Marina Silva, a candidata que ficou em terceiro lugar nas eleições para a Presidência do Brasil, deixou a porta a aberta ao «diálogo» que pretende ter com os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves, os dois que disputam a segunda volta, a 26 de outubro.

Com 21 milhões de votos, Marina Silva começou por não se dar como derrotada, como seria, talvez, o discurso mais esperado. Durante a conferência de imprensa após serem conhecidos os eleitos da noite, Marina Silva avançou a ideia de poder vir a manifestar apoio a um dos candidatos à segunda volta eleitoral. Qual? Não esclareceu, mas depois dos «ataques» de Dilma Rousseff durante a campanha, a escolha até poderá recair no candidato do PSDB, Aécio Neves.

«Eu não estou aqui como derrotada, mas como alguém que continua de pé, por não abrir mão dos princípios para ganhar uma eleição». Depois, questionada diretamente pelos jornalistas, esclareceu que irão realizar-se reuniões com os partidos que fazem parte da coligação «Unidos pelo Brasil», composta pelo PHS, PRP, PPS, PPL, PSB e PSL. E que a seguir, de forma conjunta, vão decidir o que fazer.

Em 2009, eleição onde conquistou 19 milhões de votos, assumiu-se como neutra. Agora, o discurso é outro. Mas uma coisa é certa, quem aceitar os votos de «Unidos pelo Brasil», terá de aceitar também os seus pressupostos. «O segundo turno é uma eleição em um tempo mais curto. Mas o nosso programa continua sendo a base para qualquer diálogo», disse a senadora.

Apesar de ter derrapado para um terceiro lugar quando no princípio da semana era dada como segunda, ânimo não faltou à professora de História: «Eu não estou aqui como derrotada, mas como alguém que continua de pé, por não abrir mão dos princípios para ganhar uma eleição».

Num discurso onde não esqueceu Eduardo Campos, candidato do PSB que faleceu num «trágico acidente» e que acabou por lhe dar a oportunidade de ser ela a candidata em seu lugar, Marina Silva deixou muitas leituras nas entrelinhas do seu discurso: «Meu objetivo não era destruir Dilma ou Aécio, PT ou PSDB. Meu objetivo de vida é ajudar a construir o Brasil que queremos. […] A derrota ou a vitória só se mede na história. Os erros e acertos também. Existem momentos que você precisa esperar pela história».

Na conferência de imprensa, que decorreu numa sala repleta de apoiantes, Marina Silva surgiu de casaco branco por cima de um vestido estampado, e, sentando-se no meio deles, começou por agradecer a Deus. Como nas epístolas, o discurso exige reflexão: «É sempre bom a gente poder mudar. Mas existe aquela frase: “mude antes de ser mudado” […] Queríamos estar no segundo turno, trabalhamos para isso. Mas estamos no segundo turno de outra forma».

No início da sua conferência, Marina Silva começou por dizer que há precisamente um ano, a 5 de outubro de 2013, ela e Eduardo Campos tornaram pública a sua aliança com vista a um caminho de mudança político que teve eco nas manifestações de junho que levaram milhares à rua por causa do aumento do valor do bilhete dos transportes públicos.

«Uma boa parte da sociedade disse [nas manifestações de junho] que a política já não consegue mais representá-los». Além disso, outro fator para a aliança com o candidato que veio a falecer num acidente de helicóptero foi, seguindo Marina Silva, o compromisso de «não fazer oposição por oposição», de «manter as conquistas económicas do ponto de vista económico, social, ambiental, político e democrático».

Marina Silva transforma a derrota numa vitória, que dedica à memória de Eduardo Campos e à família deste, «seguindo o compromisso de nunca desistir do Brasil». Ora, se quer mudança é não quer desistir isso pode querer dizer que se inclinará mesmo para o apoio a Aécio Neves.