É fácil vaiar, mas será mais difícil olharem os vossos filhos na cara se estivermos a viver sob uma presidência Trump”
BERNIE SANDERS, para os seus apoiantes, quando declarava, em plena Convenção Democrata de Filadélfia, o apoio a Hillary Clinton

 
Quando eles descem cada vez mais baixo, nós elevamo-nos ainda mais”
MICHELLE OBAMA, sobre a forma como os democratas vão reagir nesta eleição ao comportamento de Donald Trump e os seus apoiantes
 

Os próximos 100 dias vão definir boa parte do que serão os EUA e, por arrasto, o resto do mundo, nas próximas décadas. 
Depois de oito anos de presidência democrata, seria de admitir que o ciclo presidencial que se iniciará com as eleições de 8 de novembro favorecesse os republicanos. 

Nos últimos 56 anos, desde a eleição de Kennedy em 1960, houve 28 anos de presidência democrata (JFK, Johnson, Carter, Bill Clinton, Obama) e 28 anos de presidência republicana (Nixon, Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho).

Sucede que esta não é uma eleição normal. O grau de imprevisibilidade sobre o que poderá acontecer é enorme.

Do lado republicano, o nomeado, Donald Trump, tem características tão fora da norma e um comportamento público tão bizarro que dificilmente conseguirá o pleno do «mosaico» da direita americana.

Mas no campo democrata também ainda não é certo que Hillary Clinton consiga federar as sensibilidades mais à esquerda, depois de um processo de primárias em que Bernie Sanders conseguiu chegar mais longe do que, provavelmente, o próprio senador do Vermont imaginaria no início da corrida.

Ambiente divisivo

Há outros fatores que fazem da disputa presidencial de 2016 um momento diferente de todos os outros.

Antes do mais, pelo facto inesperado dos dois candidatos terem níveis de rejeição estranhamente elevados.
Perto de 50 por cento dos americanos dizem não gostar de Hillary Clinton; mais de 60 por cento garante recusar a ideia de ver Donald Trump na Casa Branca.

Ganhe quem ganhar, o próximo Presidente dos EUA será alguém com uma aceitação no eleitorado não muito superior a metade da realidade da América – e só isso já nos mostra como aquele grande país está polarizado e como esta é uma eleição realizada num ambiente divisivo e pouco saudável.

As convenções partidárias, que dominaram nas últimas duas semanas o espaço mediático um pouco por todo o mundo, mostraram-nos duas visões completamente diferentes sobre os EUA, a forma de governar, a relação com o poder e até o modo como um Presidente dos EUA se deve comportar com os restantes líderes mundiais e com as instituições com que se relaciona.

A América assustadora de Donald Trump

Donald Trump apresentou uma perspetiva “dark”, negativa, pessimista e quase assustadora do momento atual dos EUA.
O nomeado presidencial republicano traçou uma América pior do que, na verdade, ela é neste momento.

Jogou com o medo (carta poderosa em tempos de incerteza e indefinição, como os que vivemos), associou a imigração e os refugiados com o crime e a insegurança, prometendo ser o presidente “da lei e da ordem”, embora sem explicar muito bem como.

Foi um conclave quase sinistro, em que se lançou o ‘claim’ “Hillary para a prisão” (exatamente porquê, não se sabe bem), do qual se ausentaram várias figuras de topo do Partido Republicano, como Jeb Bush, Mitt Romney, John McCain ou os dois únicos presidentes republicanos vivos, George HW Bush e George W. Bush.

John Kasich, governador do Ohio, terceiro classificado nas primárias e último sobrevivente de um mínimo de moderação e clareza no GOP, recusou convite para discursar.

E, para lá do “one man show” Trump, assistiu-se a discursos inflamados e pouco rigorosos de figuras como Rudy Giuliani e Chris Christie (ambos em versão radicalizada e com um ódio visceral a Hillary Clinton, eles que até há poucos anos pareciam ser da ala mais centrista do Partido Republicano) ou Ben Carson (que tentou, antes de Trump, liderar a onda anti-políticos das primárias republicanas).

Ted Cruz assumiu o papel de guardião do partido, com intervenção corajosa a recusar o “endorsment” de Trump, mas até isso significou um sinal de alarme no atual estado do Partido Republicano: o senador do Texas, segundo classificado nas primárias.

O mais desconcertante foi ter visto, na Convenção que investiu Trump, como o multimilionário nova-iorquino não tenciona, de forma alguma, refinar o seu estilo truculento até à eleição geral.

Donald voltou a falar do muro mexicano, voltou a soltar demónios que ensombram o imaginário americano, voltou a lançar acusações torpes contra a sua rival Hillary Clinton.

O modo irresponsável como sugeriu, em conferência de Imprensa já durante a Convenção Democrata, que a Rússia poderia «piratear» emails de Hillary como secretária de Estado, e depois libertar as conclusões para os media, passou tanto das marcas que o próprio Trump se sentiu na necessidade de dizer, no dia seguinte, que… estava a brincar. “Já não se pode fazer humor!”, atirou aos apoiantes, numa tentativa tosca de controlar danos, depois de ser criticado por grande parte das cúpulas militares a quem pretende dar ordens a partir de janeiro de 2017.

Perspetiva assustadora, de facto, em função do tipo de declarações que Trump insiste em lançar, sobretudo no plano das relações internacionais (a promessa de não de respeitar o artigo 5.º do tratado que regula a NATO, e que prevê que perante um ataque a um país da Aliança Atlântica, os outros têm a obrigação de o socorrer, insinuando assim que os EUA não ajudariam os países bálticos que se sentem ameaçados pelo ‘urso’ russo, algo que, dito por um possível presidente dos EUA, pode gerar uma perturbação inimaginável no leste europeu).

Trump continuará a ser Trump

O passar do tempo e o aproximar da eleição geral tira as dúvidas que ainda pudessem persistir: Trump continuará a ser Trump.

Não é de esperar que, na reta final, Donald passe a ser um candidato mais convencional e ponderado (o próprio candidato, de resto, avisou este sábado ‘no more Mr. Nice Guy’, anunciando que iria aumentar o tom das acusações contra Hillary, talvez receoso de que Clinton venha a ter um ‘bounce’ após a convenção).

Na verdade, foi por não ser assim que obteve a nomeação, em ano de total derrocada do «establishment» do partido que já foi Lincoln (que acabou com a escravatura, há século e meio), de Eisenhower (presidente que promoveu avanços importantes nos direitos civis) e Reagan (o presidente que selou uma visão positiva, confiante e vencedora do ‘país excecional’, a ‘last best hope of earth’, farol de Liberdade e Democracia para o mundo).

Com Trump, o Partido Republicano, versão 2016, tornou-se no palco para um candidato populista, demagógico, que lança promessas vãs e acusações infundadas, com intervenções que denotam desconhecimento do caminho longo que é exigido nas relações internacionais (a relação dos EUA com a China, por exemplo, tem vindo a ser alimentada há meio século, desde Nixon, independentemente das administrações americanas serem democratas ou republicanas).

Ao atirar de forma simplista as culpas para questões como a integração dos imigrantes ou a reconversão de indústrias que perderam peso com a globalização para “os chineses” ou “os mexicanos”, ao dizer que “em matéria de liderança, Vladimir Putin merece um A”, Donald Trump mostra ser um nomeado presidencial republicano sem qualquer tipo de comparação em relação aos seus dois antecessores, John McCain (2008) e Mitt Romney (2012).

Romney, há apenas quatro anos, identificava durante a campanha que viria a perder para Obama, Putin como “a maior ameaça à ordem internacional”. O diagnóstico viria a mostrar-se correto, se atendermos ao que o presidente russo fez desde aí.

Vermos Trump a elogiar as qualidades de liderança de Putin, de modo a insinuar suposta fraqueza de Obama e Hillary perante o presidente russo, dá conta da total mudança de dados que se verificou na política americana, e sobretudo no Partido Republicano, nos últimos anos.

Não é, por isso, de admirar que boa parte da elite republicana não vá a jogo nesta campanha. Muitos dos principais líderes do GOP desejarão, até, que Trump perca gloriosamente em novembro, para que a partir daí se faça uma reconversão do Partido Republicano, de modo a iniciar o ataque a 2020, tentando evitar a reeleição de Hillary.

Seria, talvez, um mal menor, perante a possibilidade de ver Trump na Casa Branca: como atuariam os principais líderes republicanos, aproximavam-se do novo presidente, reclamando ser do mesmo partido ou manter-se-iam à margem?

Hillary pisca o olho aos republicanos indignados

Hillary vai tentar aproveitar-se eleitoralmente desta ambiguidade republicana.

No discurso de aceitação da nomeação presidencial da primeira mulher (uma peça bem construída e a tocar nos pontos essenciais, mas sem o brilho oratório de Bill Clinton ou Barack Obama), Hillary acenou ao eleitorado independente e mesmo aos republicanos, convocando todos para a necessidade de evitar a eleição de Trump.

Este denominador comum, “anti-Trump”, pode, aliás, ajudar a candidata a minimizar os problemas que continua a ter de conexão com boa parte dos segmentos que precisa de conquistar para chegar à presidência.

Hillary é vista com desconfiança pela ala esquerda do partido – que a acusa de ter estado demasiado próxima dos interesses financeiros e do grande capital, ao longo dos últimos anos – e ainda não foi perdoada por muitos republicanos que se recordam dos anos agitados da presidência Bill Clinton (nos quais a então Primeira Dama falou de uma “vasta conspiração de Direita” para pôr o marido fora da Casa Branca).

América confiante, versão democrata

Num contraste total com o que se assistiu em Cleveland, a Convenção de Filadélfia exortou uma América positiva, confiante, a colher os frutos de oito anos de recuperação económica nos dois mandatos presidenciais de Obama.

Se Trump foi coroado sem as palmas dos principais líderes republicanos, Hillary foi investida com o patrocínio dos democratas mais amadas e populares: o seu próprio marido, Bill Clinton; o seu antigo rival nas primárias de 2008 e hoje forte apoiante, o Presidente Barack Obama; e a Primeira Dama, Michelle Obama.

Obama assumiu a «passagem de testemunho» à «melhor candidata que alguma vez se apresentou a umas eleições presidenciais nos EUA». «Nem eu, nem Bill, ninguém é mais qualificado para o cargo do que Hillary Clinton», um elogio máximo que Barack deu à sua antiga rival, mas também antiga secretária de Estado, numa espécie de dupla retribuição, depois de Hillary ter sido exemplar em 2008 no apoio a Obama na eleição geral – e depois de Bill Clinton ter sido muito importante na mobilização democrata para a reeleição de Barack, com um discurso notável na Convenção de 2012.

Além dessas “super estrelas” do Partido Democrata, a convenção que nomeou Hillary juntou outras figuras importantes para construir a narrativa de confiança, união e noção «we are stronger together» (juntos somos mais fortes), para sublinhar a diferença com a mensagem de ressentimento e divisão do estranho universo trumpiano.

O candidato a vice no ticket de Hillary, Tim Kaine, é um bom exemplo dessa aposta: vem de um estado que era republicano e agora pode manter-se democrata (passou a sê-lo desde Obama 2008), a Virgínia; é católico; fala espanhol na perfeição e trabalhou nas Honduras, o que certamente agrada ao eleitorado hispânico, que Hillary tem que aprofundar; no discurso de aceitação reduziu Trump a um tipo sem credibilidade e sem fundamentação ideológica.

Michael Bloomberg, antigo mayor de Nova Iorque eleito pelo Partido Republicano, ajudou no argumento de que os republicanos responsáveis e racionais vão preferir Hillary a Trump; Joe Biden, Leon Panetta, Jerry Brown e Martin O’Malley reforçaram a tese de que os democratas moderados e centristas estão firmemente com Hillary e contra Trump.

E Jennifer Granholm, a antiga governadora do Michigan, corporizou com alma e paixão a ideia de que uma candidata como Hillary Clinton tem tudo para bater um Trump «vaiodoso e egocêntrico». Terá sido o discurso mais mobilizador entre outras intervenções de mulheres, como Meryl Streep ou a própria filha de Hillary, Chelsea (o discurso de Michelle está noutro patamar, entre os melhores que alguma vez se fizeram em convenções partidárias nos EUA).

Bernie está com Hillary. E os seus apoiantes?

A contestação do movimento «Feel the Bern» ameaçou estragar a festa a Hillary, mas a intervenção responsável do próprio Bernie Sanders evitou o pior.

Não foi uma ajuda desinteressada.

O senador do Vermont, depois de uma campanha notável em que obteve perto de 45% dos votos dos eleitores democratas, conseguiu impor a sua influência na plataforma com que Hillary se proporá ir às urnas a 8 de novembro.

Os pormenores das propostas ainda não foram divulgados, mas já se fala na candidatura presidencial mais à esquerda desde 1972, ano em que o progressista George McGovern foi o nomeado democrata, perdendo rotundamente para Nixon, que viria a obter a reeleição.

E aqui está a “quadratura do círculo” que Hillary vai tentar cumprir até 8 de novembro: segurar o pleno do campo democrata e conquistar boa parte dos republicanos que se recusem a votar Trump.

Olhem para a Rust Belt

Na aceitação da nomeação, Hillary já sinalizou um dos pontos fulcrais na sua estratégia para a vitória: os estados do Midwest que votaram fortemente em Obama em 2008 e 2012 e que agora dão sinais de poderem virar-se para Trump.

Um dos eleitores-tipo do nomeado republicano é homem, branco, trabalhador “blue colar”, sem estudos superiores. Ora, isso bate completamente na faixa dominante em estados como o Ohio, a Pensilvânia e o Michigan. Em parte também no Wisconsin.

As sondagens, nas últimas semanas, dão conta de uma subida de Trump nesses estados, sobretudo nos primeiros três, ameaçando o suposto favoritismo de Hillary no Midwest.

Ciente desse risco, a candidata democrata dedicou uma parte do seu discurso de aceitação aos descontentes desses estados da Rust Belt: “Alguns de vós estão frustrados – furiosos até. E sabem uma coisa? Estão certos. Têm razão. Isto não está a funcionar da forma que devia. Os americanos estão desejosos de trabalhar e sentem que há cada vez menos respeito pelo trabalho que fazem. E menos respeito por eles, ponto. Os democratas são o partido da classe trabalhadora. Mas não fizemos um trabalho suficientemente bom a provar que estamos no caminho certo e que vamos resolver as coisas. Por isso, quero aqui dizer como conto fortalecer os americanos, ajudando-os a viverem vidas melhores. A minha primeira missão como Presidente será criar mais e melhores oportunidades, com salários a subir aqui mesmo, nos EUA. Desde o meu primeiro dia no cargo até ao último. Especialmente nos locais que há muito têm ficado para trás e têm sido esquecidos. Desde as nossas ‘inner cities’ até às cidades mais pequenas, da Indian Country à Coal Country. Das comunidades marcadas pela droga às regiões ensombradas pelo fecho de fábricas”.

Faltam exatamente 100 DIAS para as eleições presidenciais nos EUA.

Apertem os cintos, segurem-se bem: a partir de agora, vai valer quase tudo.