O Dalai Lama acusou esta terça-feira a China de ter morto «centenas de milhares de tibetanos» desde a invasão do Tibete no início dos anos 1950 e de ter feito deste país «um inferno sobre Terra», escreve a Lusa.

«Estes últimos 50 anos foram de sofrimento e de destruição para o território e o povo do Tibete», disse o chefe espiritual do budismo tibetano, num discurso desde o exílio em Dharamsala, no norte da Índia, por ocasião do 50º aniversário do levantamento falhado contra Pequim em Março de 1959.

«Depois de ocupado o Tibete, o governo comunista realizou uma série de campanhas de violência e de repressão (...) Os tibetanos viveram literalmente "um inferno sobre Terra"», acusou o Dalai Lama.

Dalai Lama, humano como nós

«Consequência imediata destas campanhas: a morte de centena de milhares de tibetanos», criticou o Dalai Lama, perante o templo budista de Dharamsala, onde está refugiado há 50 anos.

Para além disso, o Dalai Lama exigiu «uma autonomia legítima e significativa» para o Tibete face ao regime chinês e não a independência.

«Nós, os tibetanos, estamos à procura de uma autonomia legítima e significativa que nos permita viver no âmbito da República Popular da China», disse o chefe espiritual do budismo tibetano, num discurso desde o exílio de Dharamsala, no norte da Índia.

«Não tenho nenhuma dúvida: a justiça prevalecerá a propósito da causa tibetana», assegurou.

China quer «combater o separatismo»

O presidente chinês, Hu Jintao, considerou a situação no Tibete «basicamente estável», mas insistiu que as autoridades locais devem continuar a «combater o separatismo» e a «responder às necessidades imediatas da população».

«Devemos combater o separatismo e salvaguardar a unidade nacional para que o Tibete, agora basicamente estável, possa desfrutar de uma paz e estabilidade duradouras», disse Hu Jintao, numa intervenção na Assembleia Nacional Popular difundida na imprensa oficial.

Hu Jintao exortou o governo local a promover projectos económicos que «resultem numa melhoria directa do nível de vida e das condições de trabalho da população».

A declaração coincide com o 50º aniversário da frustrada rebelião contra a administração chinesa no Tibete, a 10 de Março de 1959, que levou ao exílio do Dalai Lama na vizinha Índia.

Tumultos em Lhasa fazem um ano

Há apenas um ano, a mesma efeméride ficou marcada por violentos tumultos em Lhasa, a capital do Tibete, e colocou o território no primeiro plano da agenda mediática internacional.

Um responsável do governo local disse segunda-feira que a policia «reforçou as patrulhas em algumas áreas, contra possíveis perturbações causadas pelos adeptos do Dalai Lama e de grupos ocidentais partidários da Independência do Tibete».

Segundo as autoridades chinesas, os tumultos de 14 de Março de 2008 em Lhasa causaram 18 mortos. O auto-denominado Governo Tibetano no Exílio, em Dharamsala, norte da Índia, diz que mais de 200 pessoas morreram durante a repressão desencadeada a seguir pelo governo chinês.

Situado na cordilheira dos Himalaias, o «Tecto do Mundo», o Tibete é um território cerca de 13 vezes maior que Portugal e com menos de três milhões de habitantes.

Trata-se de uma Região Autónoma da China (como o Xinjiang ou Ningxia, ambas de maioria muçulmana), mas há comunidades tibetanas noutras províncias do país, nomeadamente Qinghai (onde nasceu o Dalai Lama), Gansu, Sichuan e Yunnan.