"As pessoas pensam que Trump é estúpido, mas ele não é nada estúpido. Pelo contrário. Há cinco anos ele ainda falava a linguagem típica da um investidor de Wall Street, com formação académica. Agora fala a linguagem de quem nem completou a educação básica. É assim que ele consegue que alguém num bar, ouvindo vagamente a televisão, exclame: 'Olha, aquilo sou eu a falar'"

TIMOTHY GARTON ASH, historiador e professor em Oxford

 

Nesta estranha corrida presidencial norte-americana, a semana que hoje começa promete ser das mais desconcertantes.
 
Donald Trump, o mesmo que durante meses andou a insultar e injuriar os principais candidatos à nomeação republicana, vai mesmo ser confirmado como… candidato nomeado pelo Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos.
 
Só na América? Talvez.
 
Mas num ano particularmente assustador nas tendências que tem mostrado na política internacional (Brexit a vencer no Reino Unido; Marine Le Pen a ameaçar liderar a corrida presidencial de 2017 em França; terrorismo islâmico a aumentar na sua ameaça em solo europeu; Turquia em golpe e contra-golpe de Erdogan ainda por explicar), todos os cenários devem ser equacionados.
 
A nomeação presidencial de Donald Trump abalou por completo os pilares do Partido Republicano.
 
O velho Grand Old Party, referencial de Lincoln, Teddy Roosevelt, Reagan ou Bush pai, foi durante décadas o farol de valores como a coesão, o respeito pela diferença e uma crença de que, nos EUA, há lugar para todos.
 
Os dislates que o Tea Party foi propagando nos últimos anos já estavam a alterar essa perceção.
 
Mas o sucesso de Donald Trump anunciou um «novo normal» preocupante para a Direita americana.
 
Os republicanos, em 2016, abdicaram de candidatos do sistema. Puseram para trás referenciais conservadores, anti-impostos e até religiosos.
 
Com Trump, prevaleceu uma via populista, autoritária, demagógica, que vai ao sabor do vento e em nada se preocupa com a coerência nas propostas e até nos discursos feitos no passado recente.
 
E isso terá efeitos tão significativos para a política americana, mesmo que Trump não ganhe a eleição geral em novembro, que ainda não se consegue avaliar bem a dimensão do fenómeno.
 
Trump é "muito à direita"?
 
Nalgumas coisas parece, na forma como fala, em tons desrespeitosos e depreciativos, das minorias – essas mesmo, que ao longo de décadas, fizeram da América um espaço de Liberdade, multiplicidade e diferença.
 
Mas noutras não será assim tanto: quem viu os (infindáveis) debates das primárias, ainda com dezena e meia de candidatos, percebeu que Donald era (talvez só a par do governador do Ohio, John Kasich) dos poucos que advogava a progressividade fiscal, contrastando assim com o «mantra» que vigorou nos republicanos, nos últimos anos, de serem contra qualquer subida de impostos.
 
A questão é que o que Donald disse há meio ano ou há nove meses já não interessa grande coisa.
 
Ele desdisse quase tudo o que chegou a lançar nas primárias – e também já recuperou algumas das ideias que havia retirado.
 
A coerência não faz parte dos trunfos da bizarra candidatura presidencial republicana de 2016.
 
Trump tem outras apostas: a crítica acérrima ao establishment e aos "políticos que têm falhado as obrigações de Washington".
 
A forma como o multimilionário justificou a escolha de Mike Pence, 57 anos, governador do Indiana, para seu vice-presidente diz tudo sobre esse foco:  "Tenho de ser sincero, uma das razões mais importantes por que escolhi Mike foi a unidade do partido. Muita gente falou da unidade do partido. Eu sou um 'outsider' e quero ser um 'outsider', porque acho que foi uma das razões por que ganhei por larga margem".
 
É esta a grande contradição do processo de escolha do Partido Republicano para as presidenciais de 2016: o que fez Donald Trump ganhar é o mesmo que expõe os problemas do GOP.
 
Como resolver esta quadratura do círculo?
 
A Convenção de Cleveland, Ohio, que arranca esta segunda-feira e se prolonga até quinta, pode desvendar alguns destes mistérios.
 
Será possível vermos Trump a…dormir finalmente com os seus queridos inimigos?
 
Não se prevê fácil a vida de Donald nos próximos dias.
 
Mitt Romney, candidato presidencial republicano em 2012, continua a dizer que não vai apoiar Trump.
 
John McCain, escolhido em 2008, já foi muito crítico de Donald (sobretudo depois de Trump ter sido incrivelmente deselegante com ele, ao dizer que não gosta de "falhados" e quem sofre ferimentos numa guerra «é um falhado), acabou por admitir que apoiará Donald, mas apenas porque "seria disparatado não perceber qual foi a escolha popular" e porque "os sucessos de Trump e Sanders nas primárias dão conta de uma distância preocupante entre os eleitores e os congressistas e senadores e temos que perceber esses sinais".
 
Mas os únicos presidentes republicanos vivos, Bush pai (1989-1993) e Bush filho (2001-2009), seguem a via de Romney e também se recusam a votar em Trump.
 
Para já, pelo menos, só um antigo nomeado presidencial republicano declarou apoio público inequívoco a Trump: Bob Dole, que perdeu de forma clara, em 1996, para o então Presidente Bill Clinton.
 
É pouco. Muito pouco, mesmo, tendo em conta que Dole há muitos anos que deixou de contar verdadeiramente no grande palco da política americana.
 
Mas, lá está, há um efeito perverso nesta análise.
 
O sucesso de Donald nas primárias, como o próprio gosta de propagandear, foi ter-se descolado completamente das figuras habituais do Partido Republicano.
 
Valerá esta ideia na eleição geral? Correrá Trump o risco de perder parte do eleitorado republicano para Hillary?
 
Por enquanto, as sondagens dão uma distribuição relativamente clássica: cerca de quatro em cinco eleitores democratas vai votar em Hillary; perto de três em quatro republicanos acabarão por votar em Donald.
 
Há dois fatores que podem ajudar a definir a questão para novembro.
 
Se Bernie Sanders, que depois de semanas de hesitações, finalmente fez um claro endorsment a Hillary (com a candidata ao lado), conseguir disciplinar o seu desalinhado eleitorado para o campo de Clinton (evitando tentações anti-sistema que poderiam beneficiar Trump) e se Hillary conseguir segurar a «maioria Obama de 2012», feita de coligações de quatro segmentos nos quais Trump continua a ter muitas dificuldades em penetrar (jovens, mulheres, negros e hispânicos), então aí a tendência para 8 de novembro pode virar-se claramente a favor da futura nomeada democrata.
 
Esse fluxo, diga-se, ainda não se verificou por completo: Hillary mantém-se à frente nas sondagens nacionais, mas com um intervalo de 4 a 7 pontos – não completamente esclarecedor, portanto.
 
E na batalha por estados, há alguns sinais em territórios decisivos, como o Ohio, a Florida e a Pensilvânia, que apontam para um quase empate.
 
Faltam 113 DIAS para as eleições presidenciais nos EUA. 


* jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»