O pós primeiro debate confirmou salto de Hillary e recuo de Trump, mas ainda com uma diferença não definitiva.

A um mês e dois dias da grande eleição, tudo permanece em aberto, mas é relativamente seguro afirmar que, neste ponto, Hillary Clinton está na frente e seria eleita, caso as votações (que em alguns estados, aliás, já começaram), fossem hoje.

A candidata democrata somou pontos com a boa prestação no duelo da Universidade Hofstra e ganhou entre 4 a 7 pontos de vantagem nas sondagens nacionais, recuperando a liderança no Ohio, na Florida, no Colorado e no Nevada, estados decisivos para as contas do mapa eleitoral.

Mas num mês ainda muito pode acontecer. E a vantagem de Hillary, sendo relevante, não é suficiente para que se fale em questão fechada.

O segundo debate, nesta dinâmica, mostra-se de enorme importância – sobretudo para Donald Trump.

Posto em xeque até por setores republicanos, pela forma como não se preparou para o primeiro debate, Trump promete, no segundo, jogar ainda mais ao ataque e ameaça atirar com as questões das infidelidades de Bill Clinton.

Não é certo que este tipo de truques venham a colher junto dos eleitores indecisos (que no primeiro debate preferiram largamente o registo de boa preparação de Hillary Clinton).

Nos  últimos dias, o campo democrata conseguiu rentabilizar politicamente o tema dos impostos não pagos pelo multimilionário Donald – sobretudo depois de investigação publicada no New York Times, que referia que Trump não pagou impostos durante quase duas décadas, graças ao expediente de declarar prejuízos.

A resposta de Trump à acusação de Hillary de que o republicano não pagava impostos federais (“utilizei a lei, fui esperto”) será popular no meio empresarial, mas… será que colhe junto do eleitorado conservador, que preza os princípios éticos? Será um posicionamento aceitável para um Presidente dos EUA, que ao contrário de um promotor imobiliário, deve olhar para o bem comum e não apenas para o lucro das suas empresas?

Este tipo de dúvidas estará, também, a assaltar a estratégia de Trump para o segundo debate (madrugada de domingo para segunda, de 9 para 10 de outubro, em St. Louis, Missouri, em formato ‘town hall meeting’, com perguntas da assistência e dos moderadores, Anderson Cooper, CNN, e Rachel Maddatz, ABC).

O desempenho do seu número dois, o governador do Indiana, Mike Pence, no debate dos vices, terá aumentado estas interrogações.

Considerado vencedor desse debate, Pence surgiu como uma espécie de antítese de Trump: sereno, ponderado, informado, preparado, a contrapor com o estilo demasiado agressivo, e sempre a interromper, de Tim Kaine, o seu oponente democrata.

Se é certo que o debate dos vices nunca decidiu eleição alguma, a questão está lançada no seio republicano: não deveria Donald seguir o exemplo do seu vice?

Durante e depois do debate, nas redes sociais e nos media americanos, foram vários os comentários de figuras da Direita americana, em jeito de desabafo, referindo que Pence, finalmente, mostrava um posicionamento conservador e dentro dos valores republicanos nesta eleição geral. Para grande parte dessa Direita, Trump não os representa devidamente.

Donald, bem ao seu estilo, começou por dar a volta ao tema, dizendo que “Mike esteve bem no debate, fez um grande trabalho, e eu tenho crédito nisso, porque foi a minha primeira escolha”.

Mas o dilema não se resolve com mais uma das tiradas de Trump.

A questão é mais complicada para o candidato republicano, sobretudo porque boa parte do seu eleitorado terá visto em Pence alguém que se inscreve bem mais nos valores republicanos.

E há, também, o problema das divergências: o que Pence disse no debate dos ‘vices’ sobre a Rússia (críticas fortes a Putin) e a Síria em nada corresponde ao que Trump tem dito. Em que ficamos?