A aceleração das investigações da “Russia Collusion” está, em grande parte, sustentada no pedido do procurador especial Robert Mueller a uma agência governamental em junho passado, no sentido de que esta preservasse documentos relacionados com o período de transição de Donald Trump para a presidência dos EUA.

Os últimos dados conhecidos (sobretudo os que Steve Bannon denunciou no livro “Fire and Fury” de Michael Wolff e que afetam o círculo mais próximo do Presidente) referem-se à altura que medeia entre a eleição e a tomada de posse.

Mueller, experimentado e independente investigador, apresentou a 22 de junho (um mês depois de ter sido nomeado para dirigir as “Russia Probes”) um pedido formal à General Services Administration (GSA), a agência que superintende as transições presidenciais, no sentido de ter acesso a documentação que considerou poder vir a ser muito relevante para a investigação que estava a iniciar.

Quando Robert Mueller foi nomeado, ainda se vivia um clima de choque em Washington, pela forma destemperada como o Presidente não se coibiu em despedir Jim Comey do FBI.

Num ato de inteligência e perspetiva vasta do que poderia estar em causa, Mueller, discretamente, e logo para arranque de um trabalho minucioso e complexo, percebeu que teria que alargar o âmbito das suas investigações ao período de transição – e não cingir apenas a questão à campanha e ao período final do duelo Trump/Hillary.

Não era só a parte da interferência russa com ao bots e as fake news difundidas pelo Facebook e pelo Twitter.

Tinha mesmo a ver com uma intromissão nos momentos cruciais da liturgia política e das instituições cruciais para o sistema americano, menos blindado do que muitos imaginavam a interferências de potências rivais.

As relações entre o FBI, o GSA, a Casa Branca de Trump, a equipa de transição de Trump e a equipa de campanha do candidato Trump estarão, neste preciso momento, sob análise minuciosa da equipa do procurador Mueller.

Talvez por isso, Donald Trump dá sinais de querer antecipar-se a uma eventual intimação de Mueller para depor e estará a negociar, através de representantes legais, a melhor forma de poder testemunhar nas Russia Probes.

Os advogados do Presidente, receando que Donald não tenha exatamente o perfil de quem se saia bem na pele de uma testemunha a ter que responder sob juramento, estarão ainda na fase de tentar impedir Mueller de conseguir obrigar o Presidente dos EUA a ficar nessa condição de testemunha.

Mas Trump terá a preferência de enfrentar Mueller cara a cara, mesmo que tenha que ser "under oath".

Do que daqui vier a sair, muito dependerá o futuro da Presidência Trump e muito se saberá sobre o real estado de saúde da democracia americana. Espera-se o melhor mas, infelizmente, teme-se o pior.

 

Vai mesmo chegar ao Presidente?

 

Robert Mueller quer ouvir Donald Trump nas investigações sobre a Russia Collusion para ter do Presidente dos EUA as respostas a estas três perguntas:

  1. despediu o seu Conselheiro de Segurança Nacional, o general Mike Flynn, em fevereiro de 2017, ao fim de apenas 23 dias na função, para se proteger das possíveis investigações sobre a interferência russa na eleição de 2016?
  2.  demitiu o diretor do FBI, James Comey, em maio de 2017, por este não ter acatado a sua pressão de não avançar com as investigações sobre a mesma interferência russa e possível envolvimento de pessoas da candidatura presidencial de Trump?
  3. tentou despedir Jeff Sessions, procurador-geral da sua própria administração, por este não ter acatado a sua indicação de bloquear os trabalhos desta investigação? 

(ndr: Trump acabou por manter Sessions porque os líderes republicanos do Congresso o avisaram que não nomeariam um novo procurador-geral em menos de seis meses)

Nas últimas semanas, Mueller emitiu um "subpoena" (intimação) para que Steve Bannon testemunhasse sobre o que revelou no livro de Michael Wolff.

Inquiriu pessoalmente Jeff Sessions, sobre a situação reportada na pergunta 3 e falou pessoalmente com James Comey sobre a situação da pergunta 2 -- o ex-diretor do FBI mostrou-lhe, de acordo com o «Guardian», memos que relatam o estado de "nervosismo e perda de controlo" que o Donald Trump revelou quando Comey lhe disse 'não' à "sugestão" do Presidente para que o FBI "largasse as investigações sobre a Rússia".

Robert Mueller estará a construir o caso de uma suposta "obstrução à justiça" do Presidente dos EUA. E, por isso, uma audição de Trump acabará por ser um ponto essencial deste processo -- seja ela pessoal ou apenas por escrito.

Há indicações que apontam para que até ao fim do verão haja avanços importantes da Comissão Mueller -- e nos meses seguintes haverá as eleições intercalares para o Congresso.

Robert Reich, secretário do Comércio na Administração Clinton e apoiante de Bernie Sanders nas primárias democratas de 2016, elencou assim o problema: «Se Trump despediu os dois para se proteger das investigações sobre a Rússia, isso será um claro caso de obstrução à justiça, uma infração passível de impeachment».

 

“Nunes Memo”, novo dado para baralhar

 

A autorização de Donald Trump para a divulgação pública do “Devin Nunes Memo”, um relatório com material classificado, produzido pela maioria republicana no Congresso, e que apontará para falhas na conduta do FBI durante o processo eleitoral americano de 2016, é um novo dado que pode baralhar.

O próprio diretor do FBI, Chris Wray (já nomeado durante a Presidência Trump, depois de Donald ter despedido James Comey por este se ter recusado a deixar cair as investigações da Russia Collusion), declarou ter dúvidas sobre a revelação pública desse relatório.

Wray terá avisado o Presidente para a “caixa de Pandora” que estará a abrir caso autorize a divulgação do relatório. O documento – assinado pelo congressista republicano da Califórnia Devin Nunes, luso-descendente que lidera o Comité de Informação e Inteligência da Câmara dos Representantes -- aponta possíveis falhas do FBI, mas boa parte da comunidade de serviços de informação nos EUA considera que se trata de uma avaliação politicamente motivada, com o objetivo de distrair as atenções das Comissão Mueller e para conferir um trunfo enviesado ao Presidente e à atual administração republicana.

Porque é que Trump pretende a divulgação pública do “Nunes Memo”? Porque saberá que o FBI não terá hipótese de se defender das acusações de ter errado nas informações que levaram às suspeitas de “Russia Collusion”.

É uma espécie de “matrioska”: Trump e os republicanos no Congresso fazem “batota” ao tornarem público um relatório supostamente secreto, por conter informação altamente classificada; o FBI não pode responder na mesma moeda porque… para provar que agiu bem teria que revelar outros dados altamente classificados.

Este episódio mostra duas coisas perturbadoras: que Trump não olha a meios para ganhar a guerra que abriu aos serviços de informação (só comparável à que abriu ao ‘mainstream media’) e que o tema “Russia Collusion” e interferência russa nas eleições presidenciais é o assunto mais delicado e potencialmente explosivo da política americana durante a era Trump.

Que os republicanos no Congresso – que numa primeira fase pareciam dispostos a não ceder ao poder do Presidente neste tema – se mostrem cada vez mais alinhados com o estilo e os interesses de Trump neste assunto é ainda mais revelador de que, com o passar do tempo, o Partido Republicano tem vindo a render-se à “normalização do inaceitável”, sendo cada vez mais cúmplice do que pior representa esta bizarra era trumpiana.

Donald, que ainda há poucos dias não se coibiu em criticar de tal forma o número 2 do FBI que levou à demissão inevitável de Andrew McCabe (acusou-o de parcialidade política só porque a mulher é candidata ao Senado pelo Partido Democrata, em mais um sinal de intromissão presidencial na independência dos serviços de informação), agradece.

Isto não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

 

Sinais de alarme em território Trump

 

Enquanto isso, no plano mais político, e depois do triunfo histórico dos democratas na corrida à vaga no Senado pelo Alabama (muito ajudado, é certo pelo cariz inaceitável do candidato republicano, Roy Moore), ocorreu no início da semana um novo sinal de alarme para os interesses eleitorais republicanos durante esta bizarra era Trump.

No Missouri, estado profundamente conservador, a disputa por um lugar na Câmara dos Representantes em representação do distrito 97, onde Donald arrebatou a eleição presidencial de novembro de 2016 por enormes 28 pontos (61% para apenas 33% de Hillary), foi ganha pelo candidato democrata. Mike Revis surpreendeu ao bater o opositor republicano, David Linton, por 52-48.

É sempre perigoso extrapolar, na política americana, eleições pontuais em estados para tendências gerais, mas o que se pode afirmar com segurança é que todos os resultados eleitorais ocorridos nos EUA depois da eleição presidencial de novembro de 2016 sinalizam penalização de Trump e dos republicanos e hipóteses novas para os democratas.

Em novembro vão a jogo todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes e ainda um terço do Senado (33).

As sondagens dão boas vantagens aos democratas, mas convém lembrar a grande vantagem republicana na House: 239 republicanos, 196 democratas.

No Senado, e depois do que aconteceu no Alabama, há quase um empate: 51 republicanos, 47 democratas+2 independentes com tendência de voto democrata (Angus King e Bernie Sanders).

Curiosamente, as análises, nesta fase, dão maior probabilidade a um controlo democrata na Câmara dos Representantes (algures entre os 70 a 80% de hipóteses), depois de novembro.

No Senado, apesar da diferença curta, entre os 33 lugares que vão a jogo (o posto de senador dura seis anos, pelo que de dois em dois anos há apenas um terço da composição da câmara em disputa), só oito são de republicanos. Vinte e cinco senadores democratas vão ter que defender o lugar.

Mesmo que todos ganham as respetivas reeleições, nos oito lugares republicanos os democratas têm que ir buscar pelo menos metade -- sendo que quatro deles não vão tentar a reeleição.

Para o Senado haverá, nesta altura, cerca de 25 a 30% de probabilidade de passagem, em novembro, de maioria republicana para maioria democrata. Mas sim, em nove meses muito ainda pode acontecer -- sobretudo quando, na Casa Branca, está alguém que não é bem um Presidente dos Estados Unidos.