O Partido Republicano, pelo menos da forma como o conhecíamos, morreu.
 
Dito assim, parece excessivo e despropositado.
 
Afinal de contas, os republicanos dominam, neste momento, as duas câmaras do Congresso (têm maioria na House desde 2010 e passaram também a controlar o Senado em 2014), têm a maioria dos governos de estados e mantêm algumas hipóteses de sonhar com a Casa Branca, já no próximo mês de novembro.
 
Mas quem assista ao espetáculo degradante que tem sido a coroação de Donald Trump como nomeado presidencial na Convenção de Cleveland, Ohio, percebe a dimensão simbólica da frase com que este texto começa.
 
Quem ainda valoriza uma certa ideia tradicional do que era o «Grand Old Party», partido de Lincoln e Reagan, por certo se indigna com o que se tem passado, por estes dias, no palco da Quicken Loan Arena.

É difícil antever o que virá a seguir a Trump - mas por muito que a discussão interna seja redentora, torna-se complicado antecipar um cenário animador.
 
Sem primeiras linhas a apoiá-lo (Bush pai, Bush filho, Mitt Romney, John McCain, Jeb Bush, ninguém se prestou ao papel de aparecer ao lado do excêntrico multimilionário; mesmo Paul Ryan só está lá porque é o anfitrião do partido, mas está a fazê-lo com traços de quem está contrariado), Donald Trump tem-se divertido a fazer o que gosta mais: ficar com o palco todo, tornando a Convenção Republicana -- momento que devia ser de união e exaltação de todo um partido com correntes diversas, em torno do máximo denominador comum – numa cena deprimente em estilo ‘ditador soft’, versão populista e egocêntrica que em nada se inscreve na tradição diversa dos grandes partidos na América.
 
E isso já está a refletir-se na (fraca) qualidade política dos discursos desta convenção.
 
Melania, candidata a Primeira Dama, protagonizou a primeira «bronca» do certame do Ohio.
 
Num sinal de puro amadorismo da equipa que apoia os Trump (certamente sem o aval do «staff» mais profissionalizado do partido), a mulher de Donald leu, no arranque da Convenção, um discurso que continha excertos que plagiavam, de forma descarada, a intervenção de Michelle Obama na Convenção Democrata de 2008.
 
Erro incrível para um grau de exposição mediática desta dimensão.
 
Outra polémica teve a ver com a música escolhida por Donald para exaltar as suas entradas em palco: os Queen recusam-se a autorizar que o «We Are The Champions» seja associado a este momento degradante da alta política americana.
 
Estes sinais de total descolagem entre os Trump e «establishment» terão, obviamente, consequências terríveis para o «Grande Old Party».
 
O problema já começou na escolha do número dois. 

Ninguém do «establishment» aceitaria entrar num «ticket» liderado por Trump e, assim, Donald terá que se contentar com um cinzento Mike Pence, demasiado colado à ala Tea Party (mas que, pelo menos, oferece algum interesse eleitoral, por ser governador do estado Indiana).
 
Trump garante que não se importa com o «divórcio» com a elite republicana – afinal de contas, o seu sucesso nas primárias viveu da crítica a quase todos os elementos que a compõem.
 
A estratégia de Donald parece ser falar diretamente às bases, mostrando que ele, sim, soube interpretar o profundo descontentamento sentido, nos últimos anos, por boa parte do eleitorado americano em relação ao «business as usual» de Washington – não só na política, mas também no mundo empresarial.
 
A nomeação de Trump – já confirmada esta madrugada – é o triunfo de um «pós-Tea Party», de características autoritárias e populista, misto de carisma pessoal com aproveitamento da exposição mediática.
 
Mas é mais do que isso: é uma bofetada gigantesca no «establishment», uma espécie de grito coletivo de «you’re fired!» a políticos como Jeb Bush, Chris Christie ou Marco Rubio.
 
Aguarda-se com alguma expetativa o discurso de aceitação de Trump. 

O tom conciliatório de Melania, e relativamente tradicional de Mike Pence, podem servir apenas de ‘canto de sereia’: não se prevê, de forma alguma, que Donald Trump tente contrariar a sua natureza.
 
2016, do lado republicano, será recordado como o ano da raiva e do ressentimento.

O ambiente pesado, super tenso, por vezes a roçar a violência, que tem dominado os comícios de Trump e até esta Convenção Republicana de Cleveland, dá conta do profundo mal-estar que se instalou nos espíritos e nas mentes da Direita americana.

O centro político está esvaziado (alguns nomes equacionam, secretamente, votar em Hillary, outros recusam-se, em público, a apoiar Trump).

A direita religiosa (que perdeu estas primárias a toda a linha, perante o fracasso de candidatos como Mike Huckabee, Rick Santorum ou Rick Perry) tentou até à última evitar Trump, colocando as fichas todas em Ted Cruz (um 'outsider' na própria bancada republicana no Senado).

Mas não deu para travar o desastre: Trump sentou-se no espaço evangélico (do qual era completamente alheio até há poucos meses) e assumiu todas as credenciais de um partido que, de modo algum, deveria ser o seu.

É muito mais do que uma divisão política: trata-se de um terramoto que fez fragmentar qualquer tese de união do velho conservadorismo americano.
 
Tem tudo para acabar mal.
 
*jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»