Um pai que matou a filha de seis anos num “ataque de fúria” foi condenado na terça-feira, por um tribunal britânico, a prisão perpétua, anunciou a Polícia Metropolitana de Londres. A mãe, cúmplice, vai cumprir 42 meses de pena.

Ellie Buttler morreu a 28 de outubro de 2013, na sua casa, em Sutton, um dos bairros da capital, em resultado de fraturas graves no crânio. A autópsia revelou ainda que a menina tinha lesões consistentes com um ombro partido, que não foi tratado nas semanas anteriores à sua morte, bem como lesões no cérebro, marcas negras nos olhos e no queixo.

A polícia londrina descreve mesmo as lesões como “semelhantes às resultantes de um acidente de carro a alta velocidade”.

Os pais, Ben Buttler e Jenny Gray, ambos de 36 anos, foram ainda condenados por crueldade infantil e obstrução à justiça.

O crime chocou os britânicos pela sua violência e pelo facto de o pai, que tinha historial de agressividade para com a menina, ter conseguido recuperar, cerca de um ano antes do crime, a guarda da criança, que tinha sido entregue aos avós com apenas meses de vida.

Ben Buttler, que fora condenado em 2009 por ter agredido a filha quando aquela tinha apenas sete semanas, conseguiu convencer o tribunal, em 2012, de que as marcas na bebé se deviam a uma tentativa de salvamento, uma vez que estaria apática.

Na quarta-feira, o avô materno de Ellie, Neal Gray, pediu a abertura de um inquérito à atuação da justiça, lembrando o medo manifestado pela menina durante o processo de recuperação da guarda pelos pais, e testemunhado pelas assistentes sociais.

O inferno de Ellie começou em fevereiro de 2007, quando tinha apenas sete semanas de vida. Exames médicos revelaram graves ferimentos consistentes com casos em que o bebé é violentamente sacudido. Então, a mãe, também ela vítima das agressões físicas e verbais do companheiro, não vivia com o pai da criança, a quem tinha deixado a filha.

Apesar de alegar que tentou apenas socorrer a filha, Ben Buttler foi condenado, em 2009, a 18 meses de prisão, tendo Ellie ficado à guarda dos avós maternos.

No entanto, três anos depois, a juíza que tomou conta do pedido de recuperação da guarda considerou que os ferimentos na menina poderiam ter sido "acidentais", inocentando o pai de Ellie após o que considerou ser “um erro judicial”. A mulher, Jenny Gray, chegou a dizer em programas televisivos, pouco antes da vitória em tribunal, que o marido "estava a tentar ser o pai perfeito". Com esta decisão, a menina deixou de ficar sujeita a qualquer proteção, como o acompanhamento por parte de assistentes sociais.

É uma alegria para mim ver o retorno de uma filha para os braços dos seus pais. Esta história não acaba hoje, ainda há trabalho a ser feito”, disse a juíza Mary Hogg, ao absolver Ben Buttler, no final de 2012.

Acabaria 11 meses depois, infelizmente para Ellie. Num “ataque de fúria”, como descreveu a polícia, Ben Buttler bateu na cabeça da filha até esta não resistir mais.

Depois, segundo a investigação, telefonou para a mulher, que deixou abruptamente o escritório onde trabalhava, para ajudar o marido a encobrir o crime. O telefonema para o 112 foi feito apenas duas horas depois de ter chegado a casa. De acordo com a mãe, só se aperceberam de que algo não estava bem quando a chamaram para “comer bolo” e ela não respondeu. Além de tentarem destruir provas do crime, encenaram também uma queda acidental antes da chamada de emergência.

O avô materno, que durante este último julgamento, ficou viúvo, gastou as poupanças, mais de 90 mil euros, para tentar recuperar a guarda da menina.

Agora, Neal Gray quer respostas da justiça. 

O sistema falhou com ela e connosco também. É tarde de mais para Ellie, mas não para salvar outras crianças”, disse, em declarações à BBC.