Com um bilhete só de ida para o Iraque nas mãos e com o coração frustrado após sete meses de intransigência da burocracia alemã, Ghazwan Abdulhasen Abdulla desistiu do sonho que tinha de ter uma vida melhor na Europa.

Com saudades de casa e ansioso por regressar a Basra, para a esposa e para os quatro filhos pequenos, Abdulla desistiu do estatuto de refugiado quando embarcou num voo lotado da Iraqi Airways que em cinco horas o levou, assim como a outros 150 refugiados desiludidos, do Aeroporto de Berlim-Tegel até Bagdad.

Ghazwan Abdulhasen Abdulla juntou os últimos 325 dólares que tinha (300 euros) para pagar o voo para o Iraque - uma pequena fração do dinheiro que tinha pago aos traficantes no Verão passado para chegar à Alemanha a pé, de autocarro ou de barco através da Turquia, Grécia, Balcãs e da Áustria.

Mas agora, depois de mais de 1,1 milhão de refugiados da Síria, do Iraque e do Afeganistão terem fugido para a Alemanha nos últimos 13 meses, um pequeno mas crescente número está a voltar para casa, escreve o correspondente na Alemanha do jornal Los Angeles Times.

De acordo com o repórter Erik Kirschbaum, as razões para os refugiados quererem voltar para casa são inúmeras, mas incluem centros de refugiados superlotados, burocracia exasperante, comida alemã desconhecida, falta de postos de trabalho e uma sensação de ressentimento por parte dos alemães que temem que o país esteja a ser invadido por muçulmanos.

Muitos refugiados revelam que estão felizes por trocar uma vida fria, insensível e solitária num dos países mais ricos da Europa pela violência, insegurança e pobreza no regresso a casa. Dizem que perceberam, um pouco tarde demais, que os traficantes lhes “venderam” um monte de mentiras sobre grandes casas, empregos bem remunerados e a vida de luxo que iriam encontrar na Alemanha.

"Eu queria viver em paz com a minha família tão longe da guerra quanto possível", disse Abdulla, de 37 anos, que trabalhou como motorista de pesados no Iraque. "Mas o que eu já vi na Europa não é o que eu sonhei. Não é o que [os traficantes] me disseram que seria.”

“A comida era terrível, tão repugnante que nem mesmo os animais deviam ser alimentados com ela. Fizeram-nos dormir em edifícios vazios frios e, quando alguém dizia que estava doente, eles simplesmente ignoravam-nos. Podíamos sentir em todos os lugares que os alemães olhavam para nós como vagabundos. Sinto falta da minha família e não posso esperar para chegar a casa”, afirmou.

Abdulla, como muitos outros refugiados, foi para a Alemanha por conta própria e a pensar que depois poderia levar a família. Mas o governo alemão, com receio de que o número de refugiados quadruplicasse se as famílias fossem reunidas, suspendeu temporariamente as regras em 2015 que permitiam aos refugiados mandar chamar os familiares.

Agora, pode demorar dois a cinco anos ou mais até que as famílias sejam autorizadas a ir para a Alemanha - uma espera intolerável que é um dos principais motivos por que centenas, talvez milhares, de refugiados por semana desistam da Alemanha, enquanto três mil continuam a chegar todos os dias.

A embaixada do Iraque em Berlim emitiu, nos últimos três meses, mais de 1500 documentos de viagem para refugiados iraquianos que desistiram da Alemanha.

(Foto de arquivo)