É muito mais fácil juntar-se ao grupo radical Estado Islâmico do que sair dele. Membros de uma comunidade escondida de desertores do grupo jihadista contaram aos repórteres do Buzzfeed News como foram atraídos para o extremismo - e a luta terrível para dele escaparem. A reportagem de Mike Giglio e Munzer al-Awad a partir da fronteira com a Síria dá a conhecer Okab, um jovem comandante de campo, veterano nas guerras do Estado Islâmico, que participou no massacre de membros da minoria etno-religiosa Yazidi, no norte do Iraque, ameaçada de extermínio pelo Estado Islâmico.

O massacre dos yazidis foi um ato de barbárie que provocou indignação em todo o mundo. Mais de três mil civis foram mortos, de acordo com um grupo proeminente de direitos Yazidi, e pelo menos cinco mil foram feitos reféns, muitos deles mulheres para serem usadas como escravas sexuais, naquilo a que os EUA chamaram genocídio.

Com o Estado Islâmico a “empurrar” os fugitivos yazidis em direção à montanha de Sinjar, EUA e aliados lançaram ataques aéreos contra os jihadistas. O massacre foi um grito de guerra também para o Estado Islâmico: uma propaganda da marca brutal do extremismo que o catapultou para as primeiras páginas dos jornais e lhe trouxe novos recrutas, enquanto ao mesmo tempo alimentou o fervor dos combatentes nas suas fileiras.

Residentes de Ninawa, no Iraque, de ascendência Yazidi fogem do EI ((REUTERS/Rodi Said)

Mas, para Okab, o massacre foi um golpe para a consciência que o resgatou do “feitiço” do Estado Islâmico. Okab ficou horrorizado. “Quem deu essa ordem?” perguntou ele aos combatentes jihadistas que estavam com ele. “Por que estão a fazer isso?” A resposta foi sempre a mesma: “Essas pessoas são infiéis”.

Okab percebeu então que iria abandonar o grupo e a ideia assustou-o. Okab temeu que alguém pudesse perceber que era disidente. Okab sabia que o Estado Islâmico reserva para os próprios militantes o tratamento mais severo quando são suspeitos de quererem desertar.

Okab correu de volta para a sua base na cidade iraquiana de Mosul. Depois atravessou para a Síria, seu país natal, e voltou para Raqqa, capital do Estado Islâmico no país, onde começou o processo longo e difícil de se separar do grupo com que se tinha comprometido para a vida.

Agora, Okab faz parte de uma comunidade escondida de desertores do Estado Islâmico espalhados pelo mundo - no Iraque e na Síria, em países vizinhos como a Turquia, e, nos casos de ex-combatentes estrangeiros, de volta a casa. Vivem na sombra, com medo de represálias do Estado Islâmico, por um lado e, por outro, com medo de serem presos, por causa da anterior ligação ao grupo terrorista. À medida que resgatam as próprias mentes do fanatismo, perguntam-se como puderam tomar parte em crimes tão terríveis.

"Talvez você ache que eles são pessoas más, porque se juntaram ao Estado Islâmico. Mas, para mim, eles são meus irmãos ", disse Okab aos jornalistas do Buzzfeed News, perto da fronteira no sul da Turquia, onde vive hoje. "Porque a mesma coisa que lhes aconteceu a eles também me aconteceu a mim”, acrescentou.

Raras entrevistas com seis desertores, bem como com dois homens que trabalham para ajudar outros a escapar, revelam as fissuras que se vão formando nas fileiras do Estado Islâmico. Todos pediram para falar sob anonimato para se protegerem, tanto do Estado Islâmico como de serem presos, e Okab pediu para usar a alcunha de quando era criança, que significa "águia", e que apenas os amigos de confiança conhecem.

Cada um falou de um estágio diferente de uma recuperação solitária. Um desistiu da guerra na esperança de começar de novo na Europa, enquanto outro ainda estava sob a influência dos apelos à violência do Estado Islâmico. Um menino de 13 anos, resgatado do Estado Islâmico pela família, manteve-se obcecado com a ideia de assassinar os chamados vizinhos infiéis e amigos.

Vídeo do EI mostra criança a degolar urso de peluche (Reprodução/Youtube)

De acordo com os jornalistas Mike Giglio e Munzer al-Awad, todas as histórias que ouviram remetem para uma pergunta persistente: Como é que o Estado Islâmico conseguiu atrair tantos homens e mulheres ao autoproclamado califado e mantê-los lá? Essas histórias mostram como a mente de uma pessoa pode ser atraída para o extremismo e como ela pode ser reconquistada. Elas também revelam os perigos que os membros do Estado Islâmico enfrentam ao sair – e o esforço que fazem para seguir em frente com as próprias vidas.

“Não consigo explicar esse sentimento, mas eles ensinam-nos que Deus está à nossa espera, e que devemos ir ter com ele. Então, vai e não tenhas medo da morte ", contou Okab. "E nós queríamos morrer. Porque quando morremos, todas as dificuldades desta vida acabam, e vamos começar de novo", referiu.

Quando alguém se junta ao Estado Islâmico é submetido a cursos de doutrinação que incutem um radicalismo inesperado na mente. O recruta vivia como um infiel, longe de Deus, mas agora aprendeu e, ao obedecer ao Estado Islâmico, está sempre perto de Deus. Pouco tempo depois desta doutrinação, o recruta já está a marchar ansiosamente em direção a uma morte violenta.

Tomada a decisão de desertar depois do massacre levado a cabo em Sinjar, Okab começou a hesitar. A Síria estava destruída e o tempo em que pertenceu ao Estado Islâmico tinha-o desacreditado aos olhos de muitas das pessoas que conhecia. Se eu sair, interrogava-se, o que farei?

Como comandante do Estado Islâmico, Okab tinha estatuto, uma arma, um carro, uma casa e um salário. Era um militante respeitado, mas se saísse, seria apenas mais um refugiado.

Outros desertores experimentaram confusão semelhante, dizem os jornalistas. Nenhum descreveu uma rutura clara com o Estado Islâmico, em vez disso todos recordaram uma viagem mental com ecos da mesma incerteza que em primeiro lugar os tinha conduzido ao grupo jihadista.

Um desertor de 27 anos, natural da província síria de Deir Ezzor, um reduto do Estado Islâmico, revelou que tinha pouca simpatia pelo grupo jihadista quando a ele se juntou, mas viu que tinha poucas alternativas, enquanto homem em idade de lutar, que vivia naquele território.

"Eu sabia que eles são criminosos", revelou."Mas é muito difícil viver a nossa vida na Síria, especialmente em áreas do Estado Islâmico, se não nos juntarmos a eles."

Os jihadistas deram-lhe uma casa, um carro, um salário mensal e até lhe pagaram o casamento.

Também ele se rendeu aos extremistas e, tal como Okab, viu-se no meio de um massacre. Assume que participou de assassinatos, mas recusa-se a revelar mais. A culpa, diz ele, levou-o a desertar, mas sente-se manchado pelos seus crimes. Fez planos para fugir para a Europa, mas cancelou-os depois de recear que outros refugiados o reconhecessem e alertassem a polícia. Desta forma, permanece no limbo, perto da fronteira da Turquia. "Há muitas pessoas que querem desertar", disse ele. "Mas como é que podem sobreviver?"

O Estado Islâmico proíbe os civis de fugirem dos ataques aéreos nas vilas e cidades que controla. O grupo jihadista mantém até os próprios militantes sob vigilância apertada. Não podem sair sem permissão das aéreas controladas pelo Estado Islâmico e os combatentes são muitas vezes isolados em campos militares. São também vigiados de perto pelo serviço de segurança interna e de inteligência do Estado Islâmico, o Amni, que atravessa o território e tem uma rede de informantes para lá dele.

Vários desertores admitiram ter medo do Estado Islâmico, que poderá matá-los onde quer que se escondam, até mesmo na Europa.

"As pessoas podem juntar-se ao Estado Islâmico, mas ninguém pode desertar," disse ao Buzzfeed News um sírio que trabalhava para o Amni antes de desertar em 2015.

Os estrangeiros, disse ele, enfrentam ainda mais dificuldades para deixar o Estado Islâmico, do que um habitante local como Okab. Falam pouco árabe e muitas vezes não conhecem o terreno. Os ocidentais, em particular, são espiados de forma intensiva.

"Eu sei que muitos deles, que estão em prisões do Estado Islâmico, querem sair", disse o homem. "Espiões vieram muitas vezes ter comigo a dizer que esta ou aquela pessoa quer desertar."

O sírio disse também que achou que muitos dos membros ocidentais do Estado Islâmico são particularmente ingénuos. Vieram para a Síria com uma visão idealizada do Estado Islâmico que desabou quando foram confrontados com a realidade, explicou.

Tentar deixar o Estado Islâmico pode ser tão arriscado como o perigo que se enfrenta num campo de batalha. Shiraz Maher, um investigador no Reino Unido que tem monitorado desertores do Estado Islâmico, fala regularmente com os pais dos militantes do grupo jihadista que dizem que os filhos ou filhas querem sair.

"Eu digo-lhes que essa é a coisa mais perigosa que ele ou ela vai fazer", afirmou Shiraz Maher ao Buzzfeed News. "É realmente mais seguro para eles ficar em Raqqa.", garantiu.

Numa noite fria, no sul da Turquia, Okab lutou contra as lágrimas para contar aos repórteres do Buzzfeed News como conseguiu fugir do Estado Islâmico. O desertor revelou que teve permissão do Estado Islâmico para viajar para a Turquia para receber tratamento médico para uma antiga ferida de guerra. Enquanto recuperava de uma cirurgia, recebeu um aviso de Raqqa de que o Estado Islâmico tinha descoberto a sua dissidência e que seria preso, caso voltasse. Okab ficou na Turquia.

Okab disse que aprendeu que não pode corrigir os seus erros e que está longe de ser um herói. Admitiu que considerou a hipótese de pedir perdão ao Estado Islâmico e regressar a Raqqa para viver como um civil, sem saber o que fazer consigo mesmo na Turquia. Esperava, disse ele, encontrar um caminho "para viver uma vida normal."

Okab mostrou-se desconfiado de qualquer relação de obediência ou credo, e é muito menos religioso do que nos seus tempos de universidade.

"O Islão são regras e os muçulmanos devem submeter-se a essas regras", disse ele. "Eu não quero submeter-me a ninguém. Eu quero ser livre”, rematou.