A cimeira do G20 realiza-se este sábado e domingo, em Brisbane, na Austrália. Os membros do G2O vão reunir-se no Centro de Congressos e Exposições da cidade.


Quem vai?

Nesta «foto de família» da cimeira de 2012, as duas primeiras filas são preenchidas pelos membros do G20, sendo que a União Europeia foi representada pelo então presidente da Comissão, Durão Barroso, e o presidente do Conselho, Herman Van Rompuy. Atrás, ficam os convidados, também eles com muito peso, como a OCDE, o Banco Mundial, o FMI, a Organização Mundial do Comércio, a ONU e países como Espanha e Colômbia, entre outros.

Desta vez, será Jean-Claude Juncker a acompanhar Rompuy. Entre os que não vão, destaque para a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que permanece hospitalizada devido a uma infeção. O país da América do Sul será representado pelo ministro da Economia, Axel Kicillof.

Segundo a organização, são ainda esperados cerca de quatro mil delegados e três mil jornalistas.

O que vão discutir?


O G20 é uma entidade sobretudo económica, com um peso inegável: os países membros representam dois terços da população mundial, 85% do PIB e três quartos do comércio mundial.

Não surpreende, então, que a maioria das conversas vá incidir sobre reformas económicas, promoção do crescimento, livre comércio e cooperação económica. Antes da cimeira, e como em qualquer outra, a intenção é tentar um acordo entre os membros que reforce a sua posição.

Relativamente ao crescimento económico, pode alcançar-se um acordo para medidas que o possam impulsionar em dois por cento acima do esperado nos próximos cinco anos. «Todos os membros do G20 vão detalhar as suas estratégias para o crescimento na cimeira. Não será apenas conversa. Esta é uma cimeira económica, por isso vai centrar-se no que pode ser feito para criar emprego, identificar fraudes fiscais e melhorar a economia mundial», avisou o primeiro-ministro australiano.

No entanto, depois de ter assumido as rédeas do combate à crise internacional em 2008 e do pior supostamente já ter passado, o G20 debate-se agora com a realidade prática das suas metas. Os especialistas temem que, em Brisbane, não se alcance nenhum acordo com impacto e que cada membro esteja mais preocupado com os seus interesses do que com uma estratégia global.

A Austrália, como membro anfitrião e organizador, está a assumir um papel-chave na agenda da cimeira: por um lado, quer colocar no topo das prioridades o combate à fraude e evasão fiscais; por outro, quer evitar um acordo sobre o clima.

O primeiro-ministro australiano, Tony Abbott, pretende que o G20 incentive a cooperação de forma a evitar que as grandes empresas fujam aos impostos através dos paraísos fiscais.  

«É do interesse de todos, não sobrecarregar as empresas com impostos, mas que elas efetivamente paguem impostos na jurisdição onde fazem dinheiro», afirmou.

A imprensa australiana tem dado muito destaque a este ponto, desde que revelou que, só na Austrália, a IKEA obteve lucros de cerca de mil milhões de dólares na última década, mas declarou apenas 100 milhões ao sistema fiscal australiano. O resto foi parar ao Luxemburgo e à Holanda. O que Tony Abbott pretendia, neste caso, é que estes países fornecessem informações ao governo australiano, que cobraria os impostos devidos.

Já em relação ao clima, Tony Abbott não está muito interessado num acordo. Os Estados Unidos e vários países europeus pretendem que os líderes do G20 ajudem nas contribuições para o Fundo Verde para o Clima da ONU, que quer ajudar os países mais pobres a melhorarem a proteção do ambiente.

O primeiro-ministro australiano não quer contribuir para este fundo e já reforçou que espera que a cimeira de Brisbane se foque apenas em matérias económicas.
 

À margem


Talvez até mais importantes do que a própria cimeira são os encontros à margem que o encontro de tantos líderes mundiais permite. Em Brisbane não haverá representantes, telefonemas ou outras barreiras: eles vão ter de sentar-se à mesma mesa para conversar.

Por exemplo, só a presidente brasileira, Dilma Rousseff, tem encontros marcados com Barack Obama, Vladimir Putin, Angela Merkel e Xi Jinping. A conversa com o presidente norte-americano é muito aguardada no Brasil, devido ao escândalo de espionagem que abalou a confiança entre os dois países.

Barack Obama e Vladimir Putin são, naturalmente, os principais protagonistas desta cimeira, devido à tensão crescente entre os EUA e a Rússia, sobretudo graças ao conflito na Ucrânia. Segundo a Casa Branca, não há nenhuma reunião agendada, o que não significa que não falem informalmente, tal como já aconteceu na cimeira Ásia-Pacífico esta semana.

«Em três ocasiões ao longo do dia, por um total de aproximadamente 15 a 20 minutos, o presidente Obama teve oportunidade de falar com o presidente Putin», disse a porta-voz da Casa Branca, Bernadette Meehan, acrescentando que as conversas incidiram sobre o Irão, a Síria e a Ucrânia. O Kremlin confirmou esta informação, mas não deu mais pormenores.

Outras fontes de Washington informaram que Obama prepara um «discurso político muito importante sobre a liderança dos EUA na Ásia e no Pacífico».

A Austrália também espera concretizar um acordo de livre comércio com a China, que está a ser negociado há já 10 anos. As empresas australianas podem passar a investir nesta forte economia, em setores que estão ainda vedados a capital estrangeiro. A visita do presidente chinês, Xi Jinping, vai certamente acelerar o processo.

O desastre do voo MH17 promete tornar-se também um dos assuntos mais sensíveis desta cimeira. Recorde-se que 298 pessoas morreram neste acidente na Ucrânia, sendo que 38 eram australianas.

O primeiro-ministro da Austrália foi sempre muito duro nas palavras contra a Rússia, garantindo que tinha provas concretas de que o aparelho foi abatido por rebeldes pró-russos, com o apoio de Moscovo.

Na cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico, realizada esta semana, Tony Abbott esteve reunido com Vladimir Putin durante 15 minutos, tendo-lhe exigido um pedido de desculpas e o pagamento de indemnizações às famílias das vítimas. Em Brisbane, o tema promete voltar a trazer polémica.
 

Segurança

 









 

 

As pressões


Antes de uma cimeira, várias organizações e personalidades tomam posições que influenciam as discussões. A Organização Mundial do Comércio já apelou aos membros do G20 que retirem ou diminuam as 962 medidas que foram tomadas devido à crise de 2008 e que ainda restringem o comércio mundial, como quotas sobre produtos ou subsídios a produtores nacionais.

Já o Conselho de Estabilidade Financeira propôs que os 30 maiores bancos do mundo (os chamados too big to fail, «demasiado grandes para falir») sejam obrigados a reforçar os seus capitais e, assim, evitar que, numa situação de bancarrota, não sejam os contribuintes a pagar. Essa «almofada» deveria ser entre 16 a 20% do peso dos ativos de risco desses bancos. Se for aprovada, esta proposta pode custar cerca de 3% dos lucros a estes bancos.

Noutro âmbito, o Papa Francisco enviou uma carta a Tony Abbott a apelar aos líderes do G20 que sejam «exemplos de generosidade» com os refugiados e que tomem medidas pelo clima, de prevenção do terrorismo e dos abusos do sistema financeiro. «Por todo o mundo, incluindo nos países do G20, há demasiadas pessoas que sofrem de malnutrição, há um aumento no número de desempregados, há uma percentagem extremamente alta de jovens sem emprego e um aumento da exclusão social que pode levar a atividades criminosas e mesmo ao recrutamento de terroristas», diz a carta.
 

Quanto custa?


 


Curiosidades


Um dos maiores símbolos da Austrália não vai faltar à cimeira. Vários koalas foram treinados especialmente para cumprimentar os líderes do G20 e prometem ficar bem na fotografia.





No aeroporto de Brisbane, foram instalados vários «centros de selfie», onde os curiosos vão poder tirar uma selfie com os líderes mundiais. Ao longe, claro.

Há ainda objetos curiosos na lista de proibições na zona limitada pela polícia, como brinquedos ou ovos.

A imprensa australiana também tem dado conta dos preços dos hotéis onde vão ficar instalados os líderes mundiais. Obama, por exemplo, vai pagar cerca de 1700 euros por noite só pelo seu quarto.

Mais de 400 pessoas enfiaram as cabeças na areia, numa praia na Austrália, como forma de protesto contra a postura do país sobre as alterações climáticas.