Os guias das montanhas dos Alpes italianos alertam para a possibilidade de serem encontrados corpos de migrantes, que tentaram fazer a travessia entre Itália e França, depois da neve derreter. Segundo a CNN, para os guias, os corpos estarão escondidos pela neve e deverão começar a aparecer na primavera.  

Com o controlo mais apertado que tem sido feito na fronteira entre os dois países nos últimos anos, muitos migrantes viram-se obrigados a optar por outros caminhos. Um deles é precisamente pelos Alpes, numa perigosa caminhada de quase dois quilómetros montanha a cima.

De acordo com a CNN, todas as semanas, mais de 70 migrantes atravessam a montanha Col de l'Échelle. Regra geral, são de origem africana, muitos deles contam já com uma viagem pela Líbia e pelo Mediterrâneo e não estão preparados para o que os espera na travessia pelas montanhas. 

Um voluntário de resgate conta que, neste inverno, já procurou mais migrantes do que esquiadores. Simone Bobbio explica que estas pessoas vêm para os Alpes sem qualquer familiarização com a neve nem equipamento próprio para tolerar as agressivas condições meteorológicas, como temperaturas abaixo dos 20 graus negativos.

Estas pessoas não estão bem equipadas, não têm experiência, por isso muitas vezes precisam de ser resgatadas”, contou à CNN.

Apesar dos numerosos resgates, é quase certo que há migrantes desaparecidos nas montanhas. No entanto, ainda não se sabe ao certo o número de vítimas mortais provocadas por esta travessia.

A razão por que vamos procurar migrantes é porque queremos evitar encontrar os corpos quando a neve derreter”, declarou um guia da montanha. “Apenas na primavera vamos saber o que está por debaixo da neve. Se houver corpos, eles podem ser encontrados por nós, mas também pelos turistas”, acrescentou.

"A neve queima"

Mamadou Ba, um migrante de 28 anos, do Mali, arrepende-se da travessia que fez há 18 meses com um amigo guineense. Enquanto atravessavam o topo da montanha, ficaram presos dentro de um buraco e chegaram a pensar que iam morrer.

Como contou à CNN, Mamadou acabou por conseguir escapar e chamar ajuda. No entanto, o tempo que ali permaneceram foi demasiado: Mamadou foi operado nove vezes e perdeu os dois pés e o seu companheiro de viagem teve de amputar as mãos, que ficaram completamente congeladas.

Tudo o que fazia antes já não consigo fazer”, lamentou.

Muitos são os migrantes que tentam a sua sorte nos Alpes, muitas das vezes desconhecendo a situação de real perigo em que se colocam. Mamadou aconselha todos aqueles que pensam fazer o que ele próprio já fez a desistirem.

Eles não têm ideia do que é realmente a neve. Se alguém disser a um africano que a neve é perigosa, ele vai dizer que é mentira porque pensa que a neve é divertida. Eu não tinha ideia de que a neve queima”.