É no país mais novo do mundo, o Sudão do Sul, que se vive um dos maiores pesadelos no que toca à situação dos Direitos Humanos. Sunday é um dos rostos desse pesadelo. Ela, que usa sempre a mesma roupa, contou ao El Mundo, por que não pode sair de uma base das Nações Unidas no país, nem sequer para ir ao mercado.

“Não posso comprar roupa porque o mercado está na cidade. O nosso dinheiro não vale nada. Se vamos violam-nos.”

Mãe de duas crianças, Sunday diz que as mulheres só saem do recinto quando precisam de lenha para cozinhar. Quando o fazem, o cenário é de horror.

“Só saímos para ir buscar lenha para cozinhar. Dentro da base não há. Eles esperam-nos lá fora. Batem-nos, humilham-nos, prendem-nos durante dias para se divertirem connosco. Algumas chegam a ser mortas. Nenhuma mulher o diz, mas, por aí fora, já fomos todas violadas.

“Eles” são os soldados do governo do Sudão do Sul. Um relatório de março da ONU denunciou uma prática chocante: o governo permite que os seus soldados violem as mulheres como uma forma de pagamento.

“Trata-se de uma das situações mais espantosas do mundo em relação aos Direitos Humanos, que usa a violação como um instrumento de terror e uma arma de guerra”, lê-se no relatório.

O mesmo documento apresenta vários relatos de crimes de guerra. Os contornos cruéis impressionam até quem está habituado a este tipo de cenários. Pessoas, incluindo crianças e deficientes físicos, que são executadas, queimadas vivas, asfixiadas, degoladas. Segundo a UNICEF, muitos rapazes são castrados e os seus corpos deixados em poças de sangue. As raparigas são violadas, muitas vezes por grupos de soldados, antes de serem mortas.

Antes, um relatório da União Africana, divulgado em outubro de 2015, tinha apresentado relatos de canibalismo forçado.

 

A base militar da ONU, designada Centro de Proteção de Civs, fica a alguns quilómetros de Malakal, a segunda maior cidade do país. A reportagem do El Mundo dá conta das condições degradantes em que vivem as cerca de 52.000 pessoas que ali chegaram em menos de dois anos. 

“Não é um sítio para se ser mãe, mas é o único em que se pode estar”, diz Julia, uma das mulheres que vive no recinto.

Com quatro filhos, Julia tem muitas dificuldades em conseguir alimentar as suas crianças, que se encontram subnutridas.

Apesar de ser considerado um refúgio das atrocidades que são cometidas na cidade, a base da ONU não está inteiramente livre de perigo. Em fevereiro, um grupo de soldados atacou o recinto e abriu fogo sobre os civis. Os capacetes azuis só interviram três horas depois.  Pelo menos 20 pessoas morreram, incluindo quatro crianças e 50 ficaram feridas.

Com cerca de 12 milhões de habitantes, o Sudão do Sul tornou-se independente em relação ao Sudão em julho de 2011, depois de um referendo realizado nesse mesmo ano. O referendo foi estabelecido no acordo de paz que encerrou décadas de guerra civil.

As diferenças étnicas e religiosas estão na base desta separação: a população do sul, de maioria cristã ou animista, sentia-se discriminada pelo poder central, de Cartum, onde a maioria era de origem muçulmana e tentava impor a lei islâmica.

Mas aquele território, que se tornou no país mais novo do mundo, nem assim conheceu a paz. Desde dezembro de 2013 que vive em guerra civil.

O conflito opõe o presidente Salva Kirr, de etnia Dinka, e o vice-presidente Riek Machar, de etnia Neur. Este último é acusado de preparar um golpe de Estado. A guerra já fez mais de 2,2 milhões de deslocados.