A China recomendou esta sexta-feira aos Estados Unidos e à Coreia do Norte para “mostrarem prudência” e “agirem mais ativamente” visando acabar com “uma situação tensa”, após nova escalada verbal entre Washington e Pyongyang.

Apelamos a todas as partes para mostrarem prudência nas suas palavras e ações e a fazerem mais para atenuar as tensões”, declarou Geng Shuang, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, num comunicado.

Devem esforçar-se para “aumentar a sua confiança mútua em vez de recorrerem a velhas receitas que consistem em encadear demonstrações de força”, adiantou o governo chinês.

Horas depois, foi a vez do ministro russo dos Negócios Estrangeiros reconhecer que os riscos de um conflito entre Coreia do Norte e Estados Unidos estão num nível "muito elevado", deixando Moscovo deveras preocupado com o crescer das amaças.

O lado que é mais forte e mais inteligente" deve dar o primeiro passo para desarmar a crise, sustentou Sergei Lavrov, falando num fórum com estudantes, transmitido pela televisão russa.

Lavrov voltou a convidar a Coreia do Norte e os Estados Unidos a subscreverem um plano russo-chinês, segundo o qual, Pyongyang pararia com os seus testes de mísseis e os norte-americanos e os aliados sul-coreanos fariam uma moratória nos exercícios militares conjuntos.

Guerra de palavras

Apesar das recomendações chinesas - que sucedem, por exemplo, a outras feitas pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres -, a escalada de ameaças mantém-se entre o regime norte-coreano - que mantém a ameaça de disparar quatro mísseis contra a ilha norte-americana de Guam, dentro de dias - e o presidente norte-americano, que se mantém "fechado em copas" sobre o que quis dizer com "fogo e fúria", acrescentado entretanto que a Coreia do Norte deve ficar "muito, muito nervosa" caso faça qualquer coisa contra os Estados Unidos.

Através da habitual rede Twitter, Donald Trump veio entretanto reforçar as ameaças, após ter falado na Casa Branca.

As soluções militares estão totalmente instaladas, prontas e carregadas, se a Coreia do Norte atuar imprudentemente. Espero que Kim Jong Un encontre outro caminho!", escreveu o presidente dos Estados Unidos.

As dúvidas existem, contudo, face à China, tradicional suporte político e diplomático da vizinha Coreia do Norte. O jornal estatal Global Times, em editorial, refere que Pequim deverá assumir uma posição neutral, caso haja atos de guerra entre Pyongyang e Washington.

A China deve tornar muito claro que se a Coreia do Norte disparar mísseis que ameacem solo norte-americano e os Estados Unidos retaliarem, a China ficará neutral", escreve o editorial do jornal, acrescentando que "se os Estados Unidos e a Coreia do Sul atacarem para acabar com o regime norte-coreano e mudar o padrão político na península coreana, a China tomará providências para impedir que o façam".

Cerrar fileiras

A continuação das ameaças verbais entre Estados Unidos e Coreia do Norte tem levado vários países da região a prometer cerrar fileiras ao lado dos norte-americanos.

A sul, o governo de Seul, apesar de lidar com as frequentes ameaças verbais do vizinho com quem divide a península da Coreia desde a guerra entre 1950 e 1953, mostra-se disposto a reforçar ainda mais o seu dispositivo militar.

Como faz notar a agência noticiosa Reuters, a Coreia do Sul já gasta 10% do seu orçamento em defesa, tem um exército com 625 mil soldados e o apoio de 28 mil tropas norte-americanos, além de dispositivos de defesa anti-míssil de fabrico norte-americano, sejam os Patriot ou o sistema THAAD.

Ainda assim, Seul pondera reforçar a sua capacidade militar, sendo que no final deste mês levará a cabo exercícios militares anuais, em conjunto com as forças norte-americanas, nas suas águas territoriais.

O receio de um lançamento de mísseis pela Coreia do Norte contra a ilha de Guam, onde estão instaladas bases militares dos Estados Unidos, levou também o Japão a pôr-se em sentido. O governo do primeiro-ministro Shinzo Abe já anunciou estar alerta e pronto a intervir caso algum míssil norte-coreano venha a sobrevoar o seu território.

Fora da Ásia, também a Austrália já se mostrou pronta para o pior. 

Se houver um ataque contra os Estados Unidos, o Tratado ANZUS será invocado e a Austrália irá em defesa dos Estados Unidos, tal como a America faria se fossemos atacados", sublinhou o primeiro-ministro Malcolm Turnbull numa entrevista radiofónica, invocando o acordo de defesa que inclui também a Nova Zelândia.

Primeiras baixas

Com as armas caladas, mas as vozes alteradas, as bolsas de valores têm sido as primeiras a sofrer com a escalada da tensão entre Estados Unidos e Coreia do Norte.

As principais bolsas mundiais mostram quedas pelo quarto dia consecutivo e caminham para a sua pior semana desde novembro passado, com os investidores a procurem a moeda japonesa, os francos suíços e o ouro.

A agência Reuters faz notar que, as quedas dos índices nos mercados asiáticos parecem estar a fazer cair também as bolsas europeias na Europa, que abriram em baixa esta sexta-feira, numa tendência mundial que pode ser "a maior queda semanal desde a semana anterior à eleição de Donald Trump".