direto foi o líder do Partido Comunista KKE, Dimitris Koutsoubas, que disse que a “história está a repetir-se”, com uma sequência de “ memorandos 1, 2 e [agora] 3”.
 

Votação causa manifestação violenta em Atenas


                    
                              Confrontos entre a polícia e manifestantes em Atenas (Foto: Reuters)

O acordo passou no parlamento, mas não sem causar, indiretamente, uma das mais violentas manifestações dos últimos dois anos.

A manifestação com cerca de 12.500 pessoas foi pacífica até à chegada à praça Syntagma, em frente ao parlamento, onde um grupo se envolveu em confrontos com a polícia.
 
Estes manifestantes mais violentos arremessaram pedras e cocktais molotov à polícia de intervenção, que respondeu com gás lacrimogénio para os dispersar. Em minutos a praça foi evacuada e pelo menos 50 pessoas acabaram detidas.
 
O jornalista da TVI, José Carlos Araújo, e o repórter de imagem, Nuno Quá, também foram apanhados no meio dos confrontos, e foram atingidos com gás lacrimogéneo.

                  
                                                     Clique na imagem para ver o vídeo

Antes comuns, foi a primeira vez que um protesto tomou estas proporções desde que o governo do Syriza tomou posse em janeiro. A manifestação (pacífica) "anti-austeridade" tinha como objetivo influenciar a votação de hoje sobre o acordo com os credores europeus.

Um acordo em que Alexis Tsipras disse, numa entrevista ao canal do Estado, não acreditar, mas o qual está disposto a aplicar, porque isso significa que a Grécia se mantém na Zona Euro.

“Assumo as responsabilidades por todos os meus erros, assumo responsabilidade por um texto no qual não acredito, mas que assinei para evitar um desastre para o país, o colapso dos bancos”.


Tsipras disse que o governo travou “uma batalha” para evitar cortes nas pensões e salários. O primeiro-ministro disse que sempre achou que o referendo de há duas semanas fosse ajudar a Grécia a conseguir um acordo melhor, e que não esperava que os credores tomassem uma posição “vingativa” perante a consulta popular.

Do lado dos credores, agora que o acordo está aprovado, o Eurogrupo deverá, também, aprovar o empréstimo-ponte já esta quinta-feira, às 11:00.

Já o Fundo Monetário Internacional (FMI), num documento publicado na terça-feira, o FMI considerou a dívida grega “totalmente inviável” e assegurou que só poderia continuar a participar na assistência financeira à Grécia se os europeus tomassem vastas e profundas medidas de alívio. Christine lagarde, diretora do FMI, está confiante que os credores vão avançar para essa solução.


Também a Comissão Europeia (CE) tem “sérias preocupações” quanto à sustentabilidade da dívida, que era considerada sustentável até meados do ano passado. A CE admite que a dívida pode chegar aos 187% do PIB e atribui culpa, principalmente, à não implementação de reformas.