A China advertiu, nesta terça-feira, os Estados Unidos que a via militar na Síria "não levará a lugar algum”, depois de o presidente norte-americano ter prometido uma decisão nas próximas horas sobre uma resposta militar ao alegado ataque químico em Douma.

O acordo político é a única saída. Os meios militares não nos levarão a lugar algum”, disse um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang, numa conferência de imprensa em Pequim.

Depois de Donald Trump ter advertido na segunda-feira que não exclui a possibilidade de uma intervenção militar na Síria após o alegado ataque químico no sábado, na zona de Ghouta oriental, nos arredores de Damasco, as fileiras do governo sírio mobilizaram-se ante um possível ataque, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

A Rússia, aliada do regime de Bashar al-Assad e que tem negado as acusações de um ataque químico contra civis, advertiu, por seu turno, Washington das “graves consequências” de uma ação militar.

Perante esta troca de ameaças e acusações, Pequim pediu que se aguarde o resultado de uma investigação “exaustiva e imparcial, baseada em métodos científicos e provas sólidas que determine que se tratou de um ataque químico”.

A Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) anunciou na segunda-feira que investiga informações sobre um alegado ataque químico à cidade de Douma, a última bolsa rebelde na região de Ghouta oriental, que causou no sábado 48 mortos, segundo os “Capacetes Brancos”, uma organização dedicada ao resgate de vítimas das zonas sob controlo dos rebeldes.

Os “Capacetes Brancos” e a organização Sociedade Médica Síria-Americana atribuíram no domingo a responsabilidade pelo ataque às forças leais ao Presidente Bashar al-Assad.

Geng Shuang já tinha considerado na segunda-feira que o Conselho de Segurança da ONU e a OPAQ deviam ser “os principais canais” para acompanhar o caso.

Rússia acusa Washington de recusar encarar a realidade

A Rússia acusou hoje os Estados Unidos e os seus aliados de "se recusarem a encarar a realidade" sobre o alegado ataque químico atribuído ao regime sírio.

"Vejam a postura não-construtiva adotada por alguns países, incluindo os Estados Unidos. Eles recusam-se a encarar a realidade", denunciou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, acrescentando que "ninguém entre eles fala da necessidade de se realizar uma investigação imparcial".

Criar atalhos e emitir vereditos sem qualquer investigação é uma antiga tradição” dos ocidentais, afirmou, acrescentando que se a ameaça de uma forte reação de Washington "reduz certamente o espaço de manobras para os esforços diplomáticos, isso não significa que o lado russo pretenda parar de trabalhar ativamente na esfera diplomática".

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Mikhail Bogdanov, disse que a situação “é séria" e acusou Washington de espalhar "informações falsas para encontrar um pretexto" para uma ação militar.

Pedimos aos ocidentais que abandonem a retórica de guerra", disse na ONU o embaixador russo Vassili Nebenzia, na segunda-feira à noite.

Vassili Nebenzia alertou para "graves consequências" no caso de uma ação armada ocidental e lembrou que, de acordo com Moscovo, "não houve ataque químico” em Douma.

O espetro de uma resposta militar também foi revivido na segunda-feira, após o disparo de mísseis contra a base militar T-4, do regime sírio, no centro da Síria.

Entretanto, Israel foi acusado por Damasco e os seus aliados russos e iranianos de autoria deste ataque, que matou 14 pessoas.

França admite "ripostar"

A França admite “ripostar” contra a Síria caso se confirme a utilização de armas químicas pelo regime de Damasco, disse hoje o porta-voz do governo de Paris.

“A linha vermelha pode ser alcançada” na Síria disse o porta-voz do Executivo francês acrescentando que as informações ao dispor do chefe de Estado francês Emmanuel Macron e do homólogo Donald Trump.

O presidente da república sublinhou que, se as responsabilidades forem estabelecidas as linhas vermelhas serão alcançadas e darão lugar a uma resposta. O presidente da república e o presidente dos Estados Unidos trocaram informações que confirmam, à priori, a utilização de armas químicas”, disse ainda Benjamin Griveaux à estação Europe 1.

Apesar das advertências da “comunidade internacional”, o regime sírio é acusado de ter utilizado armas químicas no bombardeamento contra Duma, a maior cidade de Ghouta oriental, nos arredores de Damasco.

Turquia diz que autores de ataque vão “pagar caro”

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, condenou hoje o alegado ataque com armas químicas e afirmou que os seus autores vão “pagar caro”.

Amaldiçoo quem cometeu esse massacre, seja quem for. Quem o cometeu vai inevitavelmente pagar caro”, disse Erdogan num discurso em Ancara.

O governante já tinha manifestado a sua preocupação com o ataque numa conversa mantida na segunda-feira com Vladimir Putin, principal aliado do regime de Bashar al-Assad.

Estamos a desenvolver iniciativas. Ontem [segunda-feira] falei ao telefone com Putin e vou continuar, hoje e amanhã [quarta-feira], em contactos semelhantes”, indicou.

Erdogan não apontou responsáveis pelo ataque, contrariamente a dirigentes ocidentais, que acusam o regime sírio.

No domingo, no entanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia declarou suspeitar “fortemente” do regime sírio.

A Turquia apoia a oposição ao regime de Assad, mas coopera com a Rússia e tem como prioridade combater as milícias curdas do norte da Síria.