Confrontos entre dois grupos armados saídos das fileiras dos designados ex-Seleka, na noite de quarta-feira, em Ndele, no norte da República Centro-Africana, fizeram “várias mortes” entre civis e combatentes, confirmou hoje a AFP de fontes diferentes.

Os grupos Frente Popular para o Renascimento da República Centro-Africana (FPRC, na sigla em Francês) e Movimento Patriótico para a República Centro-Africana (MPC) combateram durante “uma hora”, segundo o porta-voz da missão da Organização das Nações Unidas no país (Minusca), Vladimir Monteiro.

“A Minusca enviou partilhas para a cidade” e “a situação acalmou-se depois”, acrescentou.

Ndele é uma das bases da FPRC, cuja influência se estende ao longo de grande parte da região nordeste do país, enquanto o MPC está estabelecido no noroeste, ao longo da fronteira com o Chade.

Segundo fontes no local, “vários civis e combatentes” perderam a vida durante os combates, cem que seja possível determinar um balanço preciso.

“Houve desentendimentos entre os nossos elementos da brigada mista” composta de membros dos dois grupos armados, afirmou uma fonte da FPRC.

Esta mesma fonte adiantou que “estes desentendimentos entre árabes e rungas (dois grupos étnicos associados respetivamente ao MPC e à FPRC) degeneraram em confrontos, mas a situação acalmou depois”.

Em meados de abril, estes dois grupos, que têm sido aliados, iteram uma reunião em Kaga-Bandoro, no norte, “para instalarem no terreno uma coordenação militar”, segundo uma fonte da FPRC da época.

Os dois grupos tinham ameaçado “descer sobre Bangui”, a capital do país, depois de confrontos no bairro muçulmano na cidade, o PK5, no início do mês de abril.

O governo do Presidente Faustin Touadera, um antigo primeiro-ministro, que venceu as presidenciais de 2016, controla cerca de um quinto do território. O resto é dividido por pelo menos 14 milícias, que, na sua maioria, procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes, ouro, entre outros) e abate de elefantes para vender o marfim.

Contudo, estão em curso várias tentativas de mediação, designadamente da parte da União Africana. Um grupo de intermediários reuniu-se nos últimos meses com representantes daqueles grupos.

Em 2103, as milícias agrupadas na Seleka (palavra para ‘aliança’ na língua franca do país, o sango) derrubou o Presidente François Bozizé, em 24 de março, culminando a rebelião iniciada em dezembro de 2012 no nordeste, de maioria muçulmana.

Um dos líderes da Seleka, Michel Djotodia, foi então empossado como Presidente.

Apesar de dissolvida oficialmente, em 14 de setembro de 2013, por Djotodia, parte importante dos seus milicianos recusaram desarmar, ficando conhecidos como ex-Seleka.

Trinidad Deiros, investigador no Instituto de Estudos Estratégicos de Espanha, recorda, em documento publicado no sítio da organização na Internet, que os grupos que deram origem à Seleka eram integrados por senhores de guerra, mercenários, caçadores furtivos, bandidos e antigos membros do aparelho de Estado, político e militar.

Portugal está presente no país, no quadro da Minusca, com a 3.ª Força Nacional Destacada Conjunta, composta por 159 militares, dos quais 156 do Exército, sendo 126 paraquedistas, e três da Força Aérea, que iniciaram a missão em 05 de março de 2018 e têm a data prevista de finalização no início de setembro deste ano.

Os 159 militares que estão no terreno compõem a Força de Reação Rápida (QRF) da Minusca e têm a sua base principal na capital, em Bangui, junto ao aeroporto, e já estiveram envolvidos em quase duas dezenas de confrontos.

Situação submerge missão ONU, que tem ameaças a subir

A missão dos ‘capacetes azuis’ na República Centro-Africana está “ultrapassada” pela situação e “as ameaças contra o pessoal da manutenção de paz continuam a aumentar”, afirmou na quinta-feira o enviado da ONU para o país.

Em declarações ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), Parfait Onanga-Anyanga acrescentou que o pessoal da MINUSCA (sigla em Inglês de Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana), “militar, policial e civil, constituía alvos para os grupos armados e os grupos de criminosos, tanto na capital como no interior do país”.

O governo do Presidente Faustin Touadera, um antigo primeiro-ministro, que venceu as presidenciais de 2016, controla cerca de um quinto do território. O resto é dividido por pelo menos 14 milícias, que, na sua maioria, procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão e bloqueio de vias de comunicação, bem como do controlo de recursos minerais (diamantes, ouro, entre outros), do gado e do abate de elefantes para vender o marfim.

“Os grupos armados e as fações continuam a exercer uma influência negativa sobre vastas zonas do território nacional, designadamente no leste, no centro e no noroeste do país”, confirmou Parfait Onanga-Anyanga.

Perante a degradação da situação, o Conselho de Segurança aprovou no final de 2017, um reforço a MINUSCA em 900 efetivos. A MINUSCA está autorizada a ter 11.650 militares e polícias, mas, com referência a 01 de junho, só tinha 11.014.

Num relatório recente sobre o país, que o secretário-geral da ONU, António Guterres apresentou, sublinha-se que a MINUSCA é incapaz só por si de garantir a segurança na República Centro-Africana. A primeira responsabilidade é do governo de Bangui, a quem reclamou a aceleração do processo de construção das forças armadas nacionais.

“A volátil situação de segurança e os confrontos recorrentes entre os grupos armados continuam a afetar negativamente o processo político”, destacou o emissário da ONU.

Contudo, estão em curso várias tentativas de mediação, designadamente da parte da União Africana. Um grupo de intermediários reuniu-se nos últimos meses com representantes daqueles grupos.

Estes grupos “devem depor as armas e envolver-se sem delongas nem condições no processo de paz”, exigiu entre os intervenientes do embaixador francês na ONU, François Delattre. Ele lembrou que o Conselho de Segurança tinha à sua disposição “o instrumento das sanções” contra os que se opuserem ao processo de paz.

O representante adjunto dos EUA na ONU, Jonathan Cohen, reconheceu, por seu lado, que a MINUSCA está sob pressão “e com dificuldade em cumprir o seu mandato”.

Portugal está presente no país, no quadro da MINUSCA, com a 3.ª Força Nacional Destacada Conjunta, composta por 159 militares, dos quais 156 do Exército, sendo 126 paraquedistas, e três da Força Aérea, que iniciaram a missão em 05 de março de 2018 e têm a data prevista de finalização no início de setembro deste ano.

Os 159 militares que estão no terreno compõem a Força de Reação Rápida (QRF) da MINUSCA e têm a sua base principal na capital, em Bangui, junto ao aeroporto, e já estiveram envolvidos em quase duas dezenas de confrontos.