‘Too soon’ para decretar, sequer, o início do fim da presidência Trump.

Mas a passado dia 21 de agosto terá sido um dos piores dias do atual mandato presidencial. “O dia mais negro da presidência americana enquanto instituição desde a queda de Richard Nixon”, sentenciou Jonathan Allen, na NBC. “Dois antigos sócios do Presidente foram a julgamento no mesmo dia. Ambos dados como culpados por múltiplas irregularidades e crimes. O que aconteceu para ‘drenarem o pântano’?, questionou Allen, pleno de ironia ácida.

Richard Wolffe, no “Guardian”, decretou: “Chegou a hora de Trump prestar contas. E foi mais longe: “O Presidente corre perigo real de cair nas malhas da justiça. A partir de agora, é concebível um cenário que leva a que Trump tenha que resignar”.

É o momento mais arriscado da presidência Trump, embora seja demasiado cedo para se decretar, sequer, o início do fim desta bizarra administração. Nunca devemos subestimar o ‘efeito Teflon’ de que Trump quase sempre beneficia.

Das recentes decisões judiciais, que afetaram duas antigas figuras muito próximas de Trump (Manafort foi seu diretor de campanha, Cohen foi seu principal advogado durante dez anos) surge, pelo menos, uma ideia forte: a Russia Collusion é para avançar e nunca chegou tão próximo de Donald Trump.

Se Paul Manafort, diretor de campanha do candidato Trump em 2016, saísse ilibado de todos os crimes, podia ter sido ‘game over’.

Mas confirmou-se o pior cenário para Trump: Manafort foi condenado por fraude bancária e fiscal, sendo “culpado” de oito das 18 acusações. As restantes 10 terão veredicto depois de setembro.

Quer dizer: a “Russia Collusion” terá o seu pico judicial em plena campanha para as “midterms”.

Mistura explosiva para Trump? Ainda é cedo para saber. No mesmo dia, Michael Cohen, que defendera Trump até há poucos meses, fez acordo com a Justiça potencialmente comprometedor para o seu antigo constituinte e atual inquilino da Casa Branca.

Cohen reconheceu pagamentos a Stormy Daniels (actriz de filmes porno) e Karen McDougal (ex-modelo da Playboy) a troco do silêncio das duas sobre casos tidos com o atual Presidente dos EUA.

Muito significativa a reação de Donald: defendeu Manafort e disse que “é um dia triste para a justiça americana” e atirou-se a Cohen, como faz com toda a gente que o critique ou acuse: “Um conselho a quem procura um advogado: não contratem Michael Cohen”.

A diferença nas reações é fácil de desmontar: Manafort nunca se desmanchou em tribunal, até agora, pelo menos, mantendo imune o posicionamento de Trump em relação ao financiamento russo nas eleições ucranianas; já Michael Cohen passou a contar à Justiça o que sabe em relação ao que pode comprometer Donald.

A “Russia Collusion” passou, a 21 de agosto, uma etapa decisiva e pode estar a entrar numa fase em que as condenações judiciais têm consistência para entrarem na esfera política, sobretudo quando estamos em “countdown” para as eleições para o Congresso.

O sistema de “checks and balances” que define a singularidade americana terá, nas próximas semanas e meses, a sua prova de fogo.

Tempestade perfeita?

Há quem, do lado democrata, aponte todas as baterias numa “tempestade perfeita” para Trump, entre o agravar das acusações da Russia Collusion e uma eventual derrota política a toda a linha para o Presidente e para os republicanos em novembro próximo, caso das duas câmaras do Congresso passem a estar sob controlo dos democratas (a Câmara dos Representantes vai toda a jogo, sendo que nesta altura os republicanos têm vantagem de 237-191; o Senado terá um terço da sua composição a votos, estando o atual cenário de 51 republicanos, 47 democratas e 2 independentes que, geralmente, votam com os democratas).

As sondagens dão vantagem aos democratas na ordem dos 48-40, mas as eleições para o Congresso são de muito difícil previsão, devido à originalidade com que os distritos eleitorais estão divididos na América. A atual distribuição tende a favorecer eleitoralmente os republicanos (“gerrymandering”), pelo que a diferença de oito pontos pode não ser assim tão favorável aos democratas. Há que explicar, ainda, que no caso da câmara alta, dos 33 lugares que vão a jogo, 24 são ocupados atualmente pelos democratas, outro dado que pode dificultar a tarefa do partido de Obama e Hillary de tentar roubar aos republicanos o controlo do Senado.

As tendências das primárias dos dois partidos nos candidatos para o Congresso reforçam a perda dos moderados e o reforço dos extremos tanto do lado de democrata (fação Bernie Sanders em alta) como no campo republicano (candidatos apoiados por Trump a prevalecer).

E o Presidente continua a mostrar-se hábil na guerra da persuasão: agora abriu frente de batalha ao Google, ao Facebook e ao Twitter (tudo instrumentos que ele próprio usa), queixando-se de que mudam os algoritmos para o prejudicar – o problema é que milhões de americanos acreditam mesmo nisso.

Mesmo assim, Trump tem dado sinais, nos últimos dias, de ter noção de estar a passar pelo momento mais arriscado da sua presidência. Ele, que reage sempre com violência contra quem o ataca, hesita em atacar Mueller.

Treme mas talvez não seja ainda desta que irá cair – a sua capacidade de sair incólume chega a ser impressionante, mesmo quando já são cinco os elementos que lhe foram muito próximos e que já caíram com estrondo por força de investigações judiciais: Paul Manafort, Michael Cohen, o general Mike Flynn (que mentiu ao vice-presidente Mike Pence sobre os contatos tidos com o então embaixador russo, Sergey Kislyak), George Papadopoulos (que mentiu ao FBI sobre as ligações a representantes do Kremlin) e Rick Gates (que mentiu ao FBI sobre ligações a lobiies pró-russos na Ucrânia).

Isto não é bem um Presidente dos EUA.