Dilma Rousseff toma posse esta quinta-feira, para o segundo mandato. A cerimónia está a ser preparada ao milímetro. O protocolo do Palácio do Planalto realizou, no último domingo um ensaio do percurso que a presidente vai fazer na cerimónia.

   
Enquanto a presidente passava uns dias de férias na Base Naval de Aratu, na Bahia, militares e funcionários do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Ministério de Relações Exteriores passavam o guião da cerimónia a pente fino. Funcionárias fizeram o papel de Dilma no percurso e simularam a revista às tropas ou a subida ao púlpito para discursar.
 
Depois de tomar posse, Dilma Rousseff deve tirar mais uns dias para descansar e só deve regressar ao ativo a 05 de janeiro. A partir desse dia, já sabe que terá pela frente importantes desafios em áreas fulcrais como a Política, a Economia ou as Obras Públicas.
 

Distribuição de pastas 


O sistema político brasileiro, composto por 32 partidos, obriga a presidente eleita a aturadas negociações para evitar turbulências políticas e económicas e ter capacidade para fazer aprovar as medidas que prometeu durante a campanha eleitoral. É praticamente impossível um presidente eleito no Brasil sair do escrutínio com maioria parlamentar.


 
Em 2015, o Senado terá 28 partidos diferentes e o caminho é formar uma coligação pós-eleitoral e negociar o apoio de outros partidos em troca da distribuição de poder no Executivo. Analistas políticos não anteveem um grande problema nesta angariação de apoios.
 

«O presidente eleito tem muita força de atração, o que faz com que a própria oposição fique sem ação. (…) A capacidade de formar uma coligação é muito grande», considera o sociólogo e politólogo Sérgio Abranches, ouvido pelo G1.


Mas o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas, sublinha a importância do apoio político: «Uma coligação estável é fundamental para que se aprove o que o presidente quer e se bloqueie o que ele não quer. Caso não partilhe os ministérios, qualquer crise, escândalo de corrupção, crise económica, cenário internacional menos favorável, ele pode perder logo legitimidade dentro do Parlamento».
 

O escândalo Petrobras

 
A questão já ensombrou o trajeto de Dilma na campanha eleitoral e promete dar-lhe algumas dores de cabeça neste início de mandato. E também o apoio no Congresso é importante para este ponto: o jornal «Folha de S. Paulo» lembra que «a principal preocupação do Planalto é o avanço da Operação Lava Jato», que apura as denúncias de desvios na Petrobras.


 
Dilma e os partidos que suportaram a sua eleição vão querer evitar a todo o custo uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso, que aumentaria o desgaste da energética e do próprio Governo.
 
Dilma prefere, assim, manter o caso nas mãos da justiça e barrar a interferência política na investigação, que poderia fortalecer a oposição.
 

Desafios económicos

 
A agenda económica de Dilma Rousseff para o início deste segundo mandato está cheia de temas económicos delicados, entre eles o controlo da inflação e o ajuste nas contas públicas.
 
Outro desses temas será a nova fórmula de cálculo do salário mínimo, cujo reajuste, desde 2007, corresponde à inflação do ano anterior mais o crescimento do Produto Interno Bruto de dois anos antes. A equação foi oficializada em 2011 e vê a sua validade terminar em 2015.


 
Em 2016, já deverá ser outra a equação e esse é um dos desafios do novo Governo de Dilma. A atual fórmula divide economistas: uns consideram que trouxe ganhos sociais e aquecimento do mercado interno, mas há quem considere que tem forte impacto nas contas do Governo e rouba recursos a outras áreas essenciais, além de poder prejudicar o controlo de inflação.
 
O salário mínimo no Brasil é atualmente de 724 reais (cerca de 223 euros) e tem um aumento previsto para 2015 para 788 reais (242 euros).
 
No discurso de vitória, Dilma adotou um tom conciliador, comprometendo-se a trabalhar com adversários políticos e líderes empresariais para inaugurar uma nova era de crescimento econômico no Brasil.

«Vamos dar mais impulso à atividade econômica em todos os setores, em especial no setor industrial. (…) Quero a parceria de todos os segmentos, setores, áreas produtivas e financeiras, nessa tarefa que é responsabilidade de cada um de nós brasileiros e brasileiras», disse.


E ela sabe que precisa desse apoio. O défice nominal no Brasil tem crescido de forma significativa na administração Dilma. Em causa, maiores gastos públicos e benefícios fiscais a empresários para melhorar a economia, um resultado que não foi integralmente obtido.
 

Obras públicas

 
Neste segundo mandato, Dilma Rousseff tem como missão terminar três grandes obras públicas consideradas fundamentais para a economia brasileira.



A mais conhecida a nível internacional talvez seja a Barragem de Belo Monte, na Amazónia, que muita polémica tem causado por causa da resistência de comunidades ribeirinhas e indígenas do rio Xingu. Os problemas sociais e urbanos da cidade de Altamira, no Pará, podem também conduzir a atrasos nas obras e até a novas paralisações.



Outro dos projetos fundamentais é a transposição do Rio São Francisco (que consiste na deslocação de parte das águas do rio para zonas fortemente afetadas pela falta de água). O objetivo do projeto é levar água a 12 milhões de brasileiros no Nordeste. A obra, que teve graves problemas no início e viu adiado o arranque, com erros técnicos e de projeto deve estar concluída em dezembro de 2015.
 
A Ferrovia Norte-Sul é outro dos megaprojetos que Dilma terá pela frente neste segundo mandato. A via-férrea é de crucial importância para a promoção da integração nacional, já que vai ligar nove estados, e para a minimização de custos de transportes. Mais de 60% do projeto deve estar concluído em 2015, mas há quem considere que só construir não chega e que é preciso conceber um modelo de negócio atraente para a iniciativa privada, atraindo investidores para a exploração de troços da via por concessão pública.
 

Jogos Olímpicos 2016

 
O próximo ano será talvez o mais desafiante para Dilma Rousseff, muito por causa da organização dos Jogos Olímpicos de 2016 e da tentativa de evitar os erros e os resvalos financeiros cometidos com o Mundial de Futebol deste ano.



Num balanço realizado no início do mês de dezembro, o Tribunal de Contas da União apontou falhas na preparação para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. O TCU visou sobretudo o município do Rio de Janeiro e apontou falhas de transparência na execução dos projetos.