Num longo discurso, de quase uma hora e meia, Donald Trump estreou-se na tradicional e anual alocução do Estado da União, dedicando grande parte das suas referências ao momento interno do país, numa leitura positiva que o próprio faz da sua atuação ao cabo de um ano na Casa Branca.

Fora de referência ficou a Rússia e as suspeitas de envolvimento do Moscovo no apoio à sua eleição. Russos e chineses só foram evocados para considerar os dos países como adversários no comércio mundial.

Na mira de Trump estiveram, sim, os palestinianos e outros povos de maioria muçulmana - "reconheci Jerusalém como capital de Israel", além da referência a um pedido ao Congresso para que o dinheiro dado a outros países “vá apenas para os amigos da América e não para os inimigos” - além de Cuba e Venezuela, mas acima de todos, a Coreia do Norte.

As concessões só dão lugar a agressões e provocações. Não vou repetir os erros das administrações passadas que nos levaram a esta posição muito perigosa. Só precisamos de olhar par ao caráter depravado do líder norte-coreano para perceber os perigos da ameaça nuclear para a América e para os seus aliados”, afirmou Trump, que quer, por isso, "modernizar e reconstruir o nosso arsenal nuclear, esperando nunca ter de o usar, mas mantê-lo tão forte e poderoso que impeça quaisquer atos de agressão".

Ao seu estilo, Trump completou a ideia frisando que "talvez, uma dia, haverá um momento mágico em que os países do mundo se vão juntar e vão eliminar as suas armas nucleares. Infelizmente, ainda não chegámos lá”.

"Manter aberta Guantanamo"

Como esperado, Donald Trump referiu-se também à coligação liderada pelos Estados Unidos que opera no Médio Oriente.

No ano passado, prometi que iria trabalhar com os nossos aliados para extinguir o Estado Islâmico da face da terra. Um ano depois, é com orgulho que digo que a coligação para derrotar o Estado Islâmico libertou quase 100% do território que esses assassinos tiveram no Iraque e na Síria. Mas ainda há muito trabalho pela frente. Vamos continuar a lugar até o Estado Islâmico ser derrotado”, frisou o presidente.

Antes de sair da Casa Branca a caminho do Capitólio, soube-se que Trump assinara um decreto para manter aberta a cadeia de Guantanamo que os Estados Unidos mantêm na base militar localizada na ilha de Cuba, que o antecessor Barack Obama prometeu fechar. E a decisão foi comunicada a quem assistiu ao seu primero discurso do Estado da União.

Assinei uma ordem para o secretário Mattis, parav reexaminar a nossa política de detenção militar e manter aberta a prisão na baía de Guantanamo", referiu Trump, considerando ser um local para encaminhar prisioneiros os suspeitos do Estado Islâmico que venham a ser capturados.

"Imigração baseada no mérito"

De fora para dentro, a imigração, que se tornou num braço de ferro entre republicanos e democratas no Congresso, chegando a causar o congelamento orçamental de diversos serviços durante três dias - o Shutdown - mereceu a esperada referência de Trump, que lançou um apelo ao entendimento: "Vamos pôr política de lado e fazer o trabalho necessário".

Até ao dia 8 de fevereiro, o Congresso - Senado e Câmara dos Representantes - terá de aprovar o orçamento e, para tal, ultrapassar as divergências sobre a política de imigração, em especial no que respeita aos que entraram nos Estados Unidos quando eram crianças de forma ilegal.

Elencando um plano em "quatro pilares", Donald Trump referiu prever que 1,8 milhões desses imigrantes ilegais, levados para os Estados Unidos pelos seus pais possam conseguir a nacionalidade norte-americana no prazo de 12 anos.

A construção do célebre muro na fronteira com o México, o fim dos vistos atribuídos num sistema de lotaria e a criação de restrições ao número de familiares que podem juntar-se a um imigrante são os três outros pilares da política de Trump para quem quer entrar no país.

Vamos avançar com sistema de imigração baseado no mérito", sustentou o presidente.

Esta noite, estendo a mão para trabalhar com membros dos dois partidos - Democratas e Republicanos - para proteger os nossos cidadãos de cada sítio, cor, religião e credo".

"Novo Momento Americano"

Ao jeito de "espelho meu", Trump dedicou a maior parte do discurso a elogiar a sua atuação na Casa Branca, em especial a nível económico.

Juntos, estamos a construir uma América segura, forte e orgulhosa. Desde as eleições, criamos 2,4 milhões de empregos, incluindo 200 mil em fábricas. É tremendo. E depois de anos e anos de estagnação de salários, finalmente eles estão a subir. Os pedidos de subsídio de desemprego estão num mínimo histórico de 45 anos. E há algo de que me orgulho muito: o desemprego entre afro-americanos está no valor mais baixo de sempre. E o desemprego entre hispânicos também está num dos níveis mais baixos de sempre da História”, sustentou o presidente norte-americano.

No Capitólio, frente a Republicanos e Democratas, cujas deputadas trajaram de negro em protesto contra os abusos sexuais que têm vindo a lume nos Estados Unidos, Trump aproveitou ainda para pedir a ambas as bancadas que aprovem, "pelo menos 1,5 mil milhões de dólares” para investir em infraestruturas no país.

Este é o Novo Momento Americano. Nunca houve uma altura tão boa para começar a viver o sonho americano. A cada cidadão americano a assistir em casa, independentemente de onde estiveram e de onde vêm, esta é a vossa altura. Se trabalharem no duro, se acreditarem em vocês, se acreditarem na América, então podem sonhar com tudo, podem ser tudo", apregoou Trump.