"Quando uma presidente eleita é cassada sob a acusação de um crime que não cometeu, o nome que se dá a isso não é impeachment, é golpe." Dilma Rousseff reagiu ao início da tarde à aprovação da abertura do processo de impeachment pelo Senado, esta quinta-feira, considerando que se trata de uma "farsa jurídica". A Presidente do Brasil, agora afastada do governo, falou ao país, no Palácio do Planalto, prometendo lutar "com todos os instrumentos legais" contra aquilo que considera ser um "verdadeiro golpe", que "ameaça levar a democracia". "Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes", vincou.

Depois de ter sido notificada sobre a abertura do processo de destituição, Dilma dirigiu-se aos "54 milhões de brasileiros e brasileiras" que votaram em si para a presidência.

Afastada do cargo para o qual foi reeleita em 2014, a "presidenta" do Partido dos Trabalhadores mostrou-se indignada com a confirmação da abertura de um processo que considerou "injusto" e que põe em causa "a vontade soberana do povo brasileiro", "a Constituição" e as "conquistas das últimas décadas".

Para Dilma, trata-se da maior brutalidade que pode ser cometida contra um ser humano: a de o punir por um crime que não cometeu.

"Não cometi crime de responsabilidade, não tenho contas no exterior,  nunca recebi propinas, jamais compactuei com a corrupção. Esse é um processo frágil, juridicamente inconsistente e injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente. A maior das brutalidades que pode ser cometida contra um ser humano é puni-lo por um crime que não cometeu."

Perante dezenas de jornalistas e câmaras de televisão, Dilma admitiu que pode ter cometido "erros", mas nunca "crimes". Sobre as irregularidades fiscais que sustentam o impeachment, garante que são atos legais. "Tratam como crime um ato corriqueiro de gestão", defendeu.

"Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Estou a ser julgada injustamente por ter feito tudo o que a lei me autorizava a fazer. Foram atos legais, atos corretos, atos de governo, atos idênticos aos de presidentes que a mim antecederam. Não era crime na época deles e não é crime agora."

Afirmou que o seu governo tem sido alvo de uma "incessante sabotagem" e que este processo, que considera ser uma "farsa jurídica", deve-se ao facto de nunca ter acedido a chantagens.

"Desde que fui eleita, parte da oposição, inconformada, pediu a recontagem dos votos, depois passou a conspirar abertamente para o meu impeachment, mergulharam o país na instabilidade política com um único objetivo: tomar à força o que não conquistaram nas urnas."

Sublinhou que foi sempre uma "zeladora do Estado democrático e de Direito" e que o seu governo nunca exerceu nenhum "ato repressivo" contra opositores e manifestantes. E à luz deste enquadramento, apontou baterias ao futuro governo do Brasil, que será liderado pelo seu vice-presidente Michel Temer. Dilma alertou para os riscos que podem vir aí.

"O maior risco é ser dirigido por um governo dos sem voto, que não foi eleito pelo voto direto da população brasileira, que não tem legitimidade para propor e implementar soluções para os desafios do Brasil. Um governo que pode ser tentado a reprimir os que contra ele pensam, um governo que será a continuidade da crise política do nosso país."

Sem baixar os braços, Dilma prometeu usar "todos os instrumentos legais" para lutar contra o "golpe" e poder exercer o seu mandato até 2018. Recordou os tempos em que lutou contra a ditadura militar para dizer que confia na "capacidade de luta" do povo. Dilma apelou aos brasileiros que estão contra o processo para se "mobilizarem" e juntarem-se à sua luta. 

"A luta pela democracia não tem data para terminar, a luta contra o golpe é longa, pode ser vencida e nós vamos vencer. (..) O nosso povo sabe que a história é feita de luta e sempre vale a pena votar pela democracia. A democracia é o lado certo da história, jamais vou desistir de lutar."

O Senado brasileiro aprovou esta quinta-feira a abertura de um processo para a destituição de Dilma Rousseff. Com 78 senadores presentes, 55 votaram a favor e 22 contra. Renan Calheiros, o presidente do Senado, não votou. A decisão foi tomada após uma sessão que durou quase 21 horas.

Agora, será o vice-presidente, Michel Temer, a ficar à frente dos destinos do maior país da América Latina. Temer, do PMDB, deverá assumir o cargo de Presidente ainda esta quinta-feira.