A porta-voz de Angela Merkel disse esta sexta-feira que a proposta de extensão apresentada pelo governo grego é um «bom sinal», mas não ainda o suficiente, segundo avança a Reuters. O governo alemão vem assim, a poucas horas de mais uma reunião do Eurogrupo, aligeirar o braço-de-ferro com a Grécia depois de ontem  Schäuble ter extremado as posições. Antes do sinal do governo alemão, Tsipras falou com Merkel por telefone. 
 

«A carta do ministro das finanças grego torna claro que a Grécia continua interessada no apoio da União Europeia», afirmou Christiane Wirtz.

 
Na declaração feita a poucas horas da reunião do Eurogrupo, a porta-voz defendeu ainda que o documento grego providencia uma base para negociações futuras, mas não é o suficiente na sua forma atual.
 
Na quinta-feira, o governo grego apresentou um pedido de extensão do empréstimo da zona euro, como tinha sido exigido pelo Eurogrupo, no entanto, o ministro das Finanças alemão rejeitou a proposta alegando que não continha numa «solução substancial». A posição de Schäuble não terá sido acompanhada por todos os membros do governo alemão.
 
Na conferência de imprensa desta manhã, a porta-voz esclareceu que «o governo alemão está unido» e elogiou o ministro das Finanças por fazer um «trabalho excelente nesta crise e nas negociações com a Grécia».
 
Ainda assim, a Alemanha acabou por mandar um sinal positivo para as negociações desta tarde.
 

«Esta carta é um bom sinal que nos permite continuar a negociar», disse, acrescentando que os ministros das Finanças vão continuar a trabalhar nesta «base» e que a Alemnha «espera que isso conduza a um acordo com a Grécia».

 
Antes, já Alexis Tsipras tinha revelado no Twitter que na noite de quinta-feira fez alguns telefonemas de última hora para conseguir apoio para um acordo com o Eurogrupo, que não implique uma cedência completa da Grécia. O primeiro-ministro conversou com François Hollande e Angela Merkel. 

Na conversa com o presidente francês, Tsipras revela que Hollande quer «sinceramente» uma «solução benéfica mútua».  Já sobre a conversa com Angela Merkel, o primeiro-ministro grego revela apenas que o telefonema decorre «num no tom positivo». 

A Comissão Europeia acredita que é possível que o Eurogrupo chegue a um acordo sobre a Grécia «num futuro previsível», se todas as partes forem razoáveis, disse esta sexta-feira o porta-voz do executivo comunitário, Margiritis Schinas. 

«Estamos confiantes de que é possível chegar a um acordo num futuro previsível, se todos forem razoáveis, mas ainda não chegámos a esse ponto», disse, na conferência de imprensa diária da Comissão Europeia. 


Já o primeiro-ministro grego vai mais longe e sublinha que está seguro de que o pedido de extensão do empréstimo por seis meses, realizado formalmente na quinta-feira, será aceite pelos credores europeus, apesar das objeções de Berlim e pede uma decisão política histórica. 

«A Grécia fez tudo o possível para que possamos chegar a uma solução que beneficie as duas partes, baseada no princípio de um respeito duplo: respeito pelas regras da UE e pelos resultados eleitorais dos Estados-membros», defendeu Alexis Tsipras, num depoimento enviado à Reuters. 

«Estou seguro de que o pedido grego de uma extensão do empréstimo por seis meses com os condicionamentos que a acompanham irá ser aceite. Este é o momento para uma decisão política histórica para o futuro da Europa», disse. 

O «cavalo de Tróia»

Um documento interno do Ministério das Finanças alemão, hoje citado pela comunicação social alemã revela que  governo alemão vê a proposta que a Grécia apresentou ao Eurogrupo como um «cavalo de Troia», ou seja, «algo atraente por fora e perigoso por dentro».
 
De acordo com o jornal Süddeutsche Zeitung, os especialistas do Ministério das Finanças consideram que a carta do ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, como uma «obra-prima de ambiguidade», no qual são aponta todas as exigências feitas pelo Eurogrupo, para depois as relativizar.

O mesmo jornal diário cita uma frase do ministro, segundo a qual, «Atenas reconhece as suas obrigações financeiras com todos os credores e está disposta a cooperar com os parceiros para evitar problemas técnicos na implementação do seu próprio programa de resgate».

No entanto, para Berlim esta passagem, em que o compromisso de Atenas se limita a questões «financeiras e processuais», faz com que «o alegado pedido de prorrogação do programa seja um mero pedido de prolongamento de crédito», deixando de lado as reformas acordadas no memorando de entendimento.

Além disso, de acordo com o ministério, «a carta é ambígua», mesmo na frase em que Varoufakis reconhece as obrigações gregas.

O verbo usado pelo ministro Varoufakis é «honrar», o que se pode traduzir como «pagar», «respeitar», «aceitar» ou «reconhecer», aponta Berlim.

Os especialistas do Ministério das Finanças alemão encontraram ainda «uma ambiguidade perigosa» na expressão de Varoufakis para declarar a intenção do governo grego de «avançar em direção a uma conclusão bem sucedida do programa», considerando que a mesma não indica que Atenas tem a intenção de implementar o programa.

O ministério considera também «menos comprometedor» o uso pelos gregos do termo «supervisão», em vez de controlo, quando se referem ao papel que podem desempenhar o Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia (instituições da troika).

A reunião do Eurogrupo estava marcada para as 14:00 (hora de Lisboa), mas foi adiada para as 15:30.