Negociações difíceis com o Eurogrupo e a expetativa de um acordo entre Bruxelas e Atenas dominaram os primeiros 100 dias do governo de Alexis Tsipras, o líder da esquerda radical grega no poder desde 25 de janeiro. E 100 dias depois, o acordo ainda está longe de ser alcançado.
 
A vitória eleitoral do partido Syriza, que concorreu às legislativas antecipadas com base num programa anti-austeridade, foi um reflexo da esperança e desespero num país sob intervenção da troika internacional desde 2010, em prolongada recessão, dívida pública descontrolada, taxa de desemprego em redor dos 27% e um terço da população no limiar da pobreza.


 
“O fim da troika e das políticas recessivas” foi provavelmente um anúncio extemporâneo por parte dos novos dirigentes gregos, quando o país tentava desesperadamente desbloquear 7,2 mil milhões de euros do segundo empréstimo internacional, a última parcela de um resgate total de 240 mil milhões de euros, quando o país não recebe qualquer empréstimo desde agosto.
 
O primeiro braço de ferro surgiu logo a 30 de janeiro durante a visita a Atenas de Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças holandês.
 
Dijsselbloem e o seu novo homólogo grego Yanis Varoufakis, protagonizaram uma tensa conferência de imprensa quando o ministro grego anunciou que o Governo “deixaria de negociar com a troika e apenas com os parceiros oficiais”. E Atenas passou a negociar com o “grupo de Bruxelas”.
 
Esta era uma das promessas eleitorais do Syriza, que em 25 de janeiro obteve 36,3% dos votos e elegeu 149 dos 300 deputados ao parlamento grego. Tsipras tinha sido empossado primeiro-ministro logo a 26, e dois dias depois o gabinete de coligação com os conservadores soberanistas dos Gregos Independentes (ANEL, anti-memorando) estava concluído.


 
Um dos objetivos prioritários do novo executivo de Atenas foi a aplicação de um programa “humanitário” para os gregos e o combate à evasão fiscal e corrupção, mas mantendo o país na zona euro e respeitando os compromissos financeiros com os credores.
 
Mas de imediato foi percetível que as relações com Bruxelas não seriam fáceis e teriam reflexos no Governo e no partido no poder, que começou a revelar algumas divergências internas.
 
O braço de ferro acentuou-se a 4 de fevereiro, quando o Banco Central Europeu (BCE) suspendeu o regime favorável concedido aos bancos gregos que lhes permitia pedir dinheiro emprestado com garantias inferiores às normalmente exigidas.
 
Esta medida suscitou novas reações na Grécia, incluindo inéditas manifestações de apoio ao governo que juntaram dezenas de milhares de pessoas. Tsipras e o seu governo mantinham uma elevada taxa de popularidade, mas em aparente erosão devido ao bloqueio das negociações com os credores (União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional).
 
Os novos líderes gregos também censuraram as “crescentes pressões” do Eurogrupo destinadas a “comprometer” as suas promessas eleitorais, com inevitáveis repercussões a nível interno, enquanto Bruxelas exigia medidas concretas e o pagamento da dívida às instituições nos prazos fixados.

Os dirigentes gregos apontavam para um plano de reformas e de reestruturação da dívida que entraria em vigor em setembro, precedido de um “acordo-ponte” ou ajuda financeira de emergência, para permitir ao país enfrentar necessidades imediatas.
 
Entretanto, o executivo solucionava o impasse em torno da eleição do novo Presidente grego pelo parlamento – na origem das eleições antecipadas de janeiro – ao eleger para o cargo o ex-ministro conservador das Finanças, Prokopis Pavlopoulos, e aprovava algumas medidas de caráter social.

O “acordo mínimo” anunciado a 20 de fevereiro que assegurava o financiamento do país até ao final de junho, data que assinala o fim do “memorando”, fracassou. Mas as sondagens continuavam a indicar que a maioria da população pretendia mais um compromisso que uma rutura com a UE.


 
As duas partes acusaram-se mutuamente pelo impasse nas discussões técnicas. As alusões a um incumprimento, mesmo a um Grexit (saída da Grécia do euro) aumentavam, enquanto o Governo central recorria às autarquias para garantir novos fundos e os bancos continuavam dependentes de um financiamento de urgência do BCE.
 
Em paralelo, o Governo de Tsipras repetia as “linhas vermelhas” que tinha fixado na negociação: reforma do mercado de trabalho, diminuição das pensões de reforma, as modalidades das privatizações e o aumento do IVA.
 
O crescente isolamento do ministro das Finanças grego entre os seus parceiros europeus, confirmada na reunião de Riga do Eurogrupo, levou Atenas a optar por remodelar na segunda-feira a equipa negocial para garantir uma melhor comunicação com Bruxelas.
 
A “despromoção” de Varoufakis foi sentida como uma vitória pela “linha dura” do Eurogrupo, liderada pela Alemanha. No entanto, o novo coordenador nas conversações com os europeus, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Euclid Tsakalotos, é um destacado membro do partido da esquerda radical.
 
O que pode significar que ainda haverá muito por discutir entre Atenas e Bruxelas para um acordo “mutuamente benéfico”, num difícil exercício de equilíbrio de uma liderança grega confrontada com as exigências internacionais e as amplas expetativas da população que a elegeu.