A presidente da Comunidade de Madrid, o que equivale a um governo regional, demitiu-se esta quarta-feira do cargo. Na origem da demissão de Cristina Cifuentes, do Partido Popular (PP) no poder, está um vídeo divulgado pelo jornal digital espanhol Ok Diario. As imagens mostram a líder madrilena a ser levada para a sala dos serviços de segurança de um supermercado na capital espanhola, em 2011, suspeita de ter roubado dois cremes anti-idade, quando era vice-presidente da Assembleia de Madrid.

O vídeo publicado pela OK Diario mostra a atual presidente da Comunidade de Madrid a esvaziar, perante um segurança, uma bolsa que continha alguns produtos, e a contar uma quantidade de dinheiro. A então deputada regional nega ao segurança ter roubado os cremes e acaba por pagá-los. A polícia, alertada pelo estabelecimento, acaba por a libertar sem a levar para a esquadra.

“Este vídeo só obedece a uma situação de erro involuntário. Levei por engano e involuntariamente alguns produtos por 40 euros, eles disseram-mo à saída e paguei”, explicou hoje Cifuentes na conferência de imprensa em que anunciou a demissão. “Cometi erros pessoais, políticos, de todos os tipos, passei sinais vermelhos", disse, citada pelo El País, a presidente demissionária.

Mestrado polémico

Este escândalo soma-se a um outro relacionado com um mestrado em Direito Autonómico que Cristina Cifuentes fez em 2012 na Universidade Rei Juan Carlos, em Madrid, e cuja obtenção, rodeada de irregularidades, abriu uma crise na Universidade e uma investigação da Procuradoria da República.

A manchete do jornal digital El Diario, com base numa investigação exclusiva, explodiu como uma bomba no panorama político espanhol no dia 21 de março: “Cristina Cifuentes obteve o título de mestrado com notas falsificadas”, entre as quais a da tese.

A oposição reclamou a demissão, a líder madrilena desmentiu tudo e recusou demitir-se, mas acabou por renunciar ao mestrado universitário. A governante revelou a decisão no dia 17 de abril, através da rede social Twitter, e escreveu uma carta ao reitor da Universidade Rei Juan Carlos para pedir desculpa, mas recordou que cumpriu todo o processo burocrático que lhe foi pedido, assim como o estipulado na lei.

No centro de um escândalo que abala a política espanhola, a saída de Cristina Cifuentes do cargo de presidente da Comunidade de Madrid tornou-se agora inevitável com a divulgação do vídeo de roubo.

Suportei mais de 34-35 dias de uma exposição permanente, o que aconteceu hoje ultrapassa uma linha", disse Cifuentes aos jornalistas, insistindo que o suposto roubo foi um erro e um ato involuntário pelo qual foi alvo de tentativas de extorsão. “Não quero prejudicar a minha família, e é por isso que tomei a decisão, para que eles não continuem a sofrer esta provação, é a melhor coisa para o povo de Madrid e para o meu partido", defendeu.

"Dou um passo atrás para que a esquerda não governe", garantiu a presidente demissionária, na conferência de imprensa sem direito a perguntas. "A resistência das pessoas tem um limite e eu atingi o meu, vou com a cabeça erguida, com um sentimento amargo, mas muito satisfeita, acho que fizemos um bom trabalho", acrescentou.

Cristina Cifuentes estava a braços com uma moção de censura apresentada pelo PSOE com o apoio do Podemos, no caso da fraude na obtenção do mestrado. A moção de censura da esquerda tinha todas as hipóteses de ter sucesso, porque o partido Ciudadanos (centro-direita) anunciou que lhe retirava o apoio indispensável para que a direita governe nesta região, onde tinha uma minoria de 48 eleitos em 151.

A decisão de renunciar ao cargo, garantiu Cifuentes, já tinha sido tomada e planeava anunciá-la a 2 de maio. Mas o vídeo precipitou tudo, explicou.

A dirigente popular não adiantou, contudo, se também renuncia ao seu cargo no partido, em que era vista como possível sucessora do atual presidente do Governo de Espanha, Mariano Rajoy.

“Cifuentes fez o que tinha de fazer”

Ao tomar conhecimento da demissão da líder do governo regional de Madrid, o primeiro-ministro espanhol disse, esta quarta-feira de manhã, que Cristina Cifuentes "fez o que tinha de fazer" e a que "era obrigada nesta situação".

Ao chegar ao Congresso, onde hoje começa o debate do Orçamento Geral do Estado de 2018, Mariano Rajoy expressou confiança de que este tipo de situação "não volta a acontecer" e adiantou que o PP abre a partir de agora uma “nova etapa” na Comunidade de Madrid, sem adiantar mais detalhes.